quarta-feira, 28 de abril de 2010

Soneto musical

Dora Brisa

Música tem o tamanho do mar,
O cheiro de sopa ao anoitecer,
O brilho do olhar,
O formato de uma nuvem ao amanhecer.

Música tem, do crepúsculo, a cor,
Do silêncio, o acorde melodioso,
Da Mãe Terra, o sabor,
Da vida, o toque harmonioso.

Música precisa dizer mais,
Aquém ou além,
Sempre ou jamais.

Se alma não contém,
Não é música, não é nada,
Nem sombra de ninguém.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Tantos cantos

Dora Brisa

Pelos cantos
Eu me perco
Eu me acho

Pelos cantos
Eu me defendo
Eu me escracho

Pelos cantos
Eu lembro
Eu esqueço

Pelos cantos
Eu ouço
Eu ensurdeço

Pelos cantos
Eu choro
Eu sorrio

Pelos cantos
Eu imploro
Eu renuncio

Pelos cantos
Eu me escondo
Eu me exponho

Pelos cantos
Eu me descabelo
Eu me recomponho

Pelos cantos
Eu me desespero
Eu me extasio

Pelos cantos
Eu encontro
Eu extravio

Pelos cantos
Eu vago
Eu divago

Pelos cantos
Eu rabisco
Eu apago

Pelos cantos
Eu aquieto
Eu corro

Pelos cantos
Eu sobrevivo
Eu morro

Pelos cantos
Eu me encanto
Eu me desencanto

Pelos cantos
Eu sou tantos
Tantos cantos...

na minha voz:

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Aos meus filhos crescidos

Dora Brisa

Venham, meus filhos,
Aconcheguem-se, mais uma vez,
Neste meu corpo já frágil,
Nesta minha alma torta,
Para nos protegermos,
Mutuamente,
De todos os medos,
Todas as certezas...
Já não canto mais para
Vocês dormirem,
Já não tenho respostas,
Pois sobrevivo de perguntas,
E sou eu a perder os sonhos
Que nunca tive...
Um dia, meus filhos,
Nada mais será assim,
E já não poderei mais
Fazer brincadeiras com vocês,
Nem preencher seus dias, suas noites,
Com palhaçadas infantis,
Programinhas familiares...
Nada mais posso fazer,
A não ser permanecer aqui,
Ao lado de vocês,
Que se debatem no
Cotidiano assombroso,
Nas experiências humanas...
Aproveitemos este instante,
Meus filhos,
Quando ainda podemos
Chorar e sorrir juntos,
Por que, lá adiante,
Haverá caminhada solitária,
Silêncio na noite
Misturada de lágrimas...
Ainda uma vez mais,
Não esqueçam a canção de ninar
Todos os sonhos, meus filhos...
E guardem este instante único,
Para quando não houver mais nada,
Nada mesmo que os faça sorrir...
Não esqueçam os sonhos,
Os risos e as lágrimas
Que acalentamos juntos,
Meus filhos...
Quando o mundo lhes pesar
Nos ombros,
Lembrem:
O impossível não existe,
Se vocês ainda puderem ouvir,
No fundo do coração,
A melodia da canção de ninar,
E - Oxalá! - a minha própria voz
A dizer-lhes:
- Podem dormir. Mamãe está aqui.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Aos meus filhos

Dora Brisa

Venham, meus filhos,
Aconcheguem mais uma vez
Seus corpos ainda frágeis
Junto ao meu peito,
Que protegerei vocês
De todos os medos,
Responderei todas as suas perguntas,
Cantarei para vocês dormirem...
Porque, um dia, meus filhos,
Nada mais será assim,
E já não poderei
Protegê-los dos medos da vida,
Não terei mais respostas
Às suas perguntas doloridas,
E nenhuma canção sairá
Da minha boca,
Porque não estarei por perto,
E vocês perderão o sono
Por medo,
Na busca de respostas...
Aproveitemos este instante,
Meus filhos,
Quando sinto vocês protegidos
Por esta alma que,
Por já conhecer a vida,
Sabe dos medos,
Das perguntas,
Mas não esquece as canções de ninar...
Descansem os corpos frágeis,
As almas ansiosas,
E guardem este instante único,
Meus filhos,
Para quando chegarem
Os medos,
As lágrimas,
As dores,
As perguntas sem respostas,
As respostas sem perguntas,
A vida...
E não esqueçam
A canção de ninar,
Para ouvirem quando
O sono fugir,
A madrugada chegar,
E o silêncio se transformar em lágrima...
Ainda assim, meus filhos,
Poderão ouvir,
No fundo do coração,
A melodia da canção de ninar,
E - Oxalá! - a minha própria voz
A dizer-lhes:
- Podem dormir. Mamãe está aqui.

Voz - Helena Antoun:

sábado, 17 de abril de 2010

A vida é só isso

Dora Brisa

Nada questiona,
Por que a vida é só isso.
Tudo amaldiçoa e agradeça,
Por que a vida é só isso.
Rasga a carne da tua alma,
Joga fora o que achar lá dentro,
Por que a vida é só isso.
Desfruta o sal da tempestade,
E o doce das ondas do mar,
Por que a vida é só isso.
Faça de conta que acredita
No amor e no ódio,
Por que a vida é só isso.
Retira do útero instante,
A eternidade do que nunca será,
Por que a vida é só isso.
Corra o olhar por tudo,
Sobrevoa o imaginário nada,
Por que a vida é só isso.
Deixa teu tempo na fila da feira,
Ajoelha para o patrão,
Por que a vida é só isso.
Forra teus dias, teu estômago,
De podridão e caviar,
Por que a vida é só isso.
Leia Pessoa, ou Piaget,
Planeja tua morte,
Por que a vida é só isso.
Passa madrugadas insones,
Sorva o sono dos injustos,
Por que a vida é só isso.
Vá ser doutor letrado,
Implora a tua dose de cicuta,
Por que a vida é só isso.
Casa por interesse, ou desinteresse,
Planta bananeira na praça,
Por que a vida é só isso.
Faça tudo, faça nada,
Aborta os filhos da tua loucura infértil,
Por que a vida é só isso.
Rasga o imaginário,
Agradeça teu estômago,
Por que a vida é só isso.
Retira a eternidade,
Implora a carne e o doce,
Por que a vida é só isso.
Faça os filhos da feira,
Vá ser bananeira do mar,
Por que a vida é só isso.
Ajoelha teus dias insones,
Joga fora o sal da tua loucura,
Por que a vida é só isso.
Corra para o patrão,
Questiona a tua dose,
Por que a vida é só isso.
Casa tua morte na praça,
Sobrevoa o sono, ou Piaget,
Por que a vida é só isso.
Faça de conta no amor infértil,
Deixa o que achar lá dentro,
Por que a vida é só isso.
Amaldiçoa o doutor da tua alma,
Leia o olhar do que nunca será,
Por que a vida é só isso.
Passa das ondas de cicuta, ou desinteresse,
Aborta madrugadas de podridão,
Por que a vida é só isso.
Desfruta, letrado dos injustos,
Teu tempo, por interesse e caviar,
Por que a vida é só isso.
Faça do útero, Pessoa na fila,
E planta no ódio da tempestade,
Por que a vida é só isso.
Planeja tudo que acredita,
Sorva nada por tudo.
Por que a vida é só isso.
Só isso.
Isso.
Só.
(E ainda acaba.)

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Preciso tanto de você

Dora Brisa

Preciso tanto de você,
Quando me torno rarefeita,
E você não sabe, nem suspeita...
Preciso tanto de você,
Quando falo tudo incompreensível,
Enquanto você pensa o que é possível...
Preciso tanto de você,
Quando o mundo parece me sufocar,
E você se diz cansado, vai deitar...
Preciso tanto de você,
Quando busco sua alma, ao me entregar,
Enquanto você nem sonha acordar...
Preciso tanto de você,
Quando faço do silêncio, realidade,
E você se perde em banalidade...
Preciso tanto de você,
Quando perco o sono, sem porquê,
Enquanto você dorme para esquecer...
Preciso tanto de você,
Quando busco sintonia,
E você quer saber da TV como companhia...
Preciso tanto de você,
Quando, ao encontro, corro atrasada,
E você repete: "maluca, destrambelhada"...
Preciso tanto de você,
Quando me visita a depressão,
E você tem mais o que fazer, com o jornal na mão...
Preciso tanto de você,
Quando revelo uma realidade só minha,
E você conclui porque sempre fui sozinha...
Preciso tanto de você,
Desta sua ausência definitiva - fatal,
Para eu saber da minha vida louca, "banal"...
Preciso tanto de você,
Assim, sem me enxergar, distante,
Para eu me reconhecer livre o bastante...
Preciso tanto de você,
Longe do meu caminhar...
Por favor - só agora -, permita-me sonhar...
Preciso tanto de você,
Fazendo tudo para sempre fugir...
Pode ter certeza: para lá, não quero ir...
Preciso tanto de você,
Para jamais lhe dizer:
Continuo doida varrida,
Mais silenciosa,
Um tanto recolhida...
Às vezes até pareço "normal":
- Como
- Bebo
- Durmo...
Mas ainda sonho acordada,
Falo sozinha,
Continuo destrambelhada,
E minha alma segue a luzinha
Do que não é visível,
explicável,
compreensível,
vulnerável...
Preciso de mim!...

Voz - Elisa:

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Hoje

Dora Brisa

Hoje (instantes que passam), quero sentir sede, mas não sede saciada por uma água bem gelada. Não. Quero mais que isso. Quero saciar a sede da alma.
Lembro agora que, todos os dias, via aquela garotinha raquítica (não mais que oito anos de idade) passar pela rua carregando uma garrafa vazia. Depois de algum tempo (longe dos relógios), voltava ela com a garrafa cheia d’água límpida, e seguia a ladeira, compenetrada, cabisbaixa.
Um dia qualquer desses, resolvi interpelá-la, quando ela dirigiu a mim, um olhar triste, absorto – único. Perguntei-lhe se não havia água em casa, e ela confessou-me, com o olhar fixo, que ia sempre buscar água para o avô doente, que morava sozinho. “Lá, no barraco do meu avô, água é líquido sagrado e raro” – disse-me ela, em voz séria e amadurecida, sentindo o que falava. “E meu avô também sente sede” – foi o que sussurrou, antes de seguir à ladeira.
O tempo passou, e fiquei com a imagem daquela menina no meu sentir (porque nunca mais pensei a respeito). Não mais a vi passar por ali, e julguei que o avô tivesse morrido; mas não de sede. Com certeza.
Neste instante (um dos instantes do meu hoje), quero sentir a sede deste velho desconhecido, doente. Quero saciar minha sede com a água cristalina que vi passar nos braços daquela criança. Quero sorver um só daqueles instantes em que a garota chegava no barraco do avô, punha a garrafa sobre a mesa improvisada, e pegava um copo para servi-lo à boca, que sequer balbuciava mais um “obrigado”.
Hoje (neste instante único que passa), quero absorver o olhar de gratidão do avô, saciando a sede que lhe queimava na alma. Quero sorver cada gota daquela água carregada pela menina. Quero mais sede ainda, para continuar sentindo o mesmo olhar que aguardava a menina na rua.

domingo, 11 de abril de 2010

Coração

Dora Brisa

O coração que te entrego agora
Não bate, nem apanha...
Tão-somente pulsa e sangra a cada hora...
Por isso, toma cuidado: não arranha...

Este coração não é feito de poesia...
Pelo contrário, tem sangue - morno e vermelho...
Coração de vida vadia,
Órgão refletido no menor espelho...

Pequeno, e quase sempre tão frágil,
Cabe - inteiro - na tua mão...
Evita o movimento mais ágil,
Pois o que tens é o meu coração...

Coração que não pulsa mais forte diante da dor,
Nem acelera enamorado...
Um órgão feito de sangue - amor...
Nada mais que um pedaço do meu corpo dilacerado...

Aceita este coração a pulsar descompassado,
Em ritmo às vezes tão inseguro...
Entre tuas mãos, abandonado,
Entregue ao sentimento mais puro...

E se um dia este coração não mais pulsar,
Silencia por um momento...
Nada de lágrimas a extravasar,
Nem qualquer poesia de lamento...

Foi apenas mais um coração
Que, de tanto pulsar, chegou a morrer...
E por amar sem qualquer exatidão,
Simplesmente não suportou mais viver...

Voz: Sereníssima:

sábado, 10 de abril de 2010

Um sonho (ou o que poderia ter sido)

Dora Brisa

Goiânia faz calor. Um calor que seca até a alma da gente. Aproveito a brisa noturna, e adormeço na rede estirada na varanda, nos fundos desta casa para mim desconhecida.
Desperto com os primeiros reflexos do sol. De novo, é dia. Por algum tempo, insisto em manter os olhos fechados, sentindo o colo que a rede me dá.
Aos poucos, cedo aos raios do sol, abrindo os olhos lentamente, sem querer despertar. No alto, o que vejo são brancas e esparsas nuvens, que – tão rarefeitas que estão – nem sequer cobrem o azul do céu. É dia. E tudo de repente clareia ao alto.
Logo abaixo da nuvem menor, a cobertura de um prédio pequeno, onde uma mulher está a olhar em direção do céu. Com os braços cruzados, ela parece extasiada diante do algodão rarefeito que cruza o infinito. Anda de lá para cá na varanda da cobertura, enquanto eu me estico e me encolho nesta rede, sem perdê-la de vista um só instante.
Ainda sonolenta, vou despertando aos poucos, tornando cada vez mais nítida a imagem da mulher na cobertura. Ela continua a caminhar, e às vezes olha para o céu. O que pensa ou sente ela? Será que, como eu, está a divagar sobre a pequenez humana? E nós – seres humanos – tão fortes, tão corajosos. Por dentro, medos e inseguranças, fragilidades contidas. É dia. O infinito clareia o nosso dia. Mais um dia da nossa pequenez acobertada.
Meus olhos vão e vêm naquela cobertura, acompanhando os passos lentos da mulher desconhecida. Será indecisão? Os passos são tão insistentes, que eu, na minha pequenez humana enrolada nesta rede, procuro desvendar o enigma. Viajo em suposições, na tentativa até de fazer meu cérebro despertar, na secura deste calor goiano.
A mulher está à espera? À espera de que, de quem? Não. Ela já não espera mais, por que só fica a olhar o céu agora. Será que reza? Parece que não, pois está agitada, olhando de um lado para o outro, sempre para o alto. Caminha lentamente, e já não pára no meio da varanda. Enquanto eu permaneço encolhida na rede, com o olhar fixo, atenta ao menor movimento na cobertura.
De repente, como num ato impensado, a mulher busca a porta, e desaparece da varanda. Sonolenta, continuo a olhar a cobertura, observando agora, mais abaixo, que todas as janelas e sacadas daquele prédio continuam fechadas. Deve ser cedo ainda. Não quero saber que horas são. Basta estar acordada junto com o sol, enquanto a maioria dos vizinhos dorme.
O que meus olhos alcançam desta rede são umas poucas árvores, alguns edifícios distantes e aquele prédio onde a mulher ficou a caminhar na varanda da cobertura. E não quero ver nada além disso, porque o calor goiano me deixa com preguiça. Nenhum esforço. Preciso disso, pelo menos por enquanto, antes de sair, enfrentar ônibus lotado, gente mal-humorada.
Goiano é sisudo, desconfiado, nada afetivo, se comparado aos cariocas, por exemplo. Será que a mulher daquela cobertura é goiana? Nem imagino. O que sei, por testemunho ocular, é que, há pouco, ela ficou a caminhar naquela varanda, agora vazia.
Por que não desvio o olhar daquela cobertura? Por que insisto em fixar os olhos no vazio daquela varanda? Espero o retorno da mulher, para, quem sabe, desvendar o enigma? Que mistério existe no andar insistente de uma criatura? Agora, só meu olhar vai e vem, passeia naquela varanda vazia. Nada. Nada além de uma mureta baixa. No alto, só o azul do céu. As nuvens dissiparam-se todas, sem que eu percebesse.
Ela volta. A mesma mulher, que há pouco caminhava de um lado para o outro, está de novo na varanda da cobertura. Com um cigarro aceso entre os dedos, ela esfumaça a minha visão agora desperta. Permanece estática. Por um momento, parece olhar para mim, já que está voltada à direção desta varanda. Será que me enxerga lá de cima? E se me visse, o que diria ela? Talvez, sentindo-se invadida, murmurasse algum palavrão. Nenhum sinal. Com certeza, se soubesse que estou a espreitá-la, sairia da varanda. Deve estar com o olhar vazio, enquanto fuma.
O sol cada vez mais forte. Aos poucos, as janelas e sacadas dos apartamentos abaixo daquela cobertura vão sendo abertas – uma a uma. Aqui da rede, ainda posso ver quando a mulher fuma a última tragada, jogando o cigarro no chão da varanda. Quando olha para o céu alto, parece suspirar. Imagino. Em passos lentos, sai da varanda. Agora, sei que ela voltará.
Ela retorna. Está com as mãos cheias de roupas. Vai estendê-las aonde, se não vejo varal aqui da rede? Meus olhos procuram um único fio de varal naquela cobertura, enquanto a mulher fica a olhar para baixo, junto à mureta. Surprendentemente, ela começa a atirar as roupas pela mureta. Uma a uma. Vão caindo roupas, lençóis. Nenhum vento para mudar o destino daqueles tecidos de todas as cores. Fico a imaginar a rua, o canteiro coberto de branco, vermelho, amarelo, azul, preto, verde.
A mulher permanece calma, jogando uma roupa de cada vez, mureta abaixo. Desaparece na única porta da cobertura, para voltar com mais lençóis, cortinas enormes e roupas, muitas roupas. Num ato mecânico, continua a atirar tudo lá de cima, enquanto aqui embaixo o alto-falante anuncia: “Pamonha doce, pamonha salgada, três por dois reais”.
Permaneço estupefata – e as roupas atiradas do alto daquele prédio. Calmamente. É como se a mulher esteja cumprindo um ritual que lhe foi determinado. Não olha para baixo. Apenas estira as roupas, e as libertas pelos ares. Não sei o que pensar. Esfrego os olhos com as mãos, ainda encolhida na rede, na expectativa de que a imagem se desfaça, como as nuvens dissipadas. Não adianta. A mulher continua lá – indo e vindo, trazendo e jogando mais roupas, cobertura abaixo.
A repetição do gesto compulsivo começa me causar angústia. E até esqueço que há pouco eu repousava nesta rede que ainda me acolhe, sem querer acordar. A angústia faz meu corpo encolhido estremecer. E me enrolo, ainda mais, nesta rede. Sinto frio. Apesar do calor seco, sinto frio. Enquanto meus olhos lacrimejam involuntariamente – fixos naquela cobertura.
Meu sentir está diante de um fato inusitado, e único, e angustiante. Ninguém mais presencia a tamanha passividade da mulher, que persiste – incansável – no abandono das roupas ao léu, sem sequer olhar, um só instante, para baixo.
Sem saber por que, lembro-me agora daquela noite que o ônibus em que eu viajava foi assaltado. O motorista, trêmulo, tão logo os três assaltantes evadiram-se na estrada escura, avisou-nos que pararia na primeira delegacia à frente. E assim o fez, para registro da ocorrência. E eu – dentro de mim – precisava fazer alguma coisa, por mais absurda que fosse. Chega a ser engraçado hoje lembrar que, depois do pavor, lá estava eu, em plena delegacia, preparando água com açúcar para os passageiros há pouco assaltados. Eram velhinhos que pretendiam passear em Foz do Iguaçu. Eu ficaria no meio do caminho.
Por que a lembrança disso agora? Porque, mais uma vez, eu – dentro de mim – sinto que preciso fazer alguma coisa. Parece absurdo, mas tenho de dar um nome à mulher da cobertura. Para que ela não se dissipe como as nuvens. Vou chamá-la Cecília, para quando lembrar deste fato único torná-la mais presente ainda. Um nome. Cecília. E muitas roupas a escorregarem pela mureta daquela cobertura.
Por que não grita, ou acena, Cecília? Talvez, eu possa ouvi-la, ou decifrar seu gesto até agora incompreensível. Você não está me vendo, cecília? Olha só: levanto da rede, aceno com os dois braços para você. Mas você não vê, Cecília, porque está absorta nas roupas que deslizam das suas mãos.
Será que agora você pensa, Cecília? Pensa em que, Cecília? O que eu pensaria no seu lugar, Cecília? Sinceramente, não sei. Até porque, para atirar todas essas roupas pela mureta da cobertura, eu já teria pensado e repensado tudo. Será que, enquanto eu dormia nesta rede, onde estou sentada a fitá-la, você pensava na vida, Cecília? Que vida será essa que agora você joga da cobertura desse pequeno prédio?
Desses poucos metros de ar que nos separam, Cecília, posso vê-la saudável. Mesmo lentos, seus gestos não denunciam doença. E sua alma, Cecília? Do que, na verdade, você está tentando se livrar, Cecília, atirando essas roupas para baixo? Confesso que pouco ou nada entendo de moda, griffes. Ainda assim, observo, desta rede que agora me embala, que são roupas finas que você joga fora, Cecília. Vestidos longos, alguns paetês até brilham, no reflexo do sol. E ninguém mais vê.
Que vida é esta que passa pelas suas mãos, Cecília? Você está de mudança? Eu, que nem sei de você, Cecília, pergunto agora: mudança de vida? Por isso o abandono simplesmente de todo o luxo que reluzia a sua vida aparente, Cecília? Você não me ouve, por isso não responde – chego a murmurar, sentada nesta rede. Enquanto você vai e vem na cobertura, Cecília, sempre com mais roupas.
De repente, suas mãos estão vazias diante da mureta, Cecília. Seu olhar também parece vazio. Acabado o ritual, Cecília? Nem uma roupa restou abandonada em um desses galhos que o meu olhar alcança. Você está vazia, Cecília, como o seu armário, que até há pouco guardava a história da sua vida, em trajes de causar inveja.
Lentamente, Cecília move o corpo em direção da mureta. Sem qualquer esforço ou angústia aparente, fica em pé na mureta da cobertura. Sobressaltada, levanto da rede, coloco as mãos na cabeça, e repito várias vezes: Você não vai se atirar, Cecília! Você não deve!
Lá de cima, Cecília não parece ouvir nem o próprio silêncio da cobertura. Não esboça sequer um gesto ameaçador, ou um pedido de socorro. Em pé na mureta, Cecília permanece absorta. E eu nada posso fazer para socorrê-la.
Salve-se por mim, Cecília – eu, criatura amedrontada pela própria vida, com os meus pés agora plantados neste chão. Salve-se por mim, Cecília, que nunca tive lugar nesta vida. Salve-se por mim, Cecília, que agora lhe encaro corajosa e covarde, e ainda nem nos conhecemos. Salve-se por mim, Cecília, por minha alma torta que precisa fazer algum sentido neste mundo.
Cecília está surda, muda. Chego a vê-la fechando os olhos, e simplesmente dando um passo adiante da mureta. O gesto em nada lembra Ícaro. Um passo simples. Sem a tentativa de um vôo simples. Emudeço.
Ainda perplexa, começo a chorar: Você não podia ter feito isso, Cecília! Por mim, você deveria ter resistido ao último passo. O que será de mim agora, Cecília? que nem sei seu nome certo? Eu precisava tanto que você sobrevivesse, Cecília, para me mostrar que vale continuar tentando. E agora de nada adiantaria eu dizer-lhe que vale a pena continuar, Cecília. Porque, de você, Cecília, só restou um corpo esfacelado. De mim, resta uma lágrima por você, Cecília.
Aos poucos, a consciência vem chegando: O corpo dela deve estar na rua, junto com aquelas roupas todas. Imaginando a multidão em volta, tecendo comentários escandalosos, saio eu pela rua. O prédio fica próximo. Em pouco tempo, estou na frente do prédio onde Cecília morava. Mas não há o menor vestígio de tudo o que testemunhei deitada na rede. Nem roupas. Nem Cecília. A rua está deserta, como em todos os domingos.
Olho para cima, e ainda chamo: Cecília! Mas ninguém ouve. Meu Deus, será que agora minha loucura tem nome: Cecília?
Não posso simplesmente dar às costas àquele prédio, àquela rua, fingindo nunca ter existido Cecília. Adentro ao prédio, e peço ao porteiro quem mora no sexto andar, na cobertura. Secamente, ele me diz que aquela cobertura nunca foi habitada. Me encaminhada ao portão de saída, quando escuto o barulho das chaves.
Estou agora no meio da rua, no canteiro na frente do prédio de Cecília. Dentro de mim, ainda ecoam frases que parecem sem sentido: Onde está você, Cecília? O que você quis me mostrar com tudo isso, Cecília?
- Meu Deus, Cecília sou eu!
- É sim. E eu sou Paulo, seu marido. Agora, por favor, querida, volta a dormir, e acaba logo com esses pesadelos. Por favor...
- Paulo, nós moramos numa cobertura, no sexto andar. Certo?
- Perdeu até o endereço, querida? Já te falei, Cecília: precisa dar jeito nesses teus pesadelos... Agora, me deixa dormir, querida... É domingo, meu único dia de folga...
Paulo vira para o lado, enquanto Cecília sai lentamente do quarto. De imediato, busca a porta da varanda, e passa a observar cada detalhe, minuciosamente, como nunca antes havia feito. A porta. O chão. A mureta. “Vou providenciar plantas e uma rede aqui” – murmura Cecília, olhando para o canto da varanda. A cobertura é a mesma, desde que Paulo e ela casaram-se, e vieram morar aqui.
Tão logo constataram que Cecília não poderia gerar filhos, ambos programaram uma vida intensa – só os dois. “Quem sabe, ainda podemos adotar uma criança, ou mais. Paulo sempre quis” – pensa a moradora da cobertura.
O dia amanhece. Domingo ensolarado. Mormaço goiano. Cecília extasiada com o brilho do sol. De repente, rememorando o sonho que teve na noite passada, olha em direção das poucas casas no quarteirão à frente do prédio. “Será que existe aquela varanda com aquela rede?” – pergunta a si mesma, enquanto a rua, lá embaixo, continua em silêncio.
Mas Cecília nem se questiona se deve ousar buscar a casa do sonho. Ela, sempre tão contida, não saberia o que dizer a quem lhe atendesse ao portão. Como dizer que sonhara com aquele lugar, e sabia como era bom o colo que aquela rede doava generosamente?
Ela desiste em pensar. Sai da varanda, e, pela primeira vez, olha para trás. Agora, sabe que tudo está diferente, e nada será como antes. A cobertura não mudou. Dentro dela, alguma coisa veio à tona com o sonho. E Cecília sabe que é algo diferente – desconhecido -, mas não quer pensar.
Com um cigarro aceso entre os dedos, prepara o primeiro cafezinho do dia. Sabe que o marido, como em todos os domingos, acorda só depois da uma hora da tarde, quando o calor já tomou conta do dia goiano. O almoço será pedido por telefone, quando Paulo levantar.
Adoçando o café, Cecília lembra de uma rede guardada há muito tempo. Foi ela mesma quem comprou de um cearense, ali mesmo, na rodoviária de Goiânia. Isso faz tanto tempo. Cecília estava sozinha em casa, quando resolveu pegar o carro e sair. Mas para onde? Cecília não tinha onde ir. Por isso, acabou estacionando junto à rodoviária – lugar procurado por pessoas que sabem onde ir. E lá ficou Cecília, por algum tempo, a observar os ônibus chegando, partindo. Viu também as lágrimas de despedidas e reencontros. De repente, o sentir de Cecília é interrompido por um vendedor de redes. Mecanicamente, sem tirar os olhos dos ônibus, ela paga ao vendedor, pedindo “qualquer uma rede”.
Vai ao balcão da área de serviço, e encontra um embrulho. “Eis aqui aquela rede” – diz Cecília, que só agora observa a rede xadrez comprada quase sem querer. Poderia tentar acordar Paulo, para contar-lhe o achado. Mas, com certeza, ele imaginaria tratar-se de um outro pesadelo. Melhor não. Enquanto Paulo dorme, Cecília acorda para a vida.
Volta à varanda, procurando suportes para estirar a rede. “Tanto tempo aqui, e desconhecia a existência desses ganchos” – pensa. Estirada a rede, pega cafezinho e cigarro na cozinha, e vem sentar, entregue ao calor goiano. Por mais que tente, o olhar de Cecília não resiste em concentrar-se numa casa específica, no outro quarteirão, lá embaixo. Não quer pensar. Os olhos brilham mais que o sol, sempre voltados numa só direção.
O domingo passa, e Cecília nem se apercebe nele. O almoço com Paulo. Depois, o futebol na televisão. O jantar. Por fim, a madrugada insone na cama, e Cecília a lembrar do sonho que ela não quer lembrar. Assim, adormece.
Cecília desperta sem a preguiça de todas as segundas-feiras. Com estranha agilidade, levanta da cama tirando a camisola, e procurando roupas no armário. O ato instintivo segue até a portaria, quando, lá embaixo, Cecília procura a rua. Atravessa o quarteirão, indo bater diretamente no portão da casa do sonho.
Quem atende é uma menina com menos de dez anos, que conta que mora com a mãe e a irmã mais velha. A mãe já saiu para o trabalho, e a irmã ainda está dormindo.
Cecília pede licença para ver a varanda. A menina concede, dizendo: “A senhora também quer alugar o barracão? A mulher que tinha alugado foi embora, ontem à tardinha”. Cecília não responde, e caminha junto com a menina em direção da varanda. Incrível. A paisagem, nos mínimos detalhes, é idêntica ao sonho de Cecília.
Extasiada, ela senta na rede e olha para a cobertura onde mora. Seu olhar passeia na varanda vazia, e Cecília nem percebe que a menina entra no barracão dos fundos. Traz nas mãos, um bloco. Chamando a atenção de Cecília, a menina conta que a mulher que alugara o barracão ficara ali naquela rede a escrever, alguns dias. “Ontem – continua a menina -, acho que a mulher ficou muito triste, e foi embora, deixando-me o que escrevera antes de partir”. A menina entrega à Cecília o bloco de rascunho. Com desinteresse, Cecília pega o bloco, e, por respeito à confiança da menina, começa a lê-lo.
E o texto que Cecília lê diz exatamente: “Goiânia faz calor. Um calor que seca até a alma da gente. Aproveito a brisa noturna, e adormeço na rede estirada na varanda, nos fundos desta casa para mim desconhecida.
Desperto com os primeiros reflexos do sol. De novo, é dia. Por algum tempo, insisto em manter os olhos fechados, sentindo o colo que a rede me dá.
Aos poucos, cedo aos raios do sol, abrindo os olhos lentamente, sem querer despertar. No alto, o que vejo são brancas e esparsas nuvens, que – tão rarefeitas que estão – nem sequer cobrem o azul do céu. É dia. E tudo de repente clareia ao alto.
Logo abaixo da nuvem menor, a cobertura de um prédio pequeno, onde uma mulher está a olhar em direção do céu. Com os braços cruzados, ela parece extasiada diante do algodão rarefeito que cruza o infinito. Anda de lá para cá na varanda da cobertura, enquanto eu me estico e me encolho nesta rede, sem perdê-la de vista um só instante.”
Cecília interrompe a leitura. Arregala os olhos estarrecidos, e pergunta à menina:
- Quando foi que a mulher escreveu isso?
- Foi ontem. Antes de partir muito triste, ela disse que, já que eu gosto de ler, que eu lesse isso quando sentisse vontade. Mas ainda não li.
Se a menina falou mais alguma coisa, Cecília nem tomou conhecimento. Continua concentrada no texto. Aos poucos, as lágrimas tomam conta do seu rosto. No pensamento, uma frase se repete: “O meu sonho!”
Logo após a narrativa do passo suicida, exatamente como Cecília sonhara, o texto segue: “Ah, Cecília, você não podia ter feito isso comigo. Logo eu, que sempre procurei uma razão para continuar vivendo. E você, Cecília, nem permitiu que nos conhecêssemos. Provavelmente, conversássemos sobre nossas vidas sem sentido, quem sabe até balançando os pés, sentadas nessa mureta onde você deu seu último passo. Ah, Cecília, se esta rede estivesse me embalando na varanda da sua cobertura... E se, juntas, descobríssemos, nas nossas vidas vazias, uma só razão para continuarmos vivas, Cecília? E se você descobrisse, Cecília, que sinto exatamente o que você sentia? E se eu soubesse que você, Cecília, pensava exatamente o que eu penso? E se o sentido da vida surgisse entre nós duas, numa única palavra: partilha?
Mas você se foi, Cecília, sem sequer saber que eu existia. Você nem soube que, como em você, Cecília, a vida também me dói. Arde tanto, que às vezes eu já nem sei, como você, Cecília, onde ir. E você, diante de mim, Cecília, dá seu último passo vazio. Nem sequer um olhar. O que faço agora da vida que você me deixou, Cecília? Uma vida que nem me permitiu conhecê-la, partilhá-la...
Se algumas pessoas que acreditam na vida após a morte estiverem certas, Cecília? Será que você se arrependerá do seu passo insano? Será que ainda saberá que eu existo? Saberá o quanto esperei você retroceder, para a minha vida valer a pena, Cecília?...
Agora é tarde, Cecília... Você se foi, e eu aqui, nesta rede, nem pude lhe oferecer um colo, embalar um sonho – um mísero sonho seu, Cecília... Também eu me vou, sem saber para onde. Mas, com certeza, guardarei você, Cecília, na minha alma. E cada passo que eu der, será por você, Cecília, sempre retrocedendo o passo na mureta da cobertura. Onde estiver, Cecília, receba minha lágrima dolorida, solitária...”
Cecília soluça agora, mais criança que a menina à sua frente. A menina permanece com o olhar de estranheza. Nada diz. Cecília levanta lentamente da rede, onde deixa o bloco escrito. Quando chega ao portão, Cecília ainda chora, e dirige-se à menina:
- Você disse que a mulher partiu muito triste, ontem. Aconteceu alguma coisa especial?
- Não sei ao certo – responde a menina -, mas pode ser por que uma vizinha suicidou-se ontem de manhã, atirando-se da cobertura do pequeno prédio que a gente vê ali dos fundos, na varanda.
Aturdida, Cecília atravessa o portão ainda fechado. Desesperada, ela corre. Para onde, Cecília?...

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Ah, mar...

Dora Brisa

...As palavras me chegam
Em forma de ondas no mar...
As mais suaves segredam
O que traz a volúpia sem pensar...
Chegam mansamente,
Às vezes, violentas a espancar...
Todas ondas puramente
Em forma de palavras, na beira do mar...
Eu, escravo servil e constante,
Faço de minhas mãos, concha veloz...
Busco recolher cada instante,
Enquanto persigo a palavra mais atroz...
As ondas suaves às minhas mãos vêm se render...
Mas aquelas - insanas - que tanto persigo -
Se negam à concha, e no mar querem morrer...
Por algum tempo, fico a espreitar o mar,
Perco-me em cada onda que se aproxima...
Mas poucas - as mais breves - vêm meus pés tocar...
No crepúsculo, o mar emudece...
E fico a buscar a palavra que não aparece...
Eis que surge de repente, sem medo,
Gigantesca onda a bater no rochedo...
Que palavra será essa a me assustar?
Bate no rochedo, volta mais violenta para o mar...
Atento escravo, fico a esperar
A volta da palavra que ecoa, não quer calar...
Fico só - a escutar:
Ah, mar...
Mar...
Ar... ar...

Voz - Eduardo Cunha:

Apenas um menino

Dora Brisa

Vi um menino na rua,
Parecia cansado,
Peito aberto - alma nua -,
O mundo tinha carregado.

Mas não chorava.
O olhar dele era profundo,
Em tristeza mergulhava.
Pura piedade do mundo.

Não estava ali para ensinar,
Nem mais aprender,
Tão somente um espaço a ocupar,
Numa vida sem porquê.

Não parecia sonhar,
Muito menos esquecer...
Era um menino apenas a vagar,
Na rua - vazia! - a lhe acolher...

Família - há muito ouviu falar.
O barraco - nem sabe onde ficou.
Na vitrine, os olhos a brilhar.
Comida? Só o que do prato restou.

A cada passo, repousa a calma,
Sem mágoas, nem acusação.
Por um momento, abre a alma,
E lhe vêm lágrimas do coração...

Mas ele não enxerga ninguém,
Um ser vivo a quem culpar.
Recolhe a dor que tantos outros têm,
E volta a caminhar...

Ao longe, já não sabe mais o que sente,
Amarra o calçado roto, esconde do short o rasgão.
Num andar torto, por mais que tente,
Continua a chamar atenção...

Desviam dele o olhar,
Outros fogem ainda mais,
Com escárnio, a espiar,
Chamam-lhe estorvo, incapaz...

Atônito, sem compreender,
Foge da esquina - da vida...
Enquanto carrega o corpo a estremecer,
A alma - pura - se vê repelida...

O corpo tomba ofegante,
Já não há brilho no olhar...
A memória busca vida distante,
Um segredo de quem não pôde sonhar...

Aos poucos, se aglomera a multidão...
Tecem comentários - infância perdida!...
Com certeza, um pequeno ladrão...
Drogas, roubo, infração - que vida!...

E, depois de julgarem o que seria o mais correto,
Saem, um a um, voltando a caminhar...
Ninguém mais por perto...
Nem uma sombra a perturbar...

Um corpo desfalecido - ali jaz!
Sem futuro, nem passado... De presente, o caixão...
Partiu sem sequer imaginar a paz,
Na rua onde era visto apenas como um cão...

terça-feira, 6 de abril de 2010

Teu mar

Dora Brisa

Sou teu mar:
Silencioso, profundo,
Protegendo teu navegar
Dos perigos deste mundo...
Nas minhas profundezas,
Escondo teus segredos...
Entre minhas maiores riquezas,
Guardo o baú dos teus medos...
Sou teu mar,
Água morna com teu calor...
Chego em ondas para teu pranto molhar,
E à noite, faço-me reflexo da lua - puro amor...
Estou sempre a te embalar...
Nas minhas águas calmas,
Chegas a sonhar
Com outros mundos, outras almas...
Sou teu mar...
Em noites de tempestade escura,
Te concentras a buscar
Aconchego na direção segura...
Na minha vastidão,
Tua alma se desnuda:
És puro coração
Pulsando na melodia muda...
Sou teu mar...
A ti, presenteio todo meu natural:
Peixes, conchas, até estrelas a encantar
Tua vida previsível, com sabor de sal...
Infinito que pareço,
Diante da tua esperança infantil,
Silencioso, adormeço,
Inteiro, nas tuas mãos, teu servil...
Sou teu mar,
E assim sempre serei...
Tu - barco a me acompanhar...
Eu - tua bússola - seguirei...

Voz - Rosany Costa - Plenytude (as fotos são presentes de amigos):

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Eu e as palavras

Dora Brisa

Exercito as palavras, como quem faz ginástica. Disciplinadamente.
Disseco cada palavra que escrevo, obedecendo uma dieta rigorosa, retirando todos os excessos. Religiosamente.
Busco armadilhas para capturar cada palavra solta, como em final de jogo de xadrez. Xeque-mate.
Outras vezes, de olhos vendados, treino tiro ao alvo, caçando algumas palavras que voam em bando. Displicentemente.
Há palavras que me chegam em forma de oração, depois que perdôo a mim mesma. Amém.
Mantenho sempre dentro de mim, um caldeirão fervente, no aguardo daquelas palavras duras, congeladas. Encantamento.
Antes do amanhecer, jogo minha rede ao mar, para pescar as palavras que pululam junto com as primeiras ondas do dia. Simplesmente.
Guardo em mim, uma caixa de primeiros socorros, para tratar as palavras usadas para ferirem, como flechas gotejando veneno. Cicatriz.
Ainda há aquelas palavras que me vêm pueris, pedindo colo, enquanto me faço rede. Sonho.
Com a brisa da manhã clara, me chegam as palavras mais simples, feito passarinhos a cantarem na minha janela aberta para o azul do céu. Beatitude.
Também abrigo em mim – que sou terra úmida -, as palavras em forma de sementes. Germinação.
Às palavras apressadas, me faço relógio, retendo cada segundo eternizado. Atemporalidade.
Têm palavras que me chegam cansadas, despedaçadas, às quais dôo resina de seringueira antiga que sou. Refazimento.
Com meu próprio sangue – vermelho vivo -, pinto as palavras que por mim passam envelhecidas, descoloridas, quase desapercebidas. Magia.
Difíceis de decifrar são as palavras vestidas de enigmas, que se me revelam sempre no último instante. Intuição.
Palavras de despedidas – busco sempre em estação de trem, abandonadas nos bancos de (longa) espera. Passagem.
Nas vielas escuras, quero as palavras embriagadas de boemia. Solidão.
Busco desesperadamente as palavras de vida vadia, marginais. Aprendizagem.
Nos arredores, cato palavras mudas, para não mais precisar usar a tão desgastada palavra: silêncio. Segredo.
Das palavras suicidas – flores, efêmeras flores -, guardo em frascos, todo perfume. Alquimia.
Enlouquecida, saio a buscar pela rua a palavra insana, que pula e dança, nua, entre as máquinas, desrespeitando o sinal. Choque.
Num ímpeto, recolho o vômito da palavra enojada, que padece sem vida. Alimento.
No lixão, esfomeada, disputo com os urubus, cada palavra que exala podridão fétida de vida. Metamorfose.
Na gruta escura, procuro a palavra que sangra solitária, lambendo as próprias feridas. Espanto.
Passo longas madrugadas a buscar, pelo telescópio, palavras vivas em outros planetas, estrelas, galáxias. Infinitude.
Volto para minha alma cansada, e tenho a surpresa visita de palavras enviadas por outras almas. Sintonia.
De toda palavra que por mim cruza, guardo o instante mágico, dando-lhe o sopro de vida para que continue sua peregrinação. Mistério.