quarta-feira, 26 de maio de 2010

De olho na rua

Dora Brisa

Vem ver,
Moço,
Vem conhecer a minha rua.
Tá vendo aquele casarão?
Lá, mora a viúva que
Serve feijoada pra gente,
Todos os sábados, no portão.
Ninguém por aqui
Conheceu o falecido.
Nessas casas ao lado,
Moço,
Vivem famílias inteiras,
Com pais, filhos, avós,
Até gato, cachorro e papagaio.
Adiante, ficam a padaria,
A farmácia e o botequim.
No outro lado da rua,
Estão o açougue e o mercadinho,
Que são do mesmo português.
Por esses pedregulhos,
Moço,
Passa a alegria da
Criançada na rua:
Carrocinhas de sorvete,
Pipoca, até pamonha,
Algodão-doce, pé-de-moleque.
No terreno baldio, logo ali,
Circo e parque de diversões
Acampam quase o ano todo.
Na minha rua,
Moço,
Conserta-se guarda-chuvas,
Amola-se facas e tesouras,
Vende-se pães feitos em forno de barro.
A minha rua tem muito mais:
Tem feira livre.
Tem música no coreto da praça,
Com bandinha militar,
Todo domingo, depois da missa.
A igrejinha fica lá,
Atrás do chafariz,
No centro da praça de tamarindos,
Mangas, cajus e outros frutos.
Olha só,
Moço,
Como a minha rua tem cores,
Nas portas e janelas abertas,
Nas casas rodeadas de jardins
Sem grades, sem muros.
Naquela barraquinha na praça,
Fica a biblioteca improvisada.
O povo da minha rua gosta de ler.
Final de semana inteirinho,
Moço,
Todo mundo se acomoda por aqui mesmo,
Os que lêem e os que escutam.
Ainda tem gente que canta,
Toca uma viola, conta causo.
Essa é a minha rua,
Moço,
Que parece pequena, estreita,
Mas é maior que o mundo.
Aonde eu moro?
Qual dessas é a minha casa?
Não tenho casa, não,
Moço.
Com uma rua dessas,
Eu não preciso de mais nada.
Se eu tivesse uma casa,
Até o casarão da viúva
Seria menor que a minha rua.
Quem garante que a vida,
Vista lá de dentro, é tão bela
Quanto a que enxergo, aqui fora?
Já faz tempo, não esqueci,
Um poeta me disse que a solidão
Mora numa dessas casas
Que eu nunca entrei.
Quando anoitece,
Moço,
A lua, menina silenciosa,
Brinca lá no alto,
Enquanto eu estico a minha rede
Aqui na praça – e sonho,
Sonho todos os sonhos
Abandonados, esquecidos na minha rua.

terça-feira, 25 de maio de 2010

O gosto da liberdade

Dora Brisa

O apartamento é enorme, amplo, maior ainda para o olhar estrábico e miúdo da menina. E tudo é mais colorido. E tudo reluz. E tudo parece ser tão belo, quanto a liberdade que a menina desconhece.
A velhinha segura pela mão os passos tímidos da menina. De repente, ambas se vêem diante do piano, no centro da sala. A menina nunca tinha visto um piano tão lindo, majestoso, imponente. A menina ainda não sabia que pianos existiam, ali, dentro daquele amplo apartamento, e em tantos outros lugares.
A mão enrugada, que há pouco doava segurança à menina, que nem sabia, desliza sobre o brilho branco do piano silencioso. Um toque mais leve que o outro, sem deixar qualquer marca. O olhar miúdo da menina não enxerga mais que as pontas dos dedos envelhecidos tocando notas musicais invisíveis. A vida da menina se reduz ao instante de êxtase.
Por um momento, a menina se imagina morta. Leve torpor lhe percorre o corpo inteiro. Tudo mais esqueceria, principalmente o futuro que lhe aguarda, sôfrego. Este instante – leve toque de dedos trêmulos e macios sobre o piano mudo – teria sido a vida da menina. Em algum canto da alma infantil, a melodia continuará ecoando, mas ela não sabe.
Como quem, num estalar de dedos, retorna à consciência, após breve estado hipnótico, a menina desperta, com a voz, grave e doce, da velhinha:
- Todas as janelas estão fechadas?...
(É para ela – a menina -, a pergunta. Não há mais ninguém ali.)
- Sim... (responde a menina, cabisbaixa, percebendo a penumbra que invade a sala)
- Há quantos anos, eu nem ouso mais sentar aqui...
A voz da velhinha parece menos cansada, enquanto aproxima-se da banqueta. De olhos fechados, senta devagarinho, mantendo o ritual dos toques indeléveis sobre o instrumento. Lentamente, abre os olhos, destampa o piano, e o que a menina vê são dezenas de pedacinhos brancos, pretos, todos brilhantes, encantadores. Mas o que mais brilha, na penumbra da sala, é o olhar iluminado da menina, que descobre onde repousam todas as melodias. O coraçãozinho infantil dispara, se torna grande, enorme mesmo, maior, muito maior que o apartamento. Neste instante mágico, a menina ouve e dança todas as melodias. A alma infantil já não cabe mais no corpinho raquítico, quando escuta a velhinha murmurar, enquanto dedilha uma melodia triste no piano:
- Houve um tempo, há muitos anos atrás, em que meu marido fechava toda a casa, e me pedia para tocar para ele, mas só para ele. Meu falecido marido não admitia imaginar que alguém pudesse me ouvir tocar piano... (suspiro profundo!) Aos poucos, fui abandonando o hábito de sentar aqui, mesmo em silêncio... Nossa, faz tanto tempo que ele morreu... Não levou o piano junto com ele, como havia prometido, nos delírios da doença...
Morte – a menina já conhecia o peso dessa palavra, na alma frágil. A avó levara, para sempre e bem longe, o colo aconchegante. Sem saber o que dizer, transgride a educação que recebeu, e pergunta:
- Por que deixou tanto tempo os acordes silenciosos?...
- Talvez, por que a melodia da liberdade tivesse ido embora, sem poder voltar, por causa das janelas trancadas...
- E... e por que não tenta abrir as janelas?...
- Agora?... - pergunta, surpresa, a velhinha, que levanta, diante do silêncio da menina, e, em gestos ágeis e infantis, escancara as duas grandes janelas da sala. Os olhos úmidos da menina denunciam admiração, enquanto a velhinha retorna ao piano, começa tocar Ária na Corda Sol, de Bach, e, chorando, fala às lágrimas miúdas da menina:
- Jamais tranque as janelas, pois a liberdade é um pássaro que chega...
- Pássaro não vive sem cantar... - responde, sem pensar, a alma menina.
Voz - Elisa:
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sábado, 22 de maio de 2010

Fatalidade

Dora Brisa

Olho para o que rabisco
No papel amassado,
Retirado do lixo,
Como quem se debruça
Diante de um abismo...
Vertigem.
Angústia.
Nenhum medo.
Meu olhar, neste instante,
Não é nada poético.
Pelo contrário,
Meu olhar é agonizante,
Agoniza tanto quanto
O moribundo que deveria
Ter morrido na véspera,
Enquanto ninguém mais espera...
Mas não morro,
E a vida me sufoca -
Vida estagnada,
Mais amassada que o
Papel retirado do lixo...
E toda minha vida é isso:
Rabisco feito num papel
Que há pouco era lixo,
E à lixeira voltará...
Por que de nada adianta
Tentar rabiscar a vida,
Se o papel continua sendo lixo,
Enquanto a lixeira aguarda...
Quisera eu ter a inconsciência
Da lixeira, que, pacientemente,
Sabe esperar, e, sem saber,
Um dia, também ela, a lixeira,
Será lixo, e outra lixeira
Haverá em seu lugar.
Ou não.
Enquanto tudo isso, que é vida,
Não acontece, rabisco eu,
Que não sei acontecer na vida...

sexta-feira, 21 de maio de 2010

África

Dora Brisa

Minha pele é branca
Mas minha alma é negra
Queimada pelo sol da África
Penso em português
Mas pulso no coração africano
Nesta vida guardo lembranças
Mas minha caminhada
Salva cada passo
No chão africano
Meu corpo é estrangeiro
Mas minha alma
Segue uma só direção
De volta pra casa: África...
Aqui nada me prende
Junto ao meu povo africano
Estou liberta
Meus olhos brilham
Minha boca emudece:
África...

Voz - Rosany Costa:
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quarta-feira, 19 de maio de 2010

No albergue da vida

Dora Brisa

Esta é a minha (mais verdadeira) vida: sentada na escadaria de um albergue, uma mochila ao lado. Respiro a brisa da madrugada. E o que sinto é que não necessito mais que isso: um (qualquer) lugar para sentir a calmaria da noite. Noite que alumia minha alma sombria. Madrugada que chega mansamente, e depois devolve a luz escura de mais um dia sem sentido.
Eis aqui a minha vida. Eis-me aqui, inteira, mansa, tão pura que, se me rendesse, poderia diluir-me nesta madrugada emudecida. Na minha frente, uma rua deserta, silenciosa, como eu, que já nem guardo os passos dos que passam por mim.
O albergue está fechado. O policial militar com quem falei, procurando um lugar seguro até o amanhecer do dia, disse que era para eu bater na porta do albergue, que me acolheriam. Não quero perturbar o sono e os sonhos daqueles que adormecem e sonham. Não eu, que já não durmo há tanto tempo o sono de quem sonha.
Só queria um lugar seguro, para quem sabe não ter de encarar mais uma violência contra o meu corpo – dor que cala fundo na alma mutilada. Aqui estou, ladeada por espécies ornamentais de palmeiras. Só falta a minha rede. Não. Nem a minha rede. Tenho papel, caneta, e isso é tudo.
Quando me chegará o dia (ou a noite) de não ter nada? Quando estarei num lugar que não é meu, trabalhando em concretizar sonhos que não são meus, deitando numa cama que não é minha, e dormindo o sonho dos que ainda sonham?
Quisera eu nada ter (realmente), e continuar trabalhando tanto, para quem sabe merecer sonhar um sonho possível. Porque, para mim, impossível mesmo é viver.
Não quero acordar ninguém. Nem pretendo uma vaga no albergue. Não eu, que tenho o sono agitado pelas ventanias causadas pela ausência de sonhos. Para mim (hoje e sempre – agora sei), basta um degrau onde eu possa sentar e acomodar uma velha mochila que carrega música e poesia. Com certeza, voltarei às ruas, antes mesmo do primeiro raio de sol. Também aqui os pássaros devem cantar, e serão eles, meu chamado de alerta.
Não. Não quero pensar que mais um dia vai nascer. Quero sorver o ar silencioso e puro da madrugada, dessa madrugada inesquecível. Sinto-me tão íntegra, como se meu corpo não fosse feito de tantos ossos e órgãos. É minha alma que suspira em abandono.
Quem me dera ter sentido (e continuar sentindo) esse alívio de nada ter e nada ser. Como tudo teria sido (e seria sempre) diferente. Quem sabe até eu ainda sonhasse – não mais sonhos entrecortados, roubados. Sonhasse apenas os meus sonhos – sonhos pequenos, desnutridos. Quem sabe o corpo (a vida) não pesasse tanto. Quem sabe a alma se diluísse, qual neblina nas montanhas. Quem sabe assim eu descobrisse a verdadeira razão (ou insanidade, tanto faz) do existir humano.
Não adianta. Meu delírio se estilhaça, ao tentar transpor o portão de ferro à minha frente. Minha alma é tão insana, que, quando delira, ignora até a maçaneta de um portão.
Fixo agora meu olhar no portão. Não preciso levantar, tocá-lo. O portão tem uma existência definida e definitiva. Ele é simplesmente. Quem dera também eu ter corpo de ferro, que um dia fez-se brasa, tomando forma limitada, com direito a receber pinceladas hábeis de tinta branca.
O ferro desconhece a existência da madrugada, e ainda assim faz parte desse cenário. Não sonha, por isso é tão pesado. Ser portão é realidade incontestável, monstruosa. Se um dia deixar de ser portão, continuará carregando o peso de ser ferro. E outra coisa não existirá.
Quanto a mim, que não sou de ferro, permaneço sentada. Sem pressa. Sem compromisso. Antes de subir a escadaria, fechei o portão. Ele me protege de longe, silencioso. Eu, alma desprotegida, finjo sentir a proteção que as grades de ferro dão às pessoas que ainda dormem e sonham. Já não tenho mais sono, porque não há sonho meu acalentado e moldado em brasa. A realidade da vida que não é minha me consome. E outra realidade não há. Porque a realidade é tanto quanto, ou até mais pesada, que um portão de ferro. Pensando aquém, a existência do portão faz mais sentido que a realidade sempre nada definida, muito menos definitiva.
Melhor mesmo é não querer ser sequer o portão dessa realidade. O que quero é atingir o ápice da leveza existencial, para não deixar pegadas por onde ando sem rumo e sem descanso. Abro e percorro caminhos que não levam a lugar algum. Por que haveriam de seguir meus passos? Já não persigo sonhos, e por isso não páro para dormir. Continuarei caminhando – e nisso se resumirá toda a minha existência. Já não ando mais em círculos, porque minha alma já não é mais tonta. Só caminho sem parar, sem a pretensão de um dia tudo isso fazer sentido.
E a madrugada complacente acalma minha vida sem sentido. Por um só instante, deliro sonhos alheios – eu que desaprendi de sonhar. O portão de ferro permanece impassível diante de mim. Sei que não demora, e terei de abri-lo novamente, fingindo a força daqueles que dormiram, sonharam, e sabem aonde ir, o que fazer, dentro da vida forjada à brasa.
Penso agora: se eu não tivesse derretido (para nunca mais me condensar) às primeiras chamuscadas, teria me retorcido em brasa? Teria eu aceito o molde que impõem os ferreiros?
Não – esta é a resposta derradeira, porque outra não haveria. Isso é definitivo, e pesa.
Num momento resignado, aceito minha vida sem sentido. Porque jamais eu seria um portão, ou grade, ou até escadaria. Os degraus são laje fria, firme. Nunca houve em minha tamanha segurança. É verdade. Tanto é verdade, que vivo tropeçando nos meus próprios pés. Não sei caminhar em chão firme. Meu passo é leve, por que incerto, sem sentido.
Pela primeira vez, desde que sentei neste degrau, ouso olhar para o alto. Que bela madrugada! Guardarei na alma, a brisa, a calmaria, e não faltaram estrelas e lua à magia daqueles que ainda dormem e sonham. Olho o céu, por todas as criaturas que sonham. Velo o sono dos que sonham sem precisar olhar para o céu iluminado de silêncios. Olho eu, que não durmo, não sonho, mas ainda admiro a lua, as estrelas.Não sou ferro, mas peso tanto. A visão da lua e das estrelas não me pesa. Mas quem dorme acalenta sonhos breves e leves – tantos sonhos, que não haveria quantidade suficiente de estrelas para lhes fazer par. Contento-me em simplesmente olhar o céu. E isso é tudo... Nada.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Vouloir

Dora Brisa

Se pudesse,
Eu iria querer assim:
Eu iria querer que a
Vida me surpreendesse,
Sem me dar o que espero dela
(Espero tão pouco da vida).
Ah, não!...
Se pudesse,
Eu iria querer coisa diferente,
Coisa que eu nunca quis,
Nem esperei da vida...
Ah, sim!...
Se pudesse,
Eu deixaria a vida
Escolher meu presente,
Pra me dar de surpresa,
Assim – sabe? -,
De qualquer jeito mesmo,
Feito aquele bilboquê
Embrulhado em jornal,
Que ganhei na infância...
Se pudesse mesmo,
Eu iria querer
Que a vida quisesse
Me dar alguma coisa dela,
Mas nada que fosse emprestado,
Ou que viesse em caixa
De dourado brilhante...
Ah, não!...
Se pudesse,
Eu só iria querer
Da vida,
A vida que era pra ter sido,
Mas não foi, e
Por isso não veio.
Vouloir...

na minha voz:
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segunda-feira, 17 de maio de 2010

Fica...

Dora Brisa

Enquanto encho de nada minha bagagem,
Em silêncio você fica...
Uma só miragem,
Neste instante que petrifica...
Na minha mudez translúcida,
Peço a você para cuidar
Das nossas plantas, da nossa música...
Fica com meu silêncio mais gritante,
Minha vida vazia,
Minha melancolia sufocante,
Minha esperança vadia...
Pode guardar o que nunca te falei...
Resgata aquela poesia
Que jamais escreverei...
Lembra o espelho que não enxerguei?
Guarda-o junto com a
Máscara que não usei...
Fica com o livro empoeirado...
Queima as cartas que sem endereço deixei...
Joga fora meu passado,
E com ele tudo o que ainda terei...
Recorda o quadro na estante?
Arrebenta sem pensar...
Deixa a parede instigante,
Para meu vazio respirar...
Guarda aquela viagem que nunca fiz,
E as fotos que não tirei...
Pensa que talvez tenha sido feliz
Com o sonho que acalentei...

Fica com a minha vontade de ajudar...
Cuida da minha última esperança...
Permita a loucura me achar,
Na mais antiga lembrança...
Agora, ajuda ajeitar a bagagem:
Dobra os nadas, a vida sem sentido...
Recolhe essas palavras soltas - bobagem!...
Faça de conta que há muito tenho ido...
Não precisa se despedir...
Deixa a porta escancarada,
Lembra sempre que não há como partir
Uma vida abandonada...

quinta-feira, 13 de maio de 2010

A Beethoven

Dora Brisa

Fico a escutar-te
Em Adagio Sostenuto,
E a tua solidão
Faz companhia à minha solidão...
E a tua dor
Já não se dilacera
Sozinha,
Por que também a minha dor
Geme e esperneia...
Cada nota tua
No piano
É um grito dolorido,
Abafado...
E também eu abafo
Meu grito – minha dor...
E a minha solidão
Dialoga com a tua solidão,
Nesta melodia triste,
À procura do nada...
E sentimos nós
A dor mais humana:
A dor do existir...
... E a melodia segue
(triste, e por isso bela),
Como segue a vida...

Voz - Helena Antoun:
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terça-feira, 11 de maio de 2010

Eu e minhas naturezas

Dora Brisa

I
Sou filha
De um amor louco
Da madrugada
Com o luar
Por isso o olhar
Sempre desperto
Distante do sol
Buscando nuvens
Nos holofotes das estrelas

II
A lua me bateu nos olhos
Alguém viu
No atrito
Meus olhos
Transbordaram estrelas
Ninguém viu
Nem meus olhos
Que se perderam
Na poça d’água
Que embalava a lua

III
Vivo sob a influência
Do tempo
Não esse tempo tosco
Cronometrado por relógios
Tempo que brinca com toda gente
No passar de cada hora
Seguindo lentamente
Quando já deveria ter
Ido embora

IV
O vento soprou
No meu rosto
Queria brincar
De brisa
Eu não podia
A casa estava cheia
Pessoas
Problemas
Todos os “pês”
O vento foi embora
Soprou longe
As nuvens
Que não pude ver

V
Da minha terra
Brotou a chuva
Que lavou o céu
E deixou brancas
As nuvens
Que caíram
Em outras terras
Secas
Que não eram minhas

VI
O mar banhou-me
A alma
Cheio de profundezas
Nunca mais
Perdi o gosto do sal
No doce sabor
Da minha alma
Que ainda arde
Em direção do mar

VII
Perco-me na mata nativa
Que não deixa rastros
Nem aponta caminhos
Mata menos escura
Menos fechada
Que a minha alma
Que brota em musgos
Os sonhos adormecidos
Pelo descaminho
E segue sem bússola
O silêncio da mata
Cheio de sombras

VIII
Eu sem sentido
Fiz as pazes
Com todos os sentidos
Que se rebelaram
Num repente
A visão foi tateando
A audição começou a cheirar
O tato passou a ter paladar
O olfato ouvia tudo calado
Enquanto o paladar a enxergar
De imediato
Meti os pés pelas mãos

Luz & Sombra

Dora Brisa

Eu sou sombra
Você - luz!
Sou mistério
Você - realidade!
Sou nuvem
Você - sol!
Sou fuga
Você - fatalidade!
Sou folha
Você - flor!
Sou inteira
Você - metade!
Sou nostalgia
Você - amor!
Sou melancolia
Você - esperança!
Sou passado
Você - futuro!
Sou velha
Você - eterna criança!
Sou terra
Você - mar!
Sou surpresa
Você - segurança!
Sou frágil
Você - agilidade!
Sou brisa
Você - ventania!
Sou garoa
Você - tempestade!
Sou colo
Você - caminho!
Sou triste
Você - ninho!
Nossas almas se fundem,
como onda na areia,
lua no mar,
estrela na escuridão,
raio de sol na poça d'água...
A sintonia das almas se guarda
feito água na terra,
fermento no pão,
concha na areia,
esperança no coração...

Voz - Elisa:
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sábado, 8 de maio de 2010

Almoço em família

Dora Brisa

Já passa das 14 horas, mas ninguém parece preocupado. Afinal, é domingo, almoço em família. Na extremidade da mesa quilométrica, a matriarca: pouco menos de um metro e meio, rugas na fisionomia hoje mais irônica, cabelos finos e brancos, os quais ela alisa mecanicamente, em silêncio, sem olhar a mesa farta.
Nem ousa levantar o olhar, pois sabe que só conseguiria enxergar os mais próximos. Por isso, repousa os olhos, quase fechados, voltados para o crochê da toalha, que já nem lembra mais em que época ela mesma confeccionou.
São cinco filhos. Isso ela ainda sabe. Mas já perdeu as contas dos tantos netos e bisnetos. No trajeto à mesa, ouviu chorinho de bebês em coro – serão tataranetos?... Nem pensa em abrir a boca e perguntar, até por que fala tão baixo, que ela mesma pouco tem se escutado.
Em meio ao ruído dos talheres nas travessas e nos pratos, ela escuta frases desconexas, paralelas, tudo confuso à audição agora aguçada.
- Soube que a filha do Martin casou pela oitava vez?
- Não coma com a mão, menino!
- Esta semana, a cotação do dólar surpreendeu mesmo!
- Tive de comprar o vestido daquele estilista nordestino...
- Não quero comer cenoura! Odeio cenoura!
- A tintura do teu cabelo combinou mesmo foi com a bolsa!
- Desculpem o arroto involuntário!
- Eu quero brincar com aquele colherão ali, mamãe!
- A velha está gagá, nem ouve mais nada...
- Estou pensando em ir a Paris, no final do ano.
- Ela fez lipo, eu soube no salão...
- Maria, depois você me dá a receita dessa galinhada?...
- Já emagreci dois quilos, agora faltam só catorze...
- Demiti o diretor financeiro. Eu mesmo vou cuidar do serviço.
- Sentada, eu não alcanço a mesa. Deixa eu ajoelhar, papai...
- Olho pra mamãe, e me dá uma pena...
- Ainda não sei se vou tentar vestibular este ano...
- Você acha mesmo que o verde limão do meu vestido caiu bem?...
- Pára de mamar a embalagem de vinagre, garoto!
- Ano que vem, vou ampliar as ações na Vale...
- Encontrei um site culinário de dar água na boca!...
- Não sei viver sem salto alto. Acho que já nasci de salto.
- Não quero comer! Deixa eu ir na cozinha provar a sobremesa, mamãe?
- Será que a faxineira tem vindo toda semana? Essa casa é tão grande, e mamãe parece uma autista...
- Essa torta de espinafre está uma delícia!
- Vá lá no escritório, para conversarmos mais a respeito...
- Deixa eu comer as azeitonas, papai, ninguém quer...
- O que a gente não faz, para manter as aparências?
- Você viu que a Justiça não está perdoando ninguém mesmo, né?
- Só falta um pouquinho de botox nos lábios, e me tornarei uma princesa...
- Dia dez, vou marcar a próxima missa...
- Na sua idade, eu já tinha esses três maiores aqui...
- Encomendei o carro, mas vai demorar um mês pra chegar...
- Oba! A sobremesa!
- Achei melhor demiti-la, mas continuamos nos vendo semanalmente... que secretária!...
- Você ainda acredita em Papai Noel? Pelo amor de Deus!
- Maria, traz um pano para limpar a toalha?
- Eu nem quis conversa com o gerente, fechei a conta imediatamente.
- A nossa bisa não gosta de sorvete de chocolate?...
- Você viu a foto dele, naquela revista? Que homem!
- Não tomo mais nem refrigerante light...
- Quem será que deu à ela aquela estatueta tão triste, desolada?...
- Depois do almoço, vamos ao shopping com a mamãe...
- Na mais recente, eu mandei gravar o nome do meu gato...
- Acho que, antes de sair, vou à cozinha preparar uma marmita para levar para o jantar...
- Imagina que ela me disse que, se eu não assinasse a carteira, ela sairia... e saiu...
- É enjôo... Desculpe...
- Tenho estudado demais pra esse concurso...
- Mamãe, o Júnior roubou o morango do meu prato!...
- Alguém pode me passar a calda de frutas?...
...
Aos poucos, vão retirando-se da mesa, enquanto enfileiram-se em torno da matriarca, beijando-lhe a cabeça, a testa, as faces, as mãos. Ela tudo vê, tudo sente, tudo silencia. Quando sai o último grupo, lentamente, ela toca uma mão na outra, sentindo-as grudarem. Depois, alisa o rosto, e também sente os resquícios da sobremesa há pouco servida.
Na outra extremidade da mesa, permanece Adelaide, a filha do meio, que mora sozinha, longe dali. Olha a filha com compaixão, a mesma que sente agora por si mesma. Suavemente, Adelaide levanta, vai ao encontro da mãe, no costumeiro mutismo tranquilizador, e a abraça com carinho.
O diálogo que estabelecem é o mesmo, há décadas:
- Mamãe, melhor a senhora repousar...
- Todos já foram?...
- Sim...
- Estão todos bem?...
- Cada qual com os problemas que enxerga, mamãe...
- Melhor assim... têm o que fazer na vida...
- É sim, mamãe...
...
Ambas seguem à sala de estar, onde Adelaide, um domingo por mês, acomoda a mãe em sua velha cadeira de balanço. A matriarca da grande família senta, e suspira profundamente, para depois dizer:
- Só preciso dormir um pouco, minha filha... talvez, esquecer...(vira o rosto para o lado)
Adelaide sai da sala, dirige-se à porta principal, e, vendo-se fora, vai procurar o homem responsável pela detonação da velha casa:
- Por favor, meus fantasmas acabaram a última refeição agora... Aguarde só alguns minutos, para que o último adormeça...

Saudade

Dora Brisa

De repente, bateu em mim
Uma saudade,
Saudade do que nunca tive...
Saudade dos teus olhos nos meus,
Saudade do teu sorriso lindo,
Saudade dos nossos papos infindáveis,
Saudade do nosso silêncio...

De repente, bateu em mim
Uma só vontade,
Vontade de correr pra você,
Vontade de te abraçar,
Vontade de te dizer tantas coisas,
Vontade de brincar com você,
Vontade de, com você, me calar...

De repente, bateu em mim
Um sonho mágico de
Estar contigo,
Sentir teu colo,
Teu abrigo...

De repente, bateu em mim
Esta falta de você,
Esta tua ausência forte,
Este querer a tua presença...

De repente, bateu em mim
Uma vontade louca de chorar,
Chorar por não ter você aqui,
Chorar por sentir tua presença,
Chorar por sentir teu abraço, tua lágrima...

De repente, bateu em mim
Tua presença forte,
Teu sorriso mais lindo,
Teu abraço doce...

De repente,
De repente, bateu em mim
Uma vontade de recostar
Meu coração no teu colo,
E permitir-me sonhar...

Voz - Sereníssima:
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quarta-feira, 5 de maio de 2010

Tempus fugit

Dora Brisa

Um dia,
Eu morrerei,
Tu morrerás,
Ele morrerá,
Nós morreremos,
Vós morrereis,
Eles morrerão.
Assim mesmo:
Num dia qualquer,
Numa noite qualquer.
Não importa.
Morreremos – todos.
No primeiro dia,
Chorarão a nossa morte,
Em lágrimas de saudade
E arrependimento.
No centésimo décimo sexto dia,
Lembrarão a nossa morte,
Na justificativa de um
Fracasso qualquer.
No milésimo centésimo terceiro dia,
Saberão a nossa morte,
Com a curiosidade turística
Do olhar que visita terra estranha.
No milionésimo vigésimo oitavo dia,
Já não chorarão, nem lembrarão a nossa morte.
No meio de entulhos ignorados pelo tempo,
Alguém (sem saber) guarda a nossa existência.
Displicentemente.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Do diálogo

Dora Brisa

Não diga nada mais ao meu pensar. Uma só palavra só. O meu pensar anda cheio das tuas frases vazias. Se queres que eu ainda te escute, dirija tuas palavras – sentidas – ao meu sentir, onde reside toda a minha compreensão. Ao meu pensar, deixo apenas que decodifique o que persiste de racional no meu sentir. Sem abstração. Surpreenda-me. Nada me fales do que – ainda – espero ouvir de ti. Porque minha esperança sou eu – que já me tenho por inteira. De ti, o que preciso és tu – inteiro.
Não te admires, nem te assustes, se, no instante vazio, quando me pergunta o que penso – te respondo apenas: ar. Porque, neste momento exato, meu sentir se enche de ar, e outra palavra não cabe no meu pensar. Sinta comigo o ar – e esqueça a pergunta cheia de suposições, sem respiração. Inspira. Expira. Transpira comigo este instante que inspira por si só.
Deixa também eu olhar a paisagem pela janela da tua sala. Empresta os óculos escuros, porque também a mim, muitas verdades ofuscam. Eu, como tu, preciso de tempo para habituar minhas pupilas à claridade sem sombras.
Quando eu gritar por ti, venha correndo. Neste instante – único e breve -, um pássaro indefeso se equilibra na ponta fina de um galho. Observa o mínimo gesto que faço, para equilibrar-me nesta vida. Um só descuido – e vôo rasante.
Continuo à espera do teu chamado. Para o meu silêncio fazer companhia ao teu silêncio, diante do crepúsculo fatal. Até nossos silêncios tornarem-se um só – e único – silêncio, enquanto todos os gestos e pensamentos fenecem com o entardecer.
Depois disso tudo, já não seremos estranhos um para o outro. E já não precisarás mais perguntar-me coisa alguma, porque eu serei – inteira – resposta. E a tua sala será a nossa sala. Precisaremos de um só par de óculos escuros às duas pupilas nossas. E já não voaremos mais sozinhos, porque o nosso silêncio nos acompanhará. E nada mais precisaremos pensar. Porque o nosso sentir será delicado, único, como até o último instante do nosso diálogo vivido.

Voz - Rosany Costa:
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