sábado, 30 de abril de 2011

Impossivelmente real

Dora Brisa

A realidade não me compreende,
E o que existe de real em mim
É essa incompreensão pura.
Nada me falta, nada me sobra,
Por que a realidade não me suporta,
Nem me sustenta, ou me acredita.
Fui feita e nascida
À revelia da realidade,
Que me desconhece, ou me ignora.
Assim vivo - à margem da realidade
Que não me enxerga, não me sabe.
O mais real que há em mim
É essa realidade torturante,
Que não chega se fazer presente,
Por que, antes e acima de tudo,
Prevalece o meu existir ignóbil,
Breve, ainda que pesado,
Forjado a ferro e fogo pelas
Chamuscadas farpas de uma
Realidade tão sem sentido
Quão a própria existência humana.

na minha voz:
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terça-feira, 26 de abril de 2011

Crime perfeito

Não suportava mais. Seria naquele dia, ou naquela noite, de qualquer jeito. Ainda não sabia como, mas bastava saber que se livraria - finalmente - do que há tanto tempo pesava-lhe o coração.
Aos poucos, concatenava as idéias, planejando um crime perfeito. Seria crime passional, é verdade, mas sem um erro sequer. Precisava pensar em todos os detalhes, para não deixar qualquer vestígio. Nada mais tinha importância, e todo seu pensamento estava voltado para o "grande plano" - logo ele, por décadas incapaz de matar uma mosca, ou barata.
O tempo tinha-lhe causado rugas e cansaço extremo, principalmente por carregar aquele enorme peso, sabendo - desde sempre - que não tinha qualquer obrigação de continuar daquele jeito. Por isso, depois de semanas insones, resolveu finalmente pôr fim à razão de sua apatia e tristeza. Na primeira vez em que pensou - "só matando, para acabar com minha agonia" -, sentiu-se um verdadeiro assassino: poderoso, irredutível. Logo depois, veio-lhe à mente: "será que conseguirei viver sem este peso na minha vida?" Mas a vontade de livrar-se era maior que qualquer outro sentimento.
Calmamente, foi planejando como cometeria seu - primeiro e único - crime. "Precisa ser perfeito, para eu ter certeza que matei mesmo" - pensava ele em voz alta, como a ordenar a si próprio. Há tanto tempo estava acostumado a obedecer, que tinha até esquecido como se dirige a própria vida. Mas agora faltava pouco para ele matar aquela que lhe tirara a vida, a alegria, a possibilidade de ser feliz.
Na verdade, ele reconhecia estar habituado com aquela convivência dolorida. Ela estava sempre a machucar-lhe, removendo cicatrizes de feridas que ele já podia ter esquecido. Mas também era ela que lembrava-lhe bons e inesquecíveis momentos da vida, quando outras companhias preenchiam o tempo dele - presenças com fisionomias, vozes, olhares, cheiros, abraços e beijos. "Basta de pesar prós e contras: um crime perfeito, apenas isso"- repetia, às vezes entusiasmando-se com a própria voz, cada vez mais autoritária e segura.
Depois de tanto planejar, repensar, decidiu: seria naquela noite escura. Afinal, em noites escuras, ela dominava-o completamente. Seria como uma vingança, após tantas noites escuras que ela o fazia chorar, até amanhecer. "Um crime perfeito, perfeito"- repetia ele.
Voltaria para casa, no final da tarde, como todos os dias. E lá estaria ela, na sala de estar, a esperá-lo pacientemente. "Mas hoje ela não me fará chorar, nem nunca mais" - repetia ele, enquanto secava as poucas lágrimas que saíam intimidadas por suas próprias palavras.
Aproxima-se da casa, mais lento do que de costume. "Ela nem perceberá nada"- diz para si mesmo, quase num cochicho. Abre a porta, e eis aquela que é a razão de tantas amarguras. Como sempre, ela senta no sofá maior, aguardando-o em seu colo.
Determinado, olhar fixo, ele vai em direção à ela sem titubear. Crime perfeito. Assassinou - finalmente - a saudade!...

sábado, 23 de abril de 2011

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Saber inútil

Dora Brisa

Sei que seria mais fácil
Se eu desse a todos razão
Se eu tivesse fingido
Se eu não respondesse 'não'
Se eu não tivesse sempre partido
Se eu não soltasse palavrão
Se eu ajoelhasse sempre em pedido
Se eu não andasse na contramão

Já me disseram
Que não valho o que como
Justo eu que me alimento
De tão pouco
Quase nada

Sei que seria mais fácil
Se eu falasse 'coisa interessante'
Se eu não questionasse a vida
Se eu me pintasse 'importante'
Se eu não fosse recolhida
Se eu admirasse o 'elegante'
Se eu não recusasse despedida
Se eu baixasse a cabeça indo adiante

Já me disseram
Que sou um lixo incabível
Em qualquer vida possível
Justo eu que nem imagino
A razão do existir humano

Sei que seria mais fácil
Se eu obedecesse o destino
Se eu não falasse tanta 'asneira'
Se eu seguisse a maioria em desatino
Se eu não levasse a sério a brincadeira
Se eu acreditasse no cretino
Se eu não fugisse da bandalheira
Se eu apostasse a vida no cassino

Já me disseram
Que a minha vida podia ter 'sentido'
Sei que seria mais fácil
Mas este saber me é inútil
Simplesmente por que só sei ser eu
(ninguém mais, nem o que me disseram)

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Loucura

Dora Brisa

Quando a noite chega,
Fecho portas e janelas,
Escureço...
Na madrugada,
Um uivo (dor!) - estremeço...
O tempo passa,
O relógio insistente,
Esqueço...
Busco outro tempo,
Outras vidas,
Outro endereço...
Vejo-me em grande salão,
A bailar como flor,
De mão em mão...
Em pouco tempo, feneço...
Agora, será que me deu?
Fascinado, recolhido neste Liceu,
Enlouqueço...
Vou-me embora, sem bagagem,
Enrubesço...
Não há mais tempo,
Nem apreço,
Para salvar minha loucura.
Chega o dia:
Amanheço...
Portas e janelas resistem...
Sem poder abri-las,
Mais uma vez anoiteço...
O relógio estanca o tempo...
No vazio, adormeço...

Voz - Helena Antoun:

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segunda-feira, 11 de abril de 2011

Vidas

Dora Brisa

Eu vivo você,
Você me vive.
Já não mais existem
Duas vidas:
São tantas.
Vida tua,
Vida minha,
Vida nossa.
Em nossa vida,
Tantas vidas
Numa vida só.

sábado, 9 de abril de 2011

Risco

Dora Brisa

Você sabe que não tem volta,
E ainda arrisca...
Você sabe que a dor não solta,
E ainda arrisca...
Você sabe que não há mais tempo,
E ainda arrisca...
Você sabe que a desilusão é o tormento,
E ainda arrisca...
Você sabe que não há caminho,
E ainda arrisca...
Você sabe que anda em desalinho,
E ainda arrisca...
Você sabe que tem de se desapegar,
E ainda arrisca...
Você sabe que não pode gritar,
E ainda arrisca...
Você sabe do seu coração,
E ainda arrisca...
Você sabe que pode ser a última canção,
E ainda arrisca...
Você sabe que tudo pode ser nada,
E ainda arrisca...
Você sabe da sentença planejada,
E ainda arrisca...
Você sabe da lágrima escondida,
E ainda arrisca...
Você sabe da alma em ferida,
E ainda arrisca...
Você sabe do risco de ser
Quem você é: artista...
Você sabe...
Você arrisca...

Voz - Elisa:
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segunda-feira, 4 de abril de 2011

Vagar

Dora Brisa

Meu divagar
Segue devagar
De tanto vagar
De lugar
Em lugar
Sem lugar
Meu divagar
Vai vagar
Bem devagar
Num outro divagar
Outro lugar...