sexta-feira, 22 de julho de 2011

Descrença

Dora Brisa

Ando descrente
De tudo
De todos
De nada
Ando descrente
Até e mais
De mim mesma
Já nem ando
Fico
Fico descrente
E a minha descrença
É dura seca vazia
Toda descrente
Ausente
De qualquer crença
Fico descrente
Enquanto a crença
Perambula rota e torpe
Por algum qualquer caminho
Que não creio mais
Ou jamais cri
Se alguma crença tive
Nesta vida descrente
Foi crer que ainda
Pudesse vir a crer
Não pude
Nem posso
Por isso e com isso
Fico descrente
Na vida que me crê
Ser vivo
Ser vivente
Sem eu saber por que

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Hoje é Dia do Amigo \0/ \0/ \0/

Meu plural
Dora Brisa

Pensando nos meus amigos, vejo que todos somos tão diferentes, e ao mesmo tempo tão iguais...
Tenho amigos que não me procuram, não me falam coisas – nem da própria vida, nem da vida dos outros. Outro amigos me procuram a todo momento, contando coisas da vida.
Tenho amigos que, quando me procuram, estão sempre chorando por alguma coisa. Outros amigos me procuram pra contar piadas, sorrir junto.
Tenho amigos que se aproximam em silêncio, e em silêncio se afastam. Outros amigos chegam fazendo alarde, e movimentam a minha vida.
Tenho amigos que sentem ciúmes de mim, e às vezes até 'emburram' por causa disso, e me punem com a ausência deles. Outros amigos me apresentam os amigos deles e fazem amizade com os meus amigos – e a família aumenta.
Tenho amigos que, quando me procuram, é para falar sobre economia, política, situação do País, profissões, mercado de trabalho. Outros amigos compartilham comigo a alma poética, e viajamos juntos por nuvens que eu (ainda) não conhecia.
Tenho amigos que me falam de futilidades, brincam com as vaidades, e acabamos rindo juntos. Outros amigos só me dizem coisas sérias, abismais até, e nos perdemos em questões existenciais.
Tenho amigos que estão sempre procurando um jeito pra falarem comigo, se preocupando como vão me tratar. Outros amigos me chegam de qualquer jeito, e rimos à toa, ou até choramos.
Tenho amigos que não me compreendem, ou talvez não me aceitem, mas nem por isso deixam de me buscar. Outros amigos, sem questionarem se me entendem ou não, permanecem comigo na caminhada atemporal.
Tenho amigos pretos, brancos, vermelhos, amarelos – coloridos de alma. Tenho amigos melancólicos, alegres, silenciosos, festeiros. São amigos queridos que sempre encontram no meu coração, o aconchego. Sei que todos os meus amigos são o meu plural – por que eu sou cadinho de cada um deles.

Voz - Rosany Costa:
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sábado, 16 de julho de 2011

Você & Eu

Dora Brisa

Se você fosse o mar,
Eu seria o rio...

Se você fosse o rio,
Eu seria a ponte...

Se você fosse a ponte,
Eu seria o caminhar...

Se você fosse o caminhar,
Eu seria a estrada...

Se você fosse a estrada,
Eu seria a flor...

Se você fosse a flor,
Eu seria o sereno...

Se você fosse o sereno,
Eu seria a lua nova...

Se você fosse a lua nova,
Eu seria a estrela...

Se você fosse a estrela,
Eu seria a nuvem...

Se você fosse a nuvem,
Eu seria o pássaro...

Se você fosse o pássaro,
Eu seria a árvore...

Se você fosse a árvore,
Eu seria a rede...

Se você fosse a rede,
Eu seria a casa...

Se você fosse a casa,
Eu seria a lareira...

Se você fosse a lareira,
Eu seria o gelo...

Se você fosse o gelo,
Eu seria o mar – de lágrimas...

Musica e voz - Marcos Guimarães (Guima):
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terça-feira, 12 de julho de 2011

Barco sem vela

Dora Brisa

Sou sempre barco de partida,
Nunca barco de chegada,
Sem porto, sem cais, sem despedida,
Sempre sem vela, no meio do nada...

Jamais sou barco de socorro,
Sempre barco de naufrágio sou...
A cada madrugada escura, morro...
Basta uma brisa, e de novo me vou...

Não sei ser cais abandonado,
Nem porto que aguarda chegada.
Sou barco incerto, desprezado,
E tudo o que resta é navegar neste nada...

No límpido oceano em que navego,
Sigo o rumo do farol esquecido:
Sem destino, sempre me nego
À bússola que aponta algum sentido...

No meio de tanto mar,
Já não penso, nem descanso...
Não há chão a aportar,
Nem sequer um canto de remanso...

Sigo torto, barco desalinhado,
Esperando o sol que não prenuncia,
Num viver desajeitado,
Sem porto seguro que acaricia...

...E tudo isso é o existir,
Dizem os pescadores à beira-mar,
Enquanto o oceano fica a repetir:
- Segue, barco solitário, a sonhar!...

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Procura cega

Dora Brisa

Enquanto você, cabisbaixo,
Me procura nas coisas que parecem minhas,
Eu simplesmente me acho
Nas silenciosas entrelinhas...
Você me procura na sala escura,
E eu banhada pela luz
Da solidão mais pura...
Você pede de mim aos vizinhos,
E eu – ajoelhada, dolorida –
A retirar seus espinhos...
Você me questiona, surdo,
Sobre política, macrobiótica,
Enquanto eu vivo do absurdo:
Sou bio – nada lógica...
Você me procura em igrejas,
Me chama de querubim,
E eu – pagã – bebo cachaça com cerejas,
Na esquina, no botequim...
Você sai à minha cata,
Em cerimônias, coquetéis,
E eu fico com a minha coca-cola em lata,
Em casa, comendo pastéis...
Decidido, você me presenteia
Farto estojo de maquiagem,
Sem saber que esta alma incendeia,
Despudorada, derretendo a imagem.
No circo, lá vai você perdido,
Com o olhar me buscando no público inteiro,
Ignorando que eu sou o pobre aturdido
Palhaço sem a menor graça no picadeiro...
Enquanto você fica parado no portão,
À minha procura (cega) lá fora,
Bato forte a porta do coração,
Definitivamente: vou embora...

Voz - Elisa:
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segunda-feira, 4 de julho de 2011

Digo

Dora Brisa

Quando digo
O que digo
Se digo
É por que digo
E nada mais
Quero dizer
Ou digo
Se não digo
É por que não tenho
O que dizer
Ou não digo
Por que não quero dizer
Mas o que digo
Digo por que digo
E nada mais quero dizer
Nem menos do que digo
Só digo
O que digo
Por ainda querer dizer
O que digo
Mas se nada mais digo
É por que tudo o que
Ainda digo
No silencio sem dizer
Digo sem saber
Que digo mais
Que tudo que cheguei dizer

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Bicho do mato

Dora Brisa

Vive no meio do mato,
Longe da civilização...
Não é homem, não é rato,
Mas tem coração...

É bicho do mato,
Não é homem,
Não é gato...

Com languidez particular,
Rasteja no chão desconhecido...
Lambe as feridas que fazem chorar,
Recolhe o instante aprendido...

É bicho do mato,
Não é homem,
Não é sapo...

Dos pássaros, guarda o canto...
Das árvores, a renovação...
De todas as flores, o encanto...
Do brilho do sol, a revelação...

É bicho do mato,
Não é homem,
Não é pato...

É mais mato do que bicho...
Do humano, desconhece a vida...
Não sabe o que é lixo...
Ignora a violência descabida...

Apenas bicho do mato,
Não é homem,
E fim de papo...

Voz - Helena Antoun:
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