terça-feira, 27 de setembro de 2011

Hora vaga

Foto: Jani
Dora Brisa

Atrás da bola,
Vai a criança.
Atrás da criança,
Vai o adulto.
Atrás do adulto,
Vai o sonho.
Atrás do sonho,
Vai a realidade.
Atrás da realidade,
Vai o cansaço.
Atrás do cansaço,
Vai o descanso.
Atrás do descanso,
Vai o pescador.
Atrás do pescador,
Vai o peixe,
Tatuado na bola,
Que flutua
No mar...

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Conjugação de-vida

Dora Brisa

Aos Santos você reza
Eu sinto frio e fome

O prato do dia você despreza
Eu sinto frio e fome

Você chora de solidão
Eu sinto frio e fome

Você calcula a inflação
Eu sinto frio e fome

Aniversario você festeja
Eu sinto frio e fome

Você se rebela e atira a bandeja
Eu sinto frio e fome

Emprego novo você comemora
Eu sinto frio e fome

Amor faz você perder a hora
Eu sinto frio e fome

Você faz discurso inflamado
Eu sinto frio e fome

Você reclama do trânsito parado
Eu sinto frio e fome

Você planeja sonhada viagem
Eu sinto frio e fome

Você expõe em vernissage
Eu sinto frio e fome

Você poupa para o aluguel
Eu sinto frio e fome

Você come croissant com mel
Eu sinto frio e fome

Você toma antidepressivo
Eu sinto frio e fome

Você busca oco paliativo
Eu sinto frio e fome

Você olha para mim com pena
Eu ainda sinto frio e fome

Você se perde em problema
Eu continuo sentindo frio e fome

Você não sabe o que fazer da vida
Eu sobrevivo com frio e fome

Você se suicida
Eu morro de frio e fome

Em alguma esquina perdida
Esta é a historia do homem.

Voz - Helena Antoun:
video

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Subversão

Dora Brisa

Neste subverso
Em que me atrevo,
Revelo o inverso
Do que me é segredo.

Vou contar-lhe aqui
Como deixei de ser,
Antes do tempo em que nasci,
Subversiva sem viver.

Nasci em tempos de opressão,
Tempos de apatia aparente,
Mascara da subversão,
Que unia toda gente.

(Enquanto, fora, sangue verte,
No utero quase a parir,
Um corpo quase inerte,
Que ainda sabe dormir.)

Fui parida, de madrugada,
Pelo medo e pela ousadia,
Carregadores do nada,
Diante do tudo que exigia.

Não me chamaram
À trincheira clandestina,
Nem me batizaram
Com nome de beata menina.

Meu primeiro caminhar
Foi em direção do trem,
Que me ensinou a viajar,
E querer ver mais além.

Semelhante a tantos,
Também eu cresci na ignorancia:
Acordada, sonhava encantos,
Dormindo, despertava a infancia.

Cedo, quis aprender a ler,
E escrever era vontade incontida
(Eu queria tanta coisa dizer),
Naquela vida incompreendida.

Aprendi a ler, na placa da estação,
À beira dos trilhos esquecidos:
“Pare Olhe Escute” – minha primeira lição.
Até hoje, tantos universos lidos...

Cresci na revolução.
A revolução cresceu em mim.
Se ainda falo de coração,
É por acreditar no coração, enfim.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Estátua de sal

Dora Brisa

É noite escura...
É madrugada fria...
Busco o mar,
Tão novo,
Tão antigo...
Quero afogar-me
Com tanta vida à beira.
Sorvo, lentamente,
Na concha das minhas mãos,
Toda vida que
O mar regurgita,
Entre fúria e desespero.
O mar, sedutor como a vida,
Leva-me com ele,
Num balanço encantado
De ondas invisíveis.
Doloridamente, o mar
Abre-me, num soluço,
Todas as feridas d'alma,
Esculpindo-me estátua de sal.
Os meus pés presos à areia,
A minha alma solta no mar...
Ainda assim, quero a vida,
A vida que escapou-me
Nas águas de um mar
Talvez mais profundo,
Talvez mais escuro,
Talvez mais amedrontador...
O mar parece compreender-me
Os pensamentos d'alma,
E liberta meus passos,
Que nunca tiveram chão...
Na superfície, adormece o mar...
Do fundo das águas,
Desperta a vida sufocada...
O mar arremessa-me o corpo,
Arranca-me o medo...
Também ele sabe que
Vivo só em desequilíbrio...
Eis que ressuscito das águas,
Estátua de sal que sou,
Fruto agora do mar,
Concha vazia, oca,
Sem pérola, sem voz...
O mar penteia-me os cabelos
De estátua, como escultor
A cuidar da obra inacabada...
Águas salgadas escorrem
Pelo meu corpo que se liquefaz,
A cada onda latejante do mar...
O sal encharca e cobre
As feridas da estátua,
Onde, no fundo escuro, a alma
Se contorce em dor...
No horizonte, o dia
Faz o mar despertar,
E já não há mais sonho,
Nem vontade de dormir...
A janela entreaberta
Traz o mar para dentro
Do quarto da estátua de sal,
Que ainda se contorce, se desfaz
Em lágrimas e sangue salgados,
Encharcados pelo mar,
Que tudo leva, pouco refaz...

Voz - Elisa:
video

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Roteiro

Foto: Ronaldo

Dora Brisa

A vida pulsa entre
o som e o ruído
o silencio e o nada
o novo e o puído
a parede e a estrada
a interrogação e o sentido
a bruxa e a fada
o grito e o gemido
a partida e a chegada
a descoberta e o perdido
a omissão e a madrugada
o botox e o mendigo
o abraço e a bofetada
a ordem e o pedido
o pranto e a risada
o bemol e o sustenido
o perigo e a boiada
depois do vivido
e do não vivido
a vida acaba
e mais nada.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Procura

Dora Brisa

Quero ouvir aquela canção
Que canta o amor, a paz,
O olhar, o perdão,
E muito mais...

Não é essa música, não,
Nem aquela lançada ano passado...
É outra, que fala de tudo do coração,
Extingue a palavra pecado...

Também quero aquela poesia
Que fala de outros tempos,
Do nosso dia-a-dia,
Quando voávamos com outros ventos...

Não, não é aquela poesia,
Porque falta alguma coisa nela:
Talvez uma rede vazia,
Ou uma esperança na janela...

Quero música, poesia,
Procuro-as por todo lugar,
Mas nada preenche minha busca vazia,
E, louca, continuo a pesquisar...

Cansada de vasculhar,
Deixo minha procura, enfim...
Sozinha, busco o caminho do mar:
Eis a música e a poesia dentro de mim...

Voz - Rosany Costa:
video

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Última estação

Dora Brisa

Esse é o meu tempo, tempo de voltar
À velha estação de trem
Em abandono, como eu.
É tempo de olhar a vida que passa,
Já que os trens, há muito,
Não passam mais em comboio.
Não há mais trilhos.
Por isso, minha vida descarrilada.
Sento no único banco vazio que restou,
Igual minha alma.
E o que faço é simplesmente respirar:
Inspiro, expiro,
Inspiro, expiro.
E o que sei, nesse gesto meu impensado,
É que a minha vida não expira.
Ainda não.
Por isso, agora respiro com ironia.
Encho e esvazio os pulmões, que
Um dia cessarão carcomidos, junto com o resto
Do meu corpo, que será presenteado
Aos vermes, ou fará parte, uma ínfima parte,
Dessa poluição de cidade grande. E assim
Não voltarei mais à velha estação,
Nem meu corpo ocupará espaço
No universo humano.
Simplesmente por que meu tempo
Terá expirado, junto com essa vida
Que agora respira o ar poluído
Das fábricas,
Dos motores,
Dos incineradores.
Tudo misturado, como a minha própria vida,
Que pulsa com o tempo sem porquê.
Meu tempo de vida está sendo
Cronometrado, sem eu saber.
E, sem eu saber também,
Meu tempo de morte será marcado,
Pois alguém, um dia qualquer,
Lembrará desse espectro humano.
Sem relógio, deixo-me ficar só com o tempo,
Para quebrar as algemas propositadamente.
Hoje, neste velho banco de estação,
Que o tempo não me encontre,
Pois estou sem tempo para ver
O tempo passar, o tempo escoar.
Não, não me venha o tempo
Da sentença, o tempo que só marca
O que não faço, o que não vivo, o tempo perdido.
Liberto, respiro. Não há movimento
Nas ruas, nas calçadas, nas pessoas.
Ora, não venham me dizer
Que dia é hoje, que horas são.
Não. Não quero saber de mais nada,
Nem do tempo futuro, tampouco do tempo passado,
Menos ainda do tempo que não é presente algum.
Levem para longe dos meus sentidos,
O badalar dos sinos da Catedral, que anuncia
Mais um quarto de hora passado no tempo.
Quanto tempo dura uma saudade?
E uma despedida? E a partida de
Quem se foi, sem se despedir?...
Meu coração acompanha agora
O ritmo descompassado do meu pensar,
Invadido por lembranças marcadas
Pelo tempo - este mesmo tempo
Que ora se esvai no meu olhar perdido -,
Como se ainda houvesse tempo,
Tempo para viver, e depois,
Só depois de a vida tornar-se enfadonha,
Aí sim, tempo de morrer,
Ou não morrer.
Um homem maltrapilho pára diante de mim.
Pede um trocado para continuar sobrevivendo.
Aturdido, remexo os bolsos do velho casaco.
Nem sei se trago algum dinheiro comigo.
Decido impetuosamente tirar o casaco,
E oferecê-lo ao olhar estupefato.
Preciso dizer alguma coisa, qualquer coisa.
Apenas um murmúrio sai da minha alma:
– Pode levar o casaco,
Porque você e eu morreremos.
Provavelmente, você conheça mais gente,
A quem este surrado paletó ainda possa servir.
Digo isso, tirando os sapatos:
– Esses também podem ajudar
Na caminhada que resta...
Com o casaco no braço, o homem ainda pega o par
De sapatos rotos, e corre.
Perde um dos sapatos no caminho.
Nem olha para trás.
Fugiu de mim, como acha que
Foge da morte.
Nem pude dizer a ele que também eu sinto medo,
Medo de perder a vida, sem aviso prévio.
Sobrevivi até hoje assim:
Sob o crivo do tempo, silencioso, este mesmo
Tempo que passa na velha estação.
Envelheci. Já não posso mais correr, fugir.
Por isso, permaneço sentado
Nesse banco empedernido
Pelo sempre tempo que torna opaca
Qualquer visão humana.
Tanto eu, quanto aquele homem que escafedeu-se,
Já não podemos mais crer
Em vida eterna, céu, harpas e querubins.
Todos nós, seres humanos,
Até mesmo aqueles que professam uma fé,
Sabemos que podem haver outras vidas.
Mas cada vida é única,
Como também são únicos os laços.
Quando alguém diz que não teme a morte,
Está falando por todos nós:
Eu minto,
Tu mentes,
Ele mente,
Nós mentimos,
Vós mentis,
Eles mentem.
(Duas varejeiras me perseguem.
Chegaram cedo para o banquete.
Não importa. Parecem ter
todo o tempo do mundo. Mas
também elas morrerão. Pois que
esperem o meu tempo, que
marca sentido contrário dos relógios.)
De onde surgiu este cão?
Parece velho, cansado.
Lentamente, vem se chegando ao banco.
Deita em silêncio, baixa o olhar sem brilho.
Reparo nas feridas dele,
Pêlos com pus ressequido.
E eu aqui sentado, sem uma chaga sequer,
Nem mesmo um calo purulento.
Talvez, também por isso, sinto medo,
Medo de perder a vida que nunca tive.
Não trago no corpo, as chagas da crucificação
Daquele que (dizem) morreu
Por nós, os pecadores.
Eu, ordinário que sou, não saberia
Render-me à morte, com beatitude.
Não, não eu, que represento
O homus sapiens do terceiro milênio,
Com toda a sua tecnologia, toda a sua ciência,
Todo o seu horror à morte, cada vez maior.
Viver é um susto; morrer é uma fatalidade.
O cão, de olhos fechados, focinho no chão,
Não sabe disso, ignora que vai morrer.
Nem sabe que vive, por que não pensa.
Eu penso,
Tu pensas,
Ele pensa,
Nós pensamos,
Vós pensais,
Eles pensam.
Fecho também os olhos, por um momento.
Mas ainda penso.
Sinto uma vontade louca de
Encostar meu nariz no chão, e
Não mais precisar fugir do meu pensar,
Do meu medo genuíno, que
Há décadas me atormenta, farejador:
Morte!
Morte!
Morte!
Como viver, morrendo a todo instante?
Como não pensar na vida, que
Poderia ter sido vida ganha, ou perdida?
O cão não escuta minhas divagações amedrontadas
Pelo fim predestinado à vida humana.
A cada nascimento (na maioria),
Júbilo em derredor.
O choro do bebê pode ser traduzido:
– Vou morrer. Nasci para morrer.
Esse vagido permanece o resto da vida,
Até que a morte chega, e
Faz tudo calar. Definitivamente.
A vida é eterna? Mas
Eu morro.
Tu morres,
Ele morre,
Nós morremos,
Vós morreis,
Eles morrem.
(Primeiro, de medo.)
Todos, indubitavelmente.
Morre aquele que crê,
Morre aquele que não crê.
Todos – 'farinha do mesmo saco' -,
Matéria orgânica perecível, mortal.
Sempre a morte. A morte sempre
Nos aguardando à espreita,
Num navio, num avião,
Até numa estação de trem, esquecida
Pela vida que passa:
Vida célere, morte lenta.
Um dia a mais, um dia a menos.
O cão não pensa.
Invejavelmente, o cão dorme o
Sono dos justos purulentos.
Se o tempo é o melhor remédio,
Quero sorver até a última gota
Da minha parte da cicuta
Reservada a nós, miseráveis,
Temerosos, solitários, mortais seres humanos.
Do outro lado da rua, que um dia foi trilho,
Passa agora uma madame, que
Passeia com seu cachorro com pedigree.
Ela acelera o passo, após nos observar,
A mim e ao cão deitado.
A madame desvia o olhar com asco,
Visível desconforto. Segue,
Ajeitando-se pelo caminho invisível dos
Trilhos, acompanhada pelo cachorro,
Que fareja aguçadamente o trajeto.
Cachorro de madame não tem feridas,
Só mordomias invejáveis.
Também ele não sabe que vive,
Não pensa sobre a morte,
Idêntico à madame, que deve
Buscar sempre mais banalidades
Que burlem quaisquer indícios
De um breve pensar.
Mas também ela, ser humano, vai morrer.
Ainda que esconda o enfraquecimento físico, com
Cirurgias plásticas irreveláveis, a morte a espera,
Sem pressa, e também ao seu cachorro.
Porque o tempo só é limitado
Às criaturas limitadas.
Eu feneço,
Tu feneces,
Ele fenece,
Nós fenecemos,
Vós feneceis,
Eles fenecem.
Toda vida é subjugada à morte implacável,
Algoz sedento em chamar o próximo da lista
Infindável, à guilhotina.
Neste morticínio, estamos nós, seres (ainda) vivos,
No aguardo forçado da nossa vez.
Todos, meninos solitários,
Tremendo de medo, sob um único
Olhar rígido, mortal: sentença irrevogável.
Para o medo do escuro, existe a luz;
Para cuidar das tantas fobias do homem,
Existem os tratamentos terapêuticos.
Antídoto à morte? Talvez revolta.
Talvez rendição, numa única lágrima de quem
Sempre soube que um dia seria extinto
Do convívio humano, e arremessado ao desconhecido.
Foram-se os tempos
Das brincadeiras de bicho-papão,
Debaixo das macieiras.
É chegado o tempo de não haver mais tempo:
Tempo de medo.
Tempo de silêncio.
Tempo de solidão.
Tempo de quedar a cabeça.
Tempo de não ter razão.
Quanto a mim, humano descartável,
Igual à humanidade inteira, neste mundaréu de medos,
Que resultam num medo só (perder a vida),
Não há mais tempo para
Ter um filho, plantar uma árvore,
Escrever um livro...
Que importa?
Se houvesse mais tempo, com certeza,
Eu nem imaginaria fazer essas coisas todas,
Nem coisa alguma. Morrerei mesmo assim,
Morrerei igual morreram ou morrerão
Aqueles que escreveram árvores,
Plantaram filhos, tiveram livros...
Presságio fatídico.
Por certo, deixarei alguém, um só alguém
Que hoje me ama, ou me odeia,
Já não interessa mais.
Alguém que também vai morrer,
Semelhante ao cão que (ainda) adormece
Ao pé desse velho banco
(tão duro, quanto a morte),
Que não tem vida para perder,
Nem tempo a ganhar.
A morte é onipresente - onipotente.
A vida é limitada - atemorizante.
Entre a vida e a morte,
Tateia a humanidade frágil,
Assustada, indefesa.
Todo mundo sabe que, aonde for,
O que fizer, acabará num só lugar:
Morte.
Haverá sempre o fim da linha, como para o trem.
Erros e acertos oscilam num determinado tempo.
Depois, morte cruel. Não importa
Se for numa clínica moderna e equipada,
Ou num barraco de lama, onde falta até
Um toco de vela. A vida é extinta num
Tempo qualquer: seja diante
Da indignação, ou da subserviência.
Ganhamos tempo; perdemos vida.
Perdemos tempo; perdemos vida.
No final de tudo – morte -,
A eterna morte de uma vida passageira.
Depois, ainda dizem:
– Foi tão cedo.
Não interessa se viveu sete ou setenta anos.
Foi cedo, sim, por que a morte é perversa,
Arranca pela raiz o mais frágil broto,
Até a árvore frondosa,
Sem direito à contestação.
Assim é a morte (aceitam).
Sou irmão dos irmãos que não suportam
O peso da morte nos ombros da vida.
Alguns bebem, outros cheiram ou fumam:
Suicídio lento (quem tem pressa?).
Morreremos, de qualquer jeito.
A vida de uma borboleta não dura mais que
Duas semanas. Por isso, ela voa, voa...
A grande massa humana trabalha para não morrer
De frio, de fome, mas continua morrendo
De medo da morte.
Mesmo sabendo disso,
Eu insisto,
Tu insistes,
Ele insiste,
Nós insistimos,
Vós insistis,
Eles insistem.
Assim é a vida (aceitam).
O que vivemos foi vivido.
O resto é morte.
O tempo em que estou sentado no banco
Dessa velha estação, o tempo é passado.
E tudo o que eu poderia ter feito neste
Tempo que passou é morte.
Vivo agora a minha morte futura,
Sem consciência dela.
Tateio um outro tempo, fora de qualquer tempo,
Sentado apenas sem pensar no que já fiz,
Deixei de fazer, ou o que faria amanhã.
Neste momento, a minha morte respira.
Nem isso quero pensar.
Prefiro olhar para o chão, onde o cão dorme.
Nada sinto. Nem sono.
Estou aquém ou além
(que importância tem?)
Do tempo, que chego crer que eu não
Reagiria, nem por instinto, caso minha
Respiração fosse espaçando, lentamente,
Até nada mais.
Não quero saber se sou 'um grão de areia', ou
'Uma gota de oceano' no universo.
O que sei é que nem sei quem sou.
E aquele mendigo levou há pouco
Minha carteira de identidade, junto com o casaco.
Já não tenho mais sequer nome.
Sou ninguém.
E respiro agora um ar mais leve,
Um tempo tão suave, que eu nunca tive na vida.
Será a morte?... Não, não pode ser,
Porque a morte (dizem) machuca, faz doer fundo.
Nada me dói, nem o que não vivi.
Se eu pudesse,
Se tu pudesses,
Se ele pudesse,
Se nós pudéssemos,
Se vós pudésseis,
Se eles pudessem,
Escolheriam (escolheríamos, todos)
Que ninguém mais morreria.
Quem sabe, a vida fosse diferente,
A humanidade fosse mais humana,
Menos abandonada.
Quem sabe, não haveria mais a palavra
Solidão, nos dicionários das casas, das ruas...
Quem nunca, por um instante só, desejou morrer?
Não é preciso perder (mais) este tempo,
Porque a morte chega, chega sim -
Traiçoeira, desumana.
Em todo velório, a mesma coisa, o tempo todo:
Lágrimas, sentidas lágrimas.
Eu choro,
Tu choras,
Ele chora,
Nós choramos,
Vós chorais,
Eles choram.
Mas não é mais só por causa do
Falecido (já está morto).
Cada qual chora a sua própria morte
Particular, singular, imposta.
Quando as lágrimas esgotam,
Começamos nos observar, um a um,
E nos reconhecemos no olhar apavorado
Do outro, que treme de medo da morte,
Que fatalmente está a caminho.
(Quem será o próximo 'eleito'?)
O que nos resta, então, é baixarmos a cabeça,
Emudecermos, sermos tão humanos
Como foram nossos pais, avós, bisavós,
E também os tataravós dos nossos bisavós,
Como será a humanidade futura.
Neste meu caminho à morte, tenho aprendido que
Cada criatura humana é um universo
Limitado, único, por isso tão só, vulnerável.
Na minha solidão, sou toda a humanidade,
Que busca sofregamente não pensar,
Não sentir tudo isso que provém do peso de
Sermos (todos) mortais, filhos do começo, do meio e do fim.
A vida não tem sentido, nem nexo, nem seta, mas
Eu vivo,
Tu vives,
Ele vive,
Nós vivemos,
Vós viveis,
Eles vivem.
Todos tentamos decifrar, reter o sentido da vida.
Se a morte tem ou faz algum sentido,
Os mortos (só eles) devem saber,
Ou, talvez, a procura insana continua.
Apenas isso. Se assim for,
Menos sentido ainda tem tudo isso
(vida-tempo-morte).
Afinal, quem é este 'Ser' proclamado
Entre os religiosos como justo e misericordioso?
Se assim é, por que uns nascem abastados,
E outros morrem famintos?
Por que uns vivem matando,
E outros morrem assassinados?
Onde a justiça – na vida? na morte?
E ainda dizem que nasci para pagar os meus pecados.
Logo eu, pecador confesso, especialista
Na genuína arte de pecar.
Peco contra mim mesmo,
E não pago contas. Peco neste tempo todo
Que espreita meus passos trôpegos,
Meus pecados imundos. Tempo-urubu:
Paciente, hábil, à espera da minha morte,
Quando também ele, o meu tempo,
Será aniquilado, imerso no tempo eterno da morte.
No tempo da minha morte,
Não me venham prometer purgatório, céu, inferno.
Com certeza, eu morreria antes da hora,
Anteciparia a minha viagem, depois de vomitar
Toda náusea que me dá a palavra eternidade.
De nada adianta, porque
Eu acabo,
Tu acabas,
Ele acaba,
Nós acabamos,
Vós acabais,
Eles acabam.
Morte. Ponto final.
Se depois disso houver mais enredo,
Que venham todas as vidas que tiverem de vir,
Todas, todas as vidas e todas as mortes também.
Cada vida única, cada morte sofrida na solidão
Do existir sempre humano a se repetir.
Ou que não venha mais vida alguma,
Seguida de morte. Que seja o fim.
O fim de cada um. O fim de todos. O fim de tudo.
O nada. O retorno do caos, de onde podem (ou não)
Surgir outra luz, outra vida.
Que seja, ou que não seja, pois
Eu não existirei
Tu não existirás
Ele não existirá
Nós não existiremos
Vós não existireis
Eles não existirão.
E tudo será nada (recomeço?).
Definitivamente, não sei ser humano,
Ou outra coisa qualquer.
Não compreendo a criatura (também eu) que sonha sempre com
Mudanças diversas de vida, mas não admite a morte,
Que não passa de (mais) uma mudança.
Por que toda mudança pressupõe morte – fim de
Alguma coisa -, para aparecimento de outra.
Por isso, quem perde, ganha; e sempre ganha, quem perde.
Vida é mudança constante, incluindo a própria morte.
Minha incompreensão reside nisso:
Por que temo, ser humano que sou, a morte, que
Muda tanto a vida?...
Indiscreta ou sutil, mudança é sempre mudança.
Isso é inquestionável – como a morte.
E não há resposta que faça calar a alma
Humana – inquieta e trêmula.
Na minha finitude, vejo o crepúsculo morrendo
No infinito. Isso me dói. Morre o dia.
Morre o homem. Morre a luz de tudo o que é mundo humano.
De súbito, uma pedra trespassa meu olhar.
Caio de novo na realidade, e o que vejo é
Um menino de rua provocando, de longe,
O cão, que continua deitado, inerte.
Sob meu olhar inquiridor, o menino se afasta,
Arremessando mais pedras, agora na rua sem trilhos.
Olho para o cão. O corpo está hirto. Não há mais
Vida nele. O trem da morte levou a vida
Que restava no cão moribundo, que, certamente,
Não tem um só alguém que chore a sua falta.
Choro eu, cão desconhecido, eu que sou
Tão desconhecido para mim mesmo.
Choro a tua morte, o fim da tua vida sem sentido.
Choro a minha morte também, que virá sorrateira,
E deixará em abandono meu corpo cansado, indefeso.
Retiro a camisa, cubro-lhe as chagas, em silêncio.
Eis tua mortalha, cão que não deve ter sido protegido
Na vida. Também eu, ser humano que (ainda) sou,
Precisei aprender sozinho me proteger, cobrindo
As marcas infames que trago na alma.
Continua dormindo, cão sem nome.
Eu, sem nome também, velo teu sono, o sono
De quem viveu sem saber que vivia, e morre sem despertar.
Só eu sei que você está morto, cão, porque a
Escuridão da noite cobre agora a tua morte e a minha vida.
O que respiro é o ar da morte, que ainda ronda.
Sinto, pressinto, farejo, animal que sou,
Tão mortal quanto o cão rendido.
Mas não me rendo, ainda não,
Não eu, animal teimoso, negando o próprio fim.
Quero respirar também o ar do cão sem vida,
Para provar (a mim? ao cão? à morte?) que ainda vivo.
Não interessa por que, para que, até quando, até onde.
Vivo este instante – basta -, enquanto a morte permeia
Solta, poderosa. Não, não vou me refugiar
Debaixo do banco, nem fingir estar morto.
Respiro profundamente. Estou vivo. Vivo e sozinho.
Viajei tanto na vida, mas meus pés fincam
Nessa estação, onde há muito tempo equilibrei
Meu corpo infantil sobre esses trilhos hoje invisíveis.
Tanto é verdade, que agora mesmo poderia eu percorrer o
Trajeto cego dessa linha morta de trem.
Respondo ao meu menino eufórico: estou cansado.
Não viajei de trem até aqui, com o olhar extasiado em paisagens.
A minha vida humana é isso:
Tão-somente esse momento em que suspiro
Diante da morte, que se apodera de um cão.
'Um dia, todos voltaremos à casa do Pai?'
Não eu, que nunca tive pai, nem casa, sequer um lugar.
Acho mesmo que, morrendo, vou acabar
No meio do caminho - entre qualquer coisa e o nada.
E isso será tudo.
Que fiz eu da morte que vivi, até chegar aqui?
Alguns poucos diriam:
– Construíste casas (não lares).
É bem verdade: exímio construtor, visível profissional.
Debaixo da minha máscara, destruí sonhos,
Cortei caminhos, matei destinos.
Também eu poderia ter sido o chefe das construções.
De que serviria? Estaria morrendo, como tudo, como todos,
Como eu, que sempre fui sem nunca ter sido.
Nem sequer construí uma casa para mim,
Por desconhecer o mais ignóbil projeto de um lar.
Com certeza, aquela que seria minha esposa
Vive – casada – com aquele que poderia ser um
Desconhecido, ou o prefeito da cidade, ou até
O mendigo que há pouco passou por aqui.
Vou morrer sem conhecê-la, tampouco ela saberá de mim,
E terá filhos, muitos filhos, os filhos que seriam nossos.
Não importa! Ela morrerá viúva, ou ele morrerá viúvo,
Até os filhos morrerão, e eu também morrerei.
E morreremos todos, com ou sem lar.
Nunca achei graça ou desgraça na vida.
Por que haverei de culpar ou desculpar alguém na morte?
Não e não, nem a mim mesmo, que nunca soube existir.
O vento sopra a noite e a vida.
Por isso, sinto frio. Encolho-me envergonhado junto ao
Corpo do cão, que ainda morre a própria morte.
Partilho contigo tua mortalha, cão cheio de morte,
E já nem lembro que é minha a camisa que cobre teu pêlo sujo.
Quisera eu ter manchado esta, ou outra camisa qualquer.
Não. Jamais manchei de sangue vivo minha vida morta.
Acomodo minhas costas junto aos pêlos caninos
Cobertos pela mortalha, que era camisa de alguém
Que parecia ser vivo, por que usava camisa.
Fecho os olhos a contragosto, e revejo o sonho,
Aquele mesmo sonho que me persegue - sonho africano -,
Sonho parecido com insônia letárgica, que
Dizima, mutila, mata restos de sonhos.
Também eu estava lá, no chão africano,
Estirado à morte, mas não morria.
Também era noite, mais escura que a pele dos mortos africanos.
Só eu não morria, por que não tinha vida.
Arregalo os olhos, o sonho se dissipa espavorido,
E a noite fria já não eriça mais os pêlos do pobre cão.
Nunca bebi (vida) na vida, e me sinto embriagado,
Farto dessa mesma vida que jamais senti arder na garganta.
Façam suas apostas, senhores.
Aqui jazem um cão e um homem
Sem dono-destino, nem desatino – entregues, rendidos.
Eis aqui um cão que teve vida e morreu,
E um homem que não morreu, por que nem vida teve.
Quem dá mais, senhores?...
Quem pagar pelo cão, leva a mortalha para tapar-lhe as feridas.
Quem arrematar o homem, não paga,
Por que ser humano nada tem, além de um tempo que acaba,
Antes mesmo de a vida principiar...
(Ao longe, o apito da locomotiva – está na minha hora?
Já não enxergo mais o guichê das passagens,
Para eu escolher o destino que nunca tive.
Nem trouxe bagagem. E agora?...)