domingo, 11 de dezembro de 2011

Procissão

Dora Brisa

Minha nega, acenda a lareira,
Que teu nego vai chegar.
Estou descendo a ladeira,
Tão só, cansado de caminhar.
Prepara a espreguiçadeira,
Porque tenho tanto pra te contar.

Imagino teu sorriso brejeiro,
Dizendo que não foi tanto tempo assim.
Minha nega, você não sabe do nevoeiro
Que há depois do Monte Sem-Fim.
Em cidade grande, tudo é ligeiro,
Abrindo feridas profundas, como essas em mim.

Você compreende, minha nega, a vontade
De ir ardia mais e mais no peito.
Era qualquer coisa de saudade,
Que não tive outro jeito.
Depois, ainda tinha a tal curiosidade
De tudo conhecer, saber direito.

Já te contei tantas vezes a mesma história:
Meu velho trabalhava lá, na cidade grande.
As imagens mais coloridas da minha memória
São do meu pai voltando, tocando o berrante.
Minha mãe largava a semeadura da chicória,
E corria, ladeira acima, comigo no peito arfante.

Meu velho falava horas, dias sem parar,
Contava que na cidade tudo era lindo,
As pessoas eram boas, só sabiam amar.
O tempo passava, e meu pai já estava indo
Novamente à cidade trabalhar.
Eu ficava com minha mãe, sonhando, sorrindo.


Até que um dia meu pai não mais voltou.
Minha mãe ficou no pé da ladeira,
Esperando, esperando, até que chorou.
Imaginei meu pai fazendo brincadeira,
Mas a realidade dura chegou,
Minha mãe não mais sorriu, nem acendeu a lareira.

Desde sempre, minha nega, você sabia,
Eu precisava conhecer onde meu pai trabalhava.
Fui lá, não acreditava no que via.
Hoje sei, em tudo o que o velho falava,
De real, só o nome da cidade existia.
Meu pai não nos queria tristes, e tudo fantasiava.

Lá longe, minha nega, onde chamam cidade,
Teu nego foi cuspido, pisoteado.
Lá em cima, minha nega, não existe bondade,
E o poder está com quem vive armado.
Lá, minha nega, alta sociedade
É sinônimo de valor vendido, trocado.

Vi muito cachorro de madame
Desfilar com empregados pela calçada,
Enquanto comia lixo o mendigo infame.
Vi cães e gatos com alimentação balanceada,
Trabalhadores sem segurança caindo de andaime,
Gente infeliz rebolando em roupa apertada.

Tinha gente com cara tão esticada,
Minha nega, se você visse,
Se desse uma só gargalhada,
Provavelmente a costura se abrisse.
Se a fantasia fosse rasgada,
Desconhecido seria o espectro que surgisse.

Nas praças, o lago está sempre cheio
De crianças a brincar,
Pombos circulam pelo meio,
Dividindo os restos de comida do lugar.
De repente, a polícia chega em tiroteio,
Espanta os pombos, e contra os meninos sai a atirar.

Minha nega, de onde eu desço,
É preso e torturado, o pobre que rouba um pão.
O pior de tudo, isso não esqueço,
É a idolatria aos que roubam mais de um milhão.
Se tudo naquela cidade tem um preço,
Dignidade está sempre em liquidação.

Teu nego retorna cansado,
Querendo nos teus braços tudo esquecer.
Minha nega, prepara aquele refogado
Que só você sabe fazer.
Teu nego passou frio, fome, volta mais magro,
Triste, desiludido, vivo só pra você.

Queria tanto te trazer alegria,
Histórias verdadeiras de um mundo bonito,
Mas o que trago no peito é a agonia
Que dói em desilusão, sem um grito.
Todo aquele tempo, tua alma eu via,
Só queria voltar, cada vez mais aflito.

Desço a ladeira finalmente,
E tudo aqui me parece tão mais claro,
Apesar da noite escura, vejo tudo calmamente,
Até nosso barraco, lugar tão raro.
E saber que estou voltando me faz tão contente,
Minha nega, mesmo exausto, não paro.

Você já deve estar dormindo,
E o teu sonho vai chegando.
Quando a porta eu estiver abrindo,
Tenho certeza, tua felicidade irá despertando.
Minha nega abrirá os braços sorrindo,
Enquanto minha alma em pedaços estará chorando.

Ficaremos um tempo abraçados, emudecidos,
Depois misturaremos dores, saudades, emoção.
Trocaremos olhares enternecidos,
Falaremos tanta coisa desconexa, sem razão.
Aos poucos, os olhos ficarão umedecidos,
A todos os sentimentos dando vazão.

Sentarei contigo no colo, junto à lareira,
Evitando contar fatos da cidade.
Perguntarei do pomar, do jardim, da horta, da palmeira.
Depois, farei minha nega sorrir a maior felicidade:
Precisamos saber onde mora uma parteira,
Porque vamos ter um filho. É verdade.

Neste momento, pode ser até que eu não diga,
Mas não quero filho nosso subindo o Monte Sem-Fim.
Vamos fazer melhor: Cercamos tudo com arame e urtiga.
Precisamos proteger nosso filho. Acredita em mim.
Não quero um neguinho depois desiludido, cheio de ferida.
Minha nega, nossa família será feliz assim.

Ah, eu já ia quase esquecendo,
Minha nega, o teu presente:
Um vestido de chita que só vendo.
Você vai abrir o embrulho num repente,
Cada vez mais se surpreendendo,
Vai perguntar o que acho, com o vestido à tua frente.

E vamos, junto à lareira, dançar,
Minha nega com seu novo vestido,
E o nego com nova alma a respirar.
O resto lá em cima esquecido,
Nada mais a lembrar, chorar.
Só por isso, valeu ter sobrevivido.

Minha nega, pode acreditar,
Nessa ladeira, não há cansaço.
Quanto mais desço a imaginar
Teu beijo, tua saudade, teu abraço,
A ladeira fica macia, ajuda o andar,
E coisa mais leve não há que o meu passo.

Agora falta pouco descer,
O nosso barraco já consigo enxergar.
Apesar do escuro a entontecer,
Surgem a porta, as janelas alumiando o meu olhar.
Com toda luz, minha imaginação traz você,
Que corre em minha direção a me abraçar.

Num soco, sou tragado pela realidade:
Tem tiroteio lá em cima, por onde passei.
Desço correndo, fugindo da cidade,
Lembrando e chorando tudo o que penei.
Mais tiros que vêm da atrocidade
Daquele mundo desumano, sem lei.

Minha nega, eles estão descendo,
São muitos chegando perto.
Estou no final da ladeira correndo,
Nenhuma árvore pra me fazer encoberto.
Eles continuam atirando, o chão estremecendo,
E eu mais uma vez fugindo de olho aberto.

As costas me ardem por um momento,
Depois do mais forte estampido.
Curvado, arrasto o corpo no tormento.
O nosso barraco à minha frente, vivo.
Tento levantar o braço, um só movimento,
Seguro o mais que posso o pacote com teu vestido.

De repente, a porta fechada,
Minha nega acendendo a lareira,
Nós dois abraçados na madrugada,
Trocando saudades, lágrimas, falando de palmeira,
Fazendo planos, filho, a noite enluarada,
Minha nega dançando com vestido de chita, toda faceira.

Perdão, minha nega, por tudo na vida:
Perdão por eu ter chegado sem avisar,
Perdão pelo meu sangue no teu vestido de chita,
Perdão por mais uma vez eu te fazer chorar,
Perdão pelo filho que não deixei na tua barriga,
Perdão por eu ter voltado, e não poder mais te abraçar.

Música - Encruzamares - Márcio Arruda/Voz - Reinadi Sampaio:
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