sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Nós mesmos nós

Dora Brisa

Bebemos o mesmo vinho
o mesmo pranto

Trocamos o mesmo carinho
o mesmo encanto

Perseguimos a mesma verdade
a mesma ilusão

Guardamos a mesma saudade
a mesma paixão

Lambemos o mesmo prato
a mesma ferida

Sofremos o mesmo desacato
a mesma despedida

Dividimos o mesmo cobertor
o mesmo vazio

Sentimos o mesmo tremor
o mesmo frio

Conhecemos a mesma linguagem
a mesma mímica

Parecemos a mesma folhagem
a mesma química

Saciamos o mesmo olhar
a mesma sede

Deitamos no mesmo mar
na mesma rede

Antevemos o mesmo futuro
o mesmo fim

Destruímos o mesmo muro
o mesmo jardim

Sentimos a mesma calma
a mesma ira

Somos a mesma fauna
a mesma mentira

Perdemos o mesmo trem
a mesma vida

Negamos o mesmo além
a mesma guarida

Sentamos no mesmo caminho
no mesmo avião

Fugimos do mesmo ninho
do mesmo trovão

Choramos a mesma dor
a mesma solidão

Carregamos a mesma flor
a mesma canção

Morremos no mesmo chão
na mesma melancolia

Nascemos no mesmo coração
na mesma poesia

Assim somos nós
Tecendo nossos nós.

Voz - Elisa:
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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Conto de mar

Dora Brisa

Que saco!
Nem isso você vê?
Estou abandonando o barco.
Finalmente, consegui meu brevê.

Quero voar, voar,
Voar além do teu céu,
Muito além do teu mar.
E que meu adeus seja o escarcéu.

Abandono o teu barco,
Antes de tudo afundar.
Levo comigo o meu arco,
Porque a flecha pego no ar.

Só você não vê
Que a cena é derradeira:
Gran finale fora da tevê,
Comédia mexicana de primeira.

Você não leva a sério,
Mas do teu barco já saí.
Grito todo tipo de impropério:
Não volto, nem se você pedir.

Você não me ouve mais?
Já sei, ficou surdo, retardado.
Permaneço ajoelhada no cais.
Ao longe, você parece aliviado.

Metódico, solta o barco ao mar,
Sem olhar para trás,
Enquanto levanto devagar,
Aceno, grito todos os meus ais.

Você segue irredutível
A navegar pelo teu mar.
Teu silêncio é compreensível
Para mim, que fico a chorar.

Não, não fui eu que abandonei
O barco que continua a velejar.
Foi você que esqueceu (nunca pensei)
Essa que, agora com brevê, não quer mais voar.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Frio

Dora Brisa

Você chega
No vazio do dia
Digo: Sinto frio
Você abre a janela
Aproxima o sol
Prepara um chá
Uma sopa
Cobre meu corpo
Ainda mais
Repito: Sinto frio
Você já não sabe
O que fazer
Sai
Fecha a porta
E vai fazer
Companhia à rua
Dentro de mim
Ainda digo: Sinto frio
Enquanto minha mão
Cada vez mais fria
Continua à espera da sua...

Voz - Helena Antoun:
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sábado, 14 de janeiro de 2012

Odu

Foto: Denise

Dora Brisa

Minha alma, com sede,
É tão vadia, que,
Às vezes, sou pássaro,
Outras, uma rede...
Imersa nesse vazio
Em que me vejo,
Encho-me de sonhos,
Dentro do nada que desejo...
Tanto me reconheço
Presa à liberdade,
Que já não posso mais
Refugiar-me na superficialidade.
Do nada para o nada,
Minha alma vadia continua
Buscando repouso, em rua deserta,
Na poça d’água sem lua...

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Eu e minha alma

Dora Brisa

Minha alma encara
A arma na cara,
O nó desata:
Mata, mata...
Mas morre de medo
De um sapo
Sem arma, sem alma,
Guardado em segredo...
Minha alma se cala
Diante de elogio,
Só fica à vontade,
Quando tudo está frio...
Minha alma é desfeita
Por pedaços, cacos,
Por contradições refeita...
Minha alma é facetada,
Mosaico de uma história
Mal escrita, mal contada...
Minha alma morre de fome,
Diante da mesa farta,
Enquanto todo mundo come...
Minha alma vive sem memória,
Observando outras almas,
Tantas vidas - uma só história...
Minha alma enxerga lá adiante,
Mas não é capaz de ver
O próprio reflexo no semelhante...
Minha alma carrega uma ternura
Tão seca, tão inútil,
Que não faz sossego na brandura...
Minha alma já não ouve
O próprio silêncio que
Em nenhum momento coube...
Minha alma não sabe, nem entende,
Não é sabida, nem entendida,
Porque não se solta, nem se prende...
Minha alma é tudo do nada
Que aprendi a não ser,
Por que, nesta estrada,
O que minha alma sabe é morrer...

Voz - Eduardo Cunha:
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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Um Sonho (ou o que poderia ter sido)

Dora Brisa

Goiânia faz calor. Um calor que seca até a alma da gente. Aproveito a brisa noturna, e adormeço na rede estirada na varanda, nos fundos desta casa para mim desconhecida.
Desperto com os primeiros reflexos do sol. De novo, é dia. Por algum tempo, insisto em manter os olhos fechados, sentindo o colo que a rede me dá.
Aos poucos, cedo aos raios do sol, abrindo os olhos lentamente, sem querer despertar. No alto, o que vejo são brancas e esparsas nuvens, que – tão rarefeitas que estão – nem sequer cobrem o azul do céu. É dia. E tudo de repente clareia ao alto.
Logo abaixo da nuvem menor, a cobertura de um prédio pequeno, onde uma mulher está a olhar em direção do céu. Com os braços cruzados, ela parece extasiada diante do algodão rarefeito que cruza o infinito. Anda de lá para cá na varanda da cobertura, enquanto eu me estico e me encolho nesta rede, sem perdê-la de vista um só instante.
Ainda sonolenta, vou despertando aos poucos, tornando cada vez mais nítida a imagem da mulher na cobertura. Ela continua a caminhar, e às vezes olha para o céu. O que pensa ou sente ela? Será que, como eu, está a divagar sobre a pequenez humana? E nós – seres humanos – tão fortes, tão corajosos. Por dentro, medos e inseguranças, fragilidades contidas. É dia. O infinito clareia o nosso dia. Mais um dia da nossa pequenez acobertada.
Meus olhos vão e vêm naquela cobertura, acompanhando os passos lentos da mulher desconhecida. Será indecisão? Os passos são tão insistentes, que eu, na minha pequenez humana enrolada nesta rede, procuro desvendar o enigma. Viajo em suposições, na tentativa até de fazer meu cérebro despertar, na secura deste calor goiano.
A mulher está à espera? À espera de que, de quem? Não. Ela já não espera mais, porque só fica a olhar o céu agora. Será que reza? Parece que não, pois está agitada, olhando de um lado para o outro, sempre para o alto. Caminha lentamente, e já não pára no meio da varanda. Enquanto eu permaneço encolhida na rede, com o olhar fixo, atenta ao menor movimento na cobertura.
De repente, como num ato impensado, a mulher busca a porta, e desaparece da varanda. Sonolenta, continuo a olhar a cobertura, observando agora, mais abaixo, que todas as janelas e sacadas daquele prédio permanecem fechadas. Deve ser cedo ainda. Não quero saber que horas são. Basta estar acordada junto com o sol, enquanto a maioria dos vizinhos dorme.
O que meus olhos alcançam desta rede são umas poucas árvores, alguns edifícios distantes e aquele prédio, onde a mulher ficou a caminhar na varanda da cobertura. E não quero ver nada além disso, porque o calor goiano me deixa com preguiça. Nenhum esforço. Preciso disso, pelo menos por enquanto, antes de sair, enfrentar ônibus lotado, gente mal-humorada.
Goiano é sisudo, desconfiado, nada afetivo, se comparado aos cariocas, por exemplo. Será que a mulher daquela cobertura é goiana? Nem imagino. O que sei, por testemunho ocular, é que, há pouco, ela ficou a caminhar naquela varanda, agora vazia.
Por que não desvio o olhar daquela cobertura? Por que insisto em fixar os olhos no vazio daquela varanda? Espero o retorno da mulher, para, quem sabe, desvendar o enigma? Que mistério existe no andar insistente de uma criatura? Agora, só meu olhar vai e vem, passeia naquela varanda vazia. Nada. Nada além de uma mureta baixa. No alto, só o azul do céu. As nuvens dissiparam-se todas, sem que eu percebesse.
Ela volta. A mesma mulher, que há pouco caminhava de um lado para o outro, está de novo na varanda da cobertura. Com um cigarro aceso entre os dedos, ela esfumaça a minha visão agora desperta. Permanece estática. Por um momento, parece olhar para mim, já que está voltada à direção desta varanda. Será que me enxerga lá de cima? E se me visse, o que diria ela? Talvez, sentindo-se invadida, murmurasse algum palavrão. Nenhum sinal. Com certeza, se soubesse que estou a espreitá-la, sairia da varanda. Deve estar com o olhar vazio, enquanto fuma.
O sol cada vez mais forte. Aos poucos, as janelas e sacadas dos apartamentos abaixo daquela cobertura vão sendo abertas – uma a uma. Aqui da rede, ainda posso ver quando a mulher fuma a última tragada, jogando o cigarro no chão da varanda. Quando olha para o céu alto, parece suspirar. Imagino. Em passos lentos, sai da varanda. Agora, sei que ela voltará.
Ela retorna. Está com as mãos cheias de roupas. Vai estendê-las aonde, se não vejo varal aqui da rede? Meus olhos procuram um único fio de varal naquela cobertura, enquanto a mulher fica a olhar para baixo, junto à mureta. Surpreendentemente, ela começa a atirar as roupas pela mureta. Uma a uma. Vão caindo roupas, lençóis. Nenhum vento para mudar o destino daqueles tecidos de todas as cores. Fico a imaginar a rua, o canteiro cobertos de branco, vermelho, amarelo, azul, preto, verde.
A mulher permanece calma, jogando uma roupa de cada vez, mureta abaixo. Desaparece na única porta da cobertura, para voltar com mais lençóis, cortinas enormes e roupas, muitas roupas. Num ato mecânico, continua a atirar tudo lá de cima, enquanto aqui embaixo o alto-falante anuncia: “Pamonha doce, pamonha salgada, três por dois reais”.
Permaneço estupefata – e as roupas atiradas do alto daquele prédio. Calmamente. É como se a mulher estivesse cumprindo um ritual que lhe foi determinado. Não olha para baixo. Apenas estira as roupas, e as liberta pelos ares. Não sei o que pensar. Esfrego os olhos com as mãos, ainda encolhida na rede, na expectativa de que a imagem se desfaça, como as nuvens dissipadas. Não adianta. A mulher continua lá – indo e vindo, trazendo e jogando mais roupas, cobertura abaixo.
A repetição do gesto compulsivo começa a me causar angústia. E até esqueço que há pouco eu repousava nesta rede, que ainda me acolhe, sem querer acordar. A angústia faz meu corpo encolhido estremecer. E me enrolo, ainda mais, nesta rede. Sinto frio. Apesar do calor seco, sinto frio. Enquanto meus olhos lacrimejam involuntariamente – fixos naquela cobertura.
Meu sentir está diante de um fato inusitado, e único, e angustiante. Ninguém mais presencia a tamanha passividade da mulher, que persiste – incansável – no abandono das roupas ao léu, sem sequer olhar, um só instante, para baixo.
Sem saber por quê, lembro-me agora daquela noite que o ônibus em que eu viajava foi assaltado. O motorista, trêmulo, tão logo os três assaltantes evadiram-se na estrada escura, avisou-nos que pararia na primeira delegacia à frente. E assim o fez, para registro da ocorrência. E eu – dentro de mim – precisava fazer alguma coisa, por mais absurda que fosse. Chega a ser engraçado hoje lembrar que, depois do pavor, lá estava eu, em plena delegacia, preparando água com açúcar para os passageiros há pouco assaltados. Eram velhinhos que pretendiam passear em Foz do Iguaçu. Eu ficaria no meio do caminho.
Por que a lembrança disso agora? Porque, mais uma vez, eu – dentro de mim – sinto que preciso fazer alguma coisa. Parece absurdo, mas tenho de dar um nome à mulher da cobertura. Para que ela não se dissipe como as nuvens. Vou chamá-la Cecília, para quando lembrar deste fato único torná-la mais presente ainda. Um nome. Cecília. E muitas roupas a escorregarem pela mureta daquela cobertura.
Por que não grita, ou acena, Cecília? Talvez, eu possa ouvi-la, ou decifrar seu gesto até agora incompreensível. Você não está me vendo, Cecília? Olha só: levanto da rede, aceno com os dois braços para você. Mas você não vê, Cecília, porque está absorta nas roupas que deslizam das suas mãos.
Será que agora você pensa, Cecília? Pensa em que, Cecília? O que eu pensaria no seu lugar, Cecília? Sinceramente, não sei. Até porque, para atirar todas essas roupas pela mureta da cobertura, eu já teria pensado e repensado tudo. Será que, enquanto eu dormia nesta rede, onde estou sentada a fitá-la, você pensava na vida, Cecília? Que vida será essa que agora você joga da cobertura desse pequeno prédio?
Desses poucos metros de ar que nos separam, Cecília, posso vê-la saudável. Mesmo lentos, seus gestos não denunciam doença. E sua alma, Cecília? Do que, na verdade, você está tentando se livrar, Cecília, atirando essas roupas para baixo? Confesso que pouco, ou nada, entendo de moda, grifes. Ainda assim, observo, desta rede que agora me embala, que são roupas finas que você joga fora, Cecília. Vestidos longos, alguns paetês até brilham, ao reflexo do sol. E ninguém mais vê.
Que vida é esta que passa pelas suas mãos, Cecília? Você está de mudança? Eu, que nem sei de você, Cecília, pergunto agora: mudança de vida? Por isso, o abandono simplesmente de todo o luxo que reluzia a sua vida aparente, Cecília? Você não me ouve, por isso não responde – chego a murmurar, sentada nesta rede. Enquanto você vai e vem na cobertura, Cecília, sempre com mais roupas.
De repente, suas mãos estão vazias diante da mureta, Cecília. Seu olhar também parece vazio. Acabado o ritual, Cecília? Nem uma roupa restou abandonada, nesses galhos das poucas árvores que o meu olhar alcança. Você está vazia, Cecília, como o seu armário, que até há pouco guardava a história da sua vida, em trajes de causar inveja.
Lentamente, Cecília move o corpo em direção da mureta. Sem qualquer esforço ou angústia aparente, fica em pé na mureta da cobertura. Sobressaltada, levanto da rede, coloco as mãos na cabeça, e grito várias vezes: Você não vai se atirar, Cecília! Você não deve!
Lá de cima, Cecília não parece ouvir nem o próprio silêncio da cobertura. Não esboça sequer um gesto ameaçador, ou um pedido de socorro. Em pé na mureta, Cecília permanece absorta. E eu nada posso fazer para socorrê-la.
Salve-se por mim, Cecília – eu, criatura amedrontada pela própria vida, com os meus pés agora plantados neste chão. Salve-se por mim, Cecília, que nunca tive lugar neste mundo. Salve-se por mim, Cecília, que agora lhe encaro, corajosa e covarde, nem nos conhecemos. Salve-se por mim, Cecília, por minha alma torta, que precisa fazer algum bem neste mundo.
Cecília está surda, muda. Chego vê-la fechando os olhos, e simplesmente dando um passo adiante da mureta. O gesto em nada lembra Ícaro. Um passo simples. Sem a tentativa de um vôo simples. Emudeço.
Ainda perplexa, começo a chorar: Você não podia ter feito isso, Cecília! Por mim, você deveria ter resistido ao último passo. O que será de mim agora, Cecília, que nem sei seu nome? Eu precisava tanto que você sobrevivesse, Cecília, para me mostrar que vale continuar tentando. E, agora, de nada adiantaria eu dizer-lhe que vale a pena continuar, Cecília. Porque, de você, Cecília, só restou um corpo esfacelado. De mim, resta uma lágrima por você, Cecília.
Aos poucos, a consciência retorna: O corpo dela deve estar na rua, junto com aquelas roupas todas. Imaginando a multidão em volta, tecendo comentários escandalosos, saio eu pela rua. O prédio fica próximo. Em pouco tempo, estou na frente do prédio onde Cecília morava. Mas não há o menor vestígio de tudo o que testemunhei, deitada na rede. Nem roupas. Nem Cecília. A rua está deserta, como em todos os domingos.
Olho para cima, e ainda chamo: Cecília! Mas ninguém ouve. Meu Deus, será que agora minha loucura tem nome: Cecília?
Não posso simplesmente dar às costas àquele prédio, àquela rua, fingindo nunca ter existido Cecília. Adentro ao prédio, e peço ao porteiro quem mora no sexto andar, na cobertura. Secamente, ele me diz que aquela cobertura nunca foi habitada. Ele me encaminha ao portão de saída, quando escuto o barulho das chaves.
Estou agora no meio da rua, no canteiro, na frente do prédio de Cecília. Dentro de mim, ainda ecoam frases que parecem sem sentido: Onde está você, Cecília? O que você quis me mostrar com tudo isso, Cecília?
- Meu Deus, Cecília sou eu!
- É sim. E eu sou Paulo, seu marido. Agora, por favor, querida, volta a dormir, e acaba logo com esses pesadelos. Por favor...
- Paulo, nós moramos numa cobertura, no sexto andar. Certo?
- Perdeu até o endereço, querida? Já te falei, Cecília: precisa dar jeito nesses teus pesadelos... Agora, me deixa dormir, querida... É domingo, meu único dia de folga...
Paulo vira para o lado, enquanto Cecília sai lentamente do quarto. De imediato, busca a porta da varanda, e passa a observar cada detalhe, minuciosamente, como nunca antes havia feito. A porta. O chão. A mureta. “Vou providenciar plantas, e uma rede aqui” – murmura Cecília, olhando para o canto da varanda. A cobertura é a mesma, desde que Paulo e ela casaram, e vieram morar aqui.
Tão logo constataram que Cecília não poderia gerar filhos, ambos programaram uma vida intensa – só os dois. “Quem sabe, ainda podemos adotar uma criança, ou mais. Paulo sempre quis” – pensa a moradora da cobertura.
O dia amanhece. Domingo ensolarado. Mormaço goiano. Cecília extasiada com o brilho do sol. De repente, rememorando o sonho que teve na noite passada, olha em direção das poucas casas no quarteirão, à frente do prédio. “Será que existe aquela varanda, com aquela rede?” – pergunta a si mesma, enquanto a rua, lá embaixo, continua em silêncio.
Mas Cecília nem se questiona se deve ousar em buscar a casa do sonho. Ela, sempre tão contida, não saberia o que dizer a quem lhe atendesse ao portão. Como dizer que sonhara com aquele lugar, e que sabia como era bom o colo que aquela rede doava generosamente?
Ela desiste em pensar. Sai da varanda, e, pela primeira vez, olha para trás. Agora, sabe que tudo está diferente, e nada será como antes. A cobertura não mudou. Dentro dela, alguma coisa veio à tona com o sonho. E Cecília sabe que é algo diferente – desconhecido -, mas não quer pensar.
Com um cigarro aceso entre os dedos, prepara o primeiro cafezinho do dia. sabe que o marido, como em todos os domingos, acorda só depois da uma hora da tarde, quando o calor já tomou conta do dia goiano. O almoço será pedido por telefone, quando Paulo levantar.
Adoçando o café, Cecília lembra de uma rede guardada há muito tempo. Foi ela mesma quem comprou de um cearense, ali mesmo, na rodoviária de Goiânia. Isso faz tanto tempo. Cecília estava sozinha em casa, quando resolveu pegar o carro, e sair. Mas para onde? Cecília não tinha onde ir. Por isso, acabou estacionando junto à rodoviária – lugar procurado por pessoas que sabem onde ir. E lá ficou Cecília, por algum tempo, a observar os ônibus chegando, partindo. Viu também as lágrimas de despedidas e reencontros. De repente, o sentir de Cecília é interrompido por um vendedor de redes. Mecanicamente, sem tirar os olhos dos ônibus, ela paga ao vendedor, pedindo “qualquer uma rede”.
Vai ao balcão da área de serviço, e encontra um embrulho. “Eis aqui aquela rede” – diz Cecília para si mesma, que só agora observa a rede xadrez, comprada quase sem querer. Poderia tentar acordar Paulo, para contar-lhe o achado. Mas, com certeza, ele imaginaria tratar-se de um outro pesadelo. Melhor não. Enquanto Paulo dorme, Cecília acorda para a vida.
Volta à varanda, procurando suportes para estirar a rede. “Tanto tempo aqui, e desconhecia a existência desses ganchos” – pensa. Estirada a rede, pega cafezinho e cigarro na cozinha, e senta, entregue ao calor goiano. Por mais que tente, o olhar de Cecília não resiste em concentrar-se numa casa específica, no outro quarteirão, lá embaixo. Não quer pensar. Os olhos brilham mais que o sol, sempre voltados numa só direção.
O domingo passa, e Cecília nem se apercebe nele. O almoço com Paulo. Depois, o futebol na televisão. O jantar. Por fim, a madrugada insone na cama, e Cecília a lembrar do sonho que ela não quer lembrar. Assim, adormece.
Cecília desperta, sem a preguiça de todas as segundas-feiras. Com estranha agilidade, levanta da cama, tirando a camisola, e procurando roupas no armário. O ato instintivo segue até a portaria, quando, lá embaixo, Cecília procura a rua. Atravessa o quarteirão, indo bater diretamente no portão da casa do sonho que teve na noite anterior.
Quem atende é uma menina com menos de dez anos, que conta que mora com a mãe e a irmã mais velha. A mãe já saiu para o trabalho, e a irmã ainda está dormindo.
Cecília pede licença para ver a varanda. A menina concede, dizendo: “A senhora também quer alugar o barracão dos fundos? A mulher que tinha alugado foi embora, ontem à tardinha”. Cecília não responde, e caminha, junto com a menina, em direção da varanda. Incrível. A paisagem, nos mínimos detalhes, é idêntica ao sonho de Cecília.
Extasiada, ela senta na rede, e olha para a cobertura onde mora. Seu olhar passeia na varanda vazia, e Cecília nem percebe que a menina entra no barracão dos fundos. Traz nas mãos, um bloco. Chamando a atenção de Cecília, a menina conta que a mulher que alugara o barracão ficara ali, naquela rede, a escrever, por alguns dias. “Ontem – continua a menina -, acho que a mulher ficou muito triste, e foi embora, deixando-me o que escrevera antes de partir”. A menina entrega à Cecília, o bloco de rascunho. Com desinteresse, Cecília pega o bloco, e, por respeito à confiança da menina, começa a lê-lo.
E o texto que Cecília lê diz exatamente: “Goiânia faz calor. Um calor que seca até a alma da gente. Aproveito a brisa noturna, e adormeço na rede estirada na varanda, nos fundos desta casa para mim desconhecida.
Desperto com os primeiros reflexos do sol. De novo, é dia. Por algum tempo, insisto em manter os olhos fechados, sentindo o colo que a rede me dá.
Aos poucos, cedo aos raios do sol, abrindo os olhos lentamente, sem querer despertar. No alto, o que vejo são brancas e esparsas nuvens, que – tão rarefeitas que estão – nem sequer cobrem o azul do céu. É dia. E tudo de repente clareia ao alto.
Logo abaixo da nuvem menor, a cobertura de um prédio pequeno, onde uma mulher está a olhar em direção do céu. Com os braços cruzados, ela parece extasiada diante do algodão rarefeito que cruza o infinito. Anda de lá para cá na varanda da cobertura, enquanto eu me estico e me encolho nesta rede, sem perdê-la de vista um só instante.”
Cecília interrompe a leitura. Arregala os olhos estarrecidos, e pergunta à menina:
- Quando foi que a mulher escreveu isso?
- Foi ontem. Antes de partir muito triste, ela disse que, já que eu gosto de ler, que eu lesse isso, quando sentisse vontade. Mas ainda não li.
Se a menina fala mais alguma coisa, Cecília nem toma conhecimento. Continua concentrada no texto. Aos poucos, as lágrimas tomam conta do seu rosto. No pensamento, uma frase se repete: “O meu sonho!”
Logo após a narrativa do passo suicida, exatamente como Cecília sonhara, o texto segue: “Ah, Cecília, você não podia ter feito isso comigo. Logo eu, que sempre procurei uma razão para continuar vivendo. E você, Cecília, nem permitiu que nos conhecêssemos. Provavelmente, conversássemos sobre nossas vidas sem sentido, quem sabe até balançando os pés, sentadas nessa mureta onde você deu seu último passo. Ah, Cecília, se esta rede estivesse me embalando na varanda da sua cobertura... E se, juntas, descobríssemos, nas nossas vidas vazias, uma só razão para continuarmos vivas, Cecília? E se você descobrisse, Cecília, que sinto exatamente o que você sentia? E se eu soubesse que você, Cecília, pensava exatamente o que eu penso? E se o sentido da vida surgisse entre nós duas, numa única palavra: partilha?
Mas você se foi, Cecília, sem sequer saber que eu existia. Você nem soube que, como em você, Cecília, a vida também me dói. Arde tanto, que às vezes eu já nem sei, como você, Cecília, aonde ir. E você, diante de mim, Cecília, dá seu último passo vazio. Nem sequer um olhar. O que faço agora da vida que você me deixou, Cecília? Uma vida que nem me permitiu conhecê-la, partilhá-la...
E se algumas pessoas que acreditam na vida após a morte estiverem certas, Cecília? Será que você se arrependerá do seu passo insano? Será que ainda saberá que eu existo? Saberá o quanto esperei você retroceder, para a minha vida valer a pena, Cecília?...
Agora é tarde, Cecília... Você se foi, e eu aqui, nesta rede, nem pude lhe oferecer um colo, embalar um sonho – um mísero sonho seu, Cecília... Também eu me vou, sem saber para aonde. Mas, com certeza, guardarei você, Cecília, na minha alma. E cada passo que eu der, será por você, Cecília, sempre retrocedendo o passo na mureta da cobertura. Onde estiver, Cecília, receba minha lágrima dolorida, solitária...”
Cecília soluça agora, mais criança que a menina à sua frente. A menina permanece com o olhar de estranheza. Nada diz. Cecília levanta lentamente da rede, onde deixa o bloco escrito. Quando chega ao portão, Cecília ainda chora, e dirige-se à menina:
- Você disse que a mulher partiu muito triste, ontem. Aconteceu alguma coisa especial?
- Não sei ao certo – responde a menina -, mas pode ser por que uma vizinha suicidou-se, ontem de manhã, atirando-se da cobertura do pequeno prédio, que a gente vê ali dos fundos, na varanda.
Aturdida, Cecília atravessa o portão ainda fechado. Desesperada, ela corre. Para onde, Cecília?...

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Busca e perdição

Dora Brisa

Quando, dos teus olhos amedrontados,
Escapuliram duas lágrimas,
Desesperei.
Enquanto um beijo meu as recolhia,
Outras tantas lágrimas
Vieram juntar-se aos lábios meus.
E o meu beijo,
Que nascera doce,
Acabou por salgar-se
(afogar-se)
No mar do teu pranto,
Que era também meu.
Até hoje,
Tuas lágrimas esperam
Por meu beijo,
Que chora a ausência
Dos teus olhos,
Sem sequer um adeus.

Voz - Rita de Cassia:
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segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

De repente

Dora Brisa

De repente, você se vê
Sem pai, nem mãe,
Sem a esperança de um dia tê-los...

De repente, você olha para o lado,
E já não enxerga mais
O companheiro na cama...

De repente, você procura o berço,
E não encontra mais o filho querido...

De repente, você telefona para o amigo,
E ele não atende,
Porque não está mais lá...

De repente, você fica sabendo
Que o outro amigo desistiu de viver...

De repente, você busca
Amigos antigos, guardados no coração,
Mas também eles se foram...

De repente, você percebe
Que o mundo está esvaziando...

De repente, todo o vazio do mundo
Faz você se sentir também em viagem,
De repente...

domingo, 1 de janeiro de 2012