segunda-feira, 23 de março de 2015

Você & Eu

Dora Brisa

Se você fosse o mar,
Eu seria o rio...

Se você fosse o rio,
Eu seria a ponte...

Se você fosse a ponte,
Eu seria o caminhar...

Se você fosse o caminhar,
Eu seria a estrada...

Se você fosse a estrada,
Eu seria a flor...

Se você fosse a flor,
Eu seria o sereno...

Se você fosse o sereno,
Eu seria a lua nova...

Se você fosse a lua nova,
Eu seria a estrela...

Se você fosse a estrela,
Eu seria a nuvem...

Se você fosse a nuvem,
Eu seria o pássaro...

Se você fosse o pássaro,
Eu seria a árvore...

Se você fosse a árvore,
Eu seria a rede...

Se você fosse a rede,
Eu seria a casa...

Se você fosse a casa,
Eu seria a lareira...

Se você fosse a lareira,
Eu seria o gelo...

Se você fosse o gelo,
Eu seria o mar – de lágrimas...

Música e voz - Marcos Guimarães:
video

segunda-feira, 2 de março de 2015

De olho na rua

Desenho: Lisi

Dora Brisa

Vem ver,
Moço,
Vem conhecer a minha rua.
Tá vendo aquele casarão?
Lá, mora a viúva que
Serve feijoada pra gente,
Todos os sábados, no portão.
Ninguém por aqui
Conheceu o falecido.
Nessas casas ao lado,
Moço,
Vivem famílias inteiras,
Com pais, filhos, avós,
Até gato, cachorro e papagaio.
Adiante, ficam a padaria,
A farmácia e o botequim.
No outro lado da rua,
Estão o açougue e o mercadinho,
Que são do mesmo português.
Por esses pedregulhos,
Moço,
Passa a alegria da
Criançada na rua:
Carrocinhas de sorvete,
Pipoca, até pamonha,
Algodão-doce, pé de moleque.
No terreno baldio, logo ali,
Circo e parque de diversões
Acampam quase o ano todo.
Na minha rua,
Moço,
Conserta-se guarda-chuvas,
Amola-se facas e tesouras,
Vende-se pães feitos em forno de barro.
A minha rua tem muito mais:
Tem feira livre.
Tem música no coreto da praça,
Com bandinha militar,
Todo domingo, depois da missa.
A igrejinha fica lá,
Atrás do chafariz,
No centro da praça de tamarindos,
Mangas, cajus e outros frutos.
Olha só,
Moço,
Como a minha rua tem cores,
Nas portas e janelas abertas,
Nas casas rodeadas de jardins
Sem grades, sem muros.
Naquela barraquinha na praça,
Fica a biblioteca improvisada.
O povo da minha rua gosta de ler.
Final de semana inteirinho,
Moço,
Todo mundo se acomoda por aqui mesmo,
Os que lêem e os que escutam.
Ainda tem gente que canta,
Toca uma viola, conta causo.
Essa é a minha rua,
Moço,
Que parece pequena, estreita,
Mas é maior que o mundo.
Aonde eu moro?
Qual dessas é a minha casa?
Não tenho casa, não,
Moço.
Com uma rua dessas,
Eu não preciso de mais nada.
Se eu tivesse uma casa,
Até o casarão da viúva
Seria menor que a minha rua.
Quem garante que a vida,
Vista lá de dentro, é tão bela
Quanto a que enxergo, aqui fora?
Já faz tempo, não esqueci,
Um poeta me disse que a solidão
Mora numa dessas casas
Que eu nunca entrei.
Quando anoitece,
Moço,
A lua, menina silenciosa,
Brinca lá no alto,
Enquanto eu estico a minha rede
Aqui na praça – e sonho,
Sonho todos os sonhos
Abandonados, esquecidos na minha rua.