terça-feira, 31 de julho de 2012

Pausas

Foto: Cristiano A. Costa


Dora Brisa

Quando a madrugada faz,
finalmente,
adormecer o dia,
sonhos breves
deslizam do céu,
das estrelas cadentes,
dos edifícios,
das árvores,
dos telhados,
das igrejas,
das janelas,
das montanhas,
sonhos que pousam,
suavemente,
no mais fundo
da alma de
toda gente.

Mesmo antes de
o dia insinuar-se,
a lida começa,
em todos os cantos,
feitos de
entusiasmos e
desencantos,
no novelo
a desfiar e fiar
a história,
irremediavelmente,
sem remendos,
ou ensaios,
vestindo a vida
de toda gente,
com desejos e medos,
em toscos balaios.

Quando a luz
se ausenta,
na imponência
da noite
que prenuncia,
o cansaço do dia
faz brilhar
outras luzes
de repouso,
de euforia,
e não há quem
não perceba
adormecer
alguma coisa
que se fez presente,
em mais um dia
acompanhado de
menos vida,
sob o jugo do
final
de algo que
só a manhã
anuncia.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Teu mar

Dora Brisa

Sou teu mar:
Silencioso, profundo,
Protegendo teu navegar
Dos perigos deste mundo...

Nas minhas profundezas,
Escondo teus segredos...
Entre minhas maiores riquezas,
Guardo o baú dos teus medos...

Sou teu mar,
Água morna com teu calor...
Chego em ondas para teu pranto molhar,
E à noite, faço-me reflexo da lua - puro amor...

Estou sempre a te embalar...
Nas minhas águas calmas,
Chegas a sonhar
Com outros mundos, outras almas...

Sou teu mar...
Em noites de tempestade escura,
Te concentras a buscar
Aconchego na direção segura...

Na minha vastidão,
Tua alma se desnuda:
És puro coração
Pulsando na melodia muda...

Sou teu mar...
A ti, presenteio todo meu natural:
Peixes, conchas, até estrelas a encantar
Tua vida previsível, com sabor de sal...

Infinito que pareço,
Diante da tua esperança infantil,
Silencioso, adormeço,
Inteiro, nas tuas mãos, teu servil...

Sou teu mar,
E assim sempre serei...
Tu - barco a me acompanhar...
Eu - tua bússola - seguirei...

Voz - Rosany Costa:

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Noite suja

Foto: Denise

Dora Brisa

Um estampido só. Oco. Mudo. Escuro. Lentamente, ele passa a mão na testa que transpira. De olhos fechados, sente o suor grosso na ponta dos dedos. Por alguns segundos, o estampido ainda ecoa na cabeça dele, agora vazia.

- Vô, quero fazer cocô.
- Não se diz “cocô”.
- Mas minha mãe...
- Ela sabe pouco, coitada.
- Como se diz, então? Cagar?
- Não. Se diz “fazer uma obra”, porque é uma obra – diferente
de todas as outras...
- Entendi. Mas continuo com vontade...
- Faz tua obra atrás daquela árvore, e depois seguimos para o rio...

Os olhos dele permanecem cerrados. Mas não sente dor.

- Fessora, posso ir ao banheiro?
- Vocês não conseguem nem ser originais. Basta ficarem
ajoelhados no milho, que já pensam em fugir para o banheiro...
- Mas...
- Nada de mas, menino... Fica quieto aí,
senão dobro o castigo...
- É que tô apertado – ainda fala, enquanto a urina escorre no chão do canto da sala.

Silêncio absoluto. Mecanicamente, a mão dele ainda busca a testa. O suor espesso escorre agora pelas laterais da fisionomia impassível.

- Agora que sua mãe morreu, me diga: O que você quer fazer?
- Pai, quero que o senhor me interne no Seminário.
- Você – seminarista? Meu único filho – padre? Por que isso agora, menino?
- Porque o padre disse na missa que minha mãe foi pro céu... Eu quero ficar perto dela... Padre fala até com Deus...

A cabeça dele lateja um pouco. A mão descansa rendida sobre o peito.

- As suas coisas estão aqui. Vá para o enterro de seu pai... Se quiser, volte depois, para ser ordenado...
- Não voltarei, mas agradeço-lhe assim mesmo, senhor diretor. (A porta pesada de madeira maciça fecha-se, para nunca mais se abrir.)

Por um momento, sente amargor na boca cheia de saliva. Não quer cuspir. Engole resignadamente.

- Nesta pensão, só se entrega chave de quarto, com pagamento adiantado.
- Posso pagar dois meses adiantado. É o tempo que preciso pra arranjar um emprego...
- Estou precisando de garçom no restaurante. O salário é pequeno, mas pode ganhar gorjeta...
- Aceito. Claro. Até porque quero continuar estudando...

Involuntariamente, os olhos dele lacrimejam. Com lenta ternura, suspende a mão, que recolhe as pesadas lágrimas.

- Confessa aqui para o teu melhor amigo: Você nunca comeu uma mulher, por que é viado? Pode contar. Não discrimino...
- Em vez de viado, sou é maluco mesmo... Você pode não acreditar, mas quero fazer amor, não só sexo... Você entende isso?...
- Isso é loucura... Mas sorte minha, porque você deixa mais mulher pra mim...

Quando reergue a mão ao rosto, sente, de olhos ainda fechados, o suor a persistir, cada vez mais grosso, pesado. A cabeça, leve, não ecoa mais estampido algum.

- Por que você vai embora pra Capital? Pensei que nós dois...
- Vou estudar... Você sabe que quero ser ator... Por isso, preciso ir... Mas volto pra buscar você,
Carolina, e aí nos casamos... Você me espera?...
- Espero, por que te amo... Mas dizem que a Capital está cheia de mulheres bonitas, com silicone...
- Não trairei você, minha querida... Escreverei sempre... Adeus...
(Um último beijo amargo, na porta do ônibus.)

O suor na testa faz deslizarem imagens distorcidas. Na cabeça dele, o olhar moribundo da mãe, as discretas lágrimas do pai. Se alguma força ainda lhe restasse, só diria: Sinto frio.

“Minha doce Carolina,
Movido pela saudade que me dilacera, escrevo a segunda carta para você, neste dia tedioso. Espero que seu coração se aqueça com as palavras que a minha alma aqui registra.
Como já lhe escrevi anteriormente, continuo a trabalhar como garçom, naquele restaurante movimentado, cheio de celebridades, que às vezes me deixam polpudas gorjetas. O curso de teatro continua, mas recusei a peça que me propuseram, por ainda me achar incapacitado.
Tão logo tenha condições, volto para buscar você e os nossos sonhos, quando então nos casaremos. Me espere.
Sempre seu,
Alfredo”

Tocando de leve a testa, ele sente que o suor que ainda escorre engrossa cada vez mais. Desliza a mão novamente até o peito.

“Não me escreva mais. Estou de casamento marcado. Adeus.”
(Rasga o telegrama, o sonho, a alma.)

O gelo que agora sente na cabeça faz-lhe recordar o beijo – derradeiro – da mãe na testa dele, pouco antes de morrer. Tenta mover os lábios, que não obedecem mais.

Vamos ensaiar texto de Plínio Marcos. Por que você não vem com a gente?
Preciso fazer alguma coisa com a minha vida, antes que resolva me matar...
Nem fale uma coisa dessas. Amanhã, neste horário, vem para o ensaio. Plínio Marcos tem um papel pra você...
Venho sim... Chega de tanto fugir do palco, que é a minha vida...

Um torpor faz o corpo inteiro dele estremecer. Uma ácida gosma escorre pelo canto da boca, enquanto o olhar permanece escuro – impassível.

A cena precisa ser crua – um verdadeiro soco no estômago. - grita o diretor – Marcação. Luzes. Repetindo!

A leve tontura faz com que ele pressinta agora o corpo flutuar. Sente a camisa empapando de grosso suor.

Não, não e não. - esbraveja o diretor – Vocês não podem esquecer dos olhos e do corpo, que fala mais que o texto.

Tonto, ainda tenta reagir. A mão repousa no peito, em completa desobediência. Dos olhos, pesadas lágrimas rendem-se ao espesso suor que faz brilhar o rosto lívido.

É preciso colocar medo nos olhos. - ordena o diretor, respirando fundo – Marcelo, segura mais firme esta arma. Alfredo, olhos arregalados de pavor. Podem recomeçar a partir daí!...

O que ele sente agora é o rosto encharcado de uma pasta que encobre os poros. Se ainda pudesse racionalizar alguma coisa, saberia que é sangue vivo a escorrer, misturando-se com suor frio.

- Alfredo, nosso Al Pacino brasileiro – brinca o diretor -, depois do tiro, antes de cair, você ainda fala através do olhar cravado no Marcelo. Podem reiniciar a cena, que até parece real...

De repente, um zunido ensurdecedor faz sacudir a cabeça dele. O corpo, estirado no asfalto, estremece, involuntariamente, com o frio que traz o estampido de volta, nesta noite suja de sangue. A rua permanece sombria, silenciosa. O estampido da bala perdida só ecoa ainda na cabeça dele, que nem chegou conhecer Al Pacino. Fim de cena.