quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Vida de artista

Dora Brisa

... e a vida é só isso: tudo. Nada...
... Nascer artista não é dom – é sina... Nascer artista é morrer para o que chamam 'normalidade'... Não se pode nascer e crescer artista (por que outro destino não há), sem se pagar um preço muito mais alto, se comparado àqueles que se reduzem à maioria...
O artista pode até se rebelar à sina, decidindo (achando que pode mesmo) ser 'normal' – jamais o será... Simplesmente por que continuará sendo artista – às vezes desleixado, outras parecendo desinteressado, ou até demonstrando sensibilidade exacerbada, a qual pode ser questionada e até mal-interpretada pelos demais (que não são artistas).
Para quem assiste, artista é atraente, por que parece viver na excentricidade – o que nada mais é que a falta de jeito no lidar com o mundo, pelo menos o mundo da 'normalidade'. Para o público e os fãs, artista não chora, não sofre, não come, não tem cefaléia, diarréia, dor de dente, não bebe, nem faz xixi – tudo é cênico, inclusive e principalmente a (miserável) vida de artista. Por isso, a criação de revistas de fofocas, por todo País, é hoje investimento sempre seguro: todo mundo quer saber dos artistas – não da vida (sina) deles, mas da aguçada imaginação daqueles fofoqueiros de plantão que resolveram melhorar de vida, às custas de vidas que nem existem.
Para quem convive com os artistas, não há nada excêntrico; pelo contrário, o cotidiano (natural à maioria) pesa nos ombros do artista. Artista vive de amores e horrores – ilusões e decepções... E isso é tudo na sina do artista, por que o resto é recheio disso – ora um tanto amargo, ora mais adocicado, mas sempre ficando um mal-estar na alma do artista... Quem convive, sabe: artista não suporta calculadora, nem cadernos de economia, política, futebol. Artista lê até classificados, quando acabam os cadernos de cotidiano e cultura. Anúncios fúnebres? Nem pensar. Artista já sofre, mesmo antes de nascer – não aguenta saber a morte dos que nem nasceram para a anormalidade do existir.
Artista tem tantas vidas, tantas quantas humanas... Tem aquela que ele nasce – artista. Tem aquela que ele sonha. Tem aquela que ele observa. Tem aquela que ele imagina. Por isso, artista é feito a ferro e fogo, forjado nesta vida, que é única.
Artista é atemporal. Fora do (seu) tempo e do (seu) espaço, ele vive o que acha que é viver... Mas o artista não pára para pensar nisso, não: ele vive além ou aquém do tempo, do espaço. O artista nunca parece estar onde está, por que onde ele está é além de onde está. O artista se debruça nas entrelinhas, como o pescador a observar o mar... E este momento é único – tudo do nada do existir...
Artista está sempre em desequilíbrio: ou se esforça forjando uma vida que parece ser sua, ou nem levanta da cama, em dia de sol e compromissos lá fora. Oito ou oitenta: de outra forma, artista não sobrevive... Antes mesmo de nascer, sabia que ia ser assim: um dia a mais, um dia a menos... Mas artista não conta os dias, nem as emoções. Artista vive, mas nunca está seguro disso. Há momentos em que, fazendo uma coisa qualquer – tão humana, tão igual -, o artista se depára consigo mesmo, e se estranha, e se admira. Num simples prato culinário, o artista se enxerga: artista, desprovido de qualquer outra vida, senão a sua própria arte. E ninguém mais testemunha a existência do artista, neste instante.
Para quem o conhece, o artista até parece 'normal', mas, dentro dele, no fundo da alma que lateja, a vida é assombro, êxtase – o tempo inteiro... Artista não consegue se recolher numa concha, e amar uma só criatura, contentar-se com os descendentes de sangue. Não. Simplesmente por que artista ama a humanidade inteira. Artista carrega dentro da alma, muitas vidas, muitos amores – por isso, colocam-no, quase sempre, no palco da promiscuidade. Mas artista quer conhecer mais que muitos corpos. Artista quer reconhecer, na emoção do outro, a própria emoção do existir. Artista quer dar e receber amor de tanta diferente gente, como já cantou o poeta.... Por que artista é um tumor inflamado de tanto amor pela humanidade. Mas isso não serve nem para justificar a falta de regra na vida (sina) do artista.
Artista é injustificável, por que não mora no seu próprio mundo – mora no mundo vizinho, onde existem leis que só reconhecem deveres, não direitos à vida. Neste mundo vizinho, onde o artista foi despejado, só se ama verdadeiramente uma pessoa de cada vez. Mas o artista não tem tendência à poligamia – ele só quer continuar amando toda a humanidade, sentindo as emoções que fluem das almas. O artista quer sentir vida, mesmo no mundo vizinho. O artista só quer continuar sonhando que, no fundo da alma humana, todos sentem, se emocionam e também querem mudar o mundo. Enquanto isso, o artista tenta adormecer, por alguns momentos, sonhando – acordado ainda – que amanhã será outro dia. Mas o dia acorda – como todos os outros dias – com cara de insônia.
... e a vida é só isso: tudo. Nada...

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Se partires

Dora Brisa

Ah, se partires,
E deixares
Meus sentires,
Meus pensares...

Ah, se partires
Meus pensares,
Meus sentires...

Ah, se conseguires
Partir, sem partires
Meus pensares,
Meus sentires...

Ah, quando partires,
Deixa intactos,
Se conseguires,
Meus pensares,
Meus sentires...

Voz - Rita de Cassia:
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terça-feira, 26 de outubro de 2010

Vazio

Dora Brisa

Quero do vazio – o oco
Mais que isso
É pouco

Quero do vazio – o impossível
Menos que isso
É normal, presumível

Quero do vazio – a loucura
Mais que isso
É só compostura

Quero do vazio – a espera
Menos que isso
É palavreado que reverbera

Quero do vazio – a imaginação
Mais que isso
É idiota servidão

Quero do vazio – a agonia
Menos que isso
É mesmice tardia

Quero do vazio – o além
Mais que isso
É comodismo de alguém

Quero do vazio – o grito
Menos que isso
É silêncio aflito

Quero do vazio – a luz
Mais que isso
É opaco, não reluz

Quero do vazio – a ausência
Menos que isso
É empoeirada essência

Quero do vazio – a interrogação
Mais que isso
São respostas cheias de razão

Quero do vazio – o tempo eternizado
Menos que isso
É relógio atrasado

Quero do vazio – o nada
Mais que isso
É realidade inventada

Quero do vazio – só vazio
Menos que isso
Tudo fica cinza, tão frio.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Feito árvore

Dora Brisa

"Os corações cortam lenha, e, depois,
se preparam pra outro inverno.
Mas o verão que os unira, ainda vive e transpira ali..."
(As Aparências Enganam - Tunai/Sérgio Natureza)

Viajante, que passa apressado,
Permita-me refletir flores na tua retina...
Nesta primavera, olha para o lado,
E me enxergarás árvore a florir tua sina...

No verão, quando chuva não houver,
Encharca minhas raízes, com teu lacrimoso pranto
De tristeza, de alegria, de fé...
E, à minha sombra, solta teu canto...

No outono, quando folhas eu não mais tiver,
Busca, através dos meus galhos secos, enfim,
Árvore que sou, em forma de mulher,
O céu - infinito - que carrego em mim...

No inverno, não me deixa ao relento...
Diante de ti, balanço meus galhos - abraço...
Quedo-me, e, em pedaços, me arrebento,
Para aquecer o teu passo...

Quando caminhares sozinho,
Volta teu olhar ao meu galho mais alto...
Tens em mim, teu ninho,
Proteção no sobressalto...

Se te cansares da caminhada,
E, faminto, buscares abrigo,
Cá estou, à beira da estrada,
Acenando bendito fruto: conta comigo...

Quando teu último passo for dado,
E nada mais restar desta vida,
Permita-me escorar teu corpo cansado,
E à tua alma fazer sombra - guarida...

Voz - Elisa:
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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Revira-volta

Dora Brisa

Retiremos desse mundo
Os poetas
Os loucos
Os sonhadores
(Que não somos poucos)
Não são necessários
Soar de trombetas
Urros de comando
Marcha de soldados
Tilintar de fuzis
Nada disso
Retiremos desse mundo
Os sonhadores
Os poetas
Os loucos
Com apenas um cântico:
O canto matinal
De um pássaro selvagem
Retiremos desse mundo
Os pássaros
Todos os pássaros
Que eles vão cantar
Como loucos
Poetas e sonhadores
Como nunca
Na Terra do Sempre
Retiremo-nos todos
Deixemos nesse mundo
Apenas os usurpadores
Falsos poetas
Limitados sonhadores
Nada loucos – só dementes
Deixemos esse mundo
A quem por direito pertencem
As guerras
O ódio
A vingança
As armas
Os jogos dissimulados
Os podres poderes
Que cantou o poeta
O poder econômico
O poder da destruição
O poder que faz calar
Obedecer matar
Deixemos esse mundo
Onde o que mais brilha
É o ouro
O que vence
É a força bruta
Quem ganha
É quem mais perde dignidade
Vamos todos
Loucos, poetas
E sonhadores
A hora é agora:
Forcemos as grades
Arrebentemos as algemas
Vomitemos a podridão
Marchemos o cântico
Dos pássaros:
Hino da Libertação
Não olhemos para trás
Sonhadores
Loucos e poetas
Acompanhemos aqueles
Que seguem
Sem saber para onde
Com consciência do mundo
Que não lhes pertencia
E ficou para trás
Nas mãos dos usurpadores
Que pintam a estrada
De sangue e ouro
Queimando em fogueiras
Nossos guardados
Sonhos por nós acalentados
Estratégias tratados
Deixemos esse mundo
Loucos poetas sonhadores
Mãos vazias desarmados
Sem dó nem dores.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Tantos cantos

Dora Brisa

Pelos cantos
Eu me perco
Eu me acho

Pelos cantos
Eu me defendo
Eu me escracho

Pelos cantos
Eu lembro
Eu esqueço

Pelos cantos
Eu ouço
Eu ensurdeço

Pelos cantos
Eu choro
Eu sorrio

Pelos cantos
Eu imploro
Eu renuncio

Pelos cantos
Eu me escondo
Eu me exponho

Pelos cantos
Eu me descabelo
Eu me recomponho

Pelos cantos
Eu me desespero
Eu me extasio

Pelos cantos
Eu encontro
Eu extravio

Pelos cantos
Eu vago
Eu divago

Pelos cantos
Eu rabisco
Eu apago

Pelos cantos
Eu aquieto
Eu corro

Pelos cantos
Eu sobrevivo
Eu morro

Pelos cantos
Eu me encanto
Eu me desencanto

Pelos cantos
Eu sou tantos
Tantos cantos...

Voz - Rosany Costa:
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segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Ensaio

Dora Brisa

Num certo dia (definitivo), resolvi morrer. Assim mesmo: MOR-RER. Eu tinha de mudar minha vida, radicalmente. “Ninguém me ama, ninguém me quer”. “Sofro só”. “Ninguém me entende”. “Saio da vida para entrar na historia”. “Adeus, mundo cruel”.
(Justificativas eu tinha de montão, como qualquer ser humano. Quem nunca pensou em morrer, que jogue a carteira bem longe.)
Pois bem. A decisão já estava tomada. Mas eu precisava agir: Morrer – como? Por me ocupar tanto em viver, não sabia de que jeito morrer. Tantas opções, e eu ali vivendo, ainda vivendo.
Na época, eu morava numa cidadezinha do interior. Poluição zero. Num desses (cada vez mais raros) lugares onde ainda se podia sentir cheiro de estrume, e até ouvir canto de passaros. Aí estava a razão de eu continuar vivendo. Era isso. Como não havia imaginado antes?
Em pouco tempo, providenciei a mudança, e fui morar em Cubatão, mais próximo que pude daquelas fabricas gigantescas (que contribuem para o progresso do País) que disparam, até em domingos e feriados, nuvens de fumaça cada vez mais densa. Era pouco. Passei a fumar cigarros contrabandeados do Paraguai. Depois de um tempo, procurei um medico. Diagnostico taxativo: “Seus pulmões parecem de um bebê saudável. Repita os exames, daqui a duzentos anos”. Não morri, nem de susto.
Revoltado, desisti de Cubatão, e busquei a estrada, sempre manchete nos noticiarios, por causa do elevado indice de mortes por acidente. Por impeto, decidi jogar-me na frente do primeiro caminhão que aparecesse. E não demorou surgir uma carreta imponente. Corri para o meio do asfalto (agora morro). O caminhão foi freado bruscamente. Desesperada, desceu a motorista – uma caminhoneira com mais de cinquenta anos e os olhos arregalados. Para resumir a historia: Só consegui convencê-la não me adotar, depois de prometer à ela que seria mais atento no transito. Não morri, nem de vergonha.
Mais acabrunhado que revoltado, voltei para casa, e esvaziei meia duzia de garrafas de teor alcoolico. Deitado, olhei para o teto, e foi neste momento que veio a inspiração (é agora, ou nunca). Como não tinha pensado? O caminho da minha morte estava, o tempo todo, sobre a minha cabeça. Meio tonto, levantei, e fui buscar a mesa alta. Lentamente, subi, equilibrei, e forcei, com as duas mãos, uma emenda logo rompida entre as madeiras. Desci vitorioso (é nessa que eu vou). Olhei ao redor, e peguei o lençol da cama, enrolei-o e subi novamente. Não foi difícil encontrar um barrote para amarrar a corda improvisada. Calmamente, prendi a outra ponta do lençol retorcido ao meu pescoço de galo. Fechei os olhos, com nausea alcoolica, e empurrei a mesa com força. Eu só não sabia o quanto estava puído o tecido do meu velho lençol, que virou andrajo no ato, me arremessando ao chão. Dormi logo depois. Lembro, no outro dia, eu acordar pensando que, de tão bebado, nem conseguira chegar à cama, acabando por me enrolar (demais até) no lençol jogado ao chão. Não morri, nem de ressaca.
Não passou muito tempo, e lá estava eu, olhando pela janela do apartamento, indignado. Era primavera, e eu ignorava o perfume das flores, o zumbir das abelhas. Se todo mundo podia morrer – por que não eu? Nem precisei pensar tanto. Afinal, a janela já estava aberta. Só tive o trabalho de subir (tem que ser agora). Acho que nem fechei os olhos. Arremessei o corpo, como quem atira uma casca de banana. Só que o mais comum é a casca de banana cair bem no meio da calçada – armadilha aos incautos. Pasme: O meu corpo foi parar em cima da árvore mais velha e frondosa de toda a rua. O maximo que consegui foi causar morte prematura de muitas folhas e flores. Naquele dia, os vizinhos ficaram sabendo que era eu mesmo quem lavava as vidraças do apartamento no segundo andar. Não morri, nem com os poucos arranhões e os muitos conselhos preventivos.
A ideia da morte já estava me matando de desanimo. Tinha de dar um jeito naquilo. Passei a vida toda lendo e ouvindo que “dificil mesmo é viver”. Onde a morte fácil? Não, eu não desistiria assim. Foi num só momento, me olhando no reflexo do espelho, que surgiu a ideia. Fazendo caretas, dando tapas no meu proprio rosto, disse: rato, você é mesmo um rato – não um homem. Era isso – um rato. E como se mata um rato? Corri à loja, comprei o raticida mais eficaz (letal) e o mais caro também (a minha morte valia mais). Nenhuma preparação, nenhum ritual, nenhuma carta ou bilhete. Tomei todo o pó misturado à agua. Dormi (morri?). Acordei com uma dor de barriga insuportavel. Horas depois, quando – finalmente – consegui levantar da privada, fiquei sabendo pelo porteiro do predio que a policia estava à procura de uma gangue de falsificadores de medicamentos e similares. Não morri, nem de indignação.
Para comprovar minha teimosia em busca da morte, lembro aquela noite (unica) que eu andava cabisbaixo pela rua escura. De repente, dois garotos (um armado com 38, vale relatar) gritaram que era um assalto. Pegaram minha carteira, meu relogio, e advertiram que, se eu ficasse calado, não me matariam. O que foi que eu fiz, obviamente? Comecei a falar, gritar. Eles correram de desespero, perdendo meu relogio, minha carteira e até o revolver pelo caminho. Revolver? Esqueci a carteira, o relogio. Finalmente, morreria. Apontei a arma à minha cabeça de bagre (fechei os olhos?), acionei o gatilho e. O revolver deve ter sido roubado num museu, pois o unico estampido que ouvi foi o gatilho, corroido pela ferrugem, quebrando com a força do meu indicador. Não morri, nem depois de ter chorado – ali mesmo, na rua –, até amanhecer.
Passei a viver mais atento, com um objetivo só: a minha morte. Onde andaria a minha morte, no meio de tanta vida? A troco de nada, como coco de passarinho na cabeça da gente, chegou a grande revelação. Sempre ouvia falar das guerras nos morros, balas perdidas e achadas, e mortes, muitas mortes (com sorte, haveria mais uma). Mas não segui o impeto de correr a qualquer morro, não. Pesquisei muito, até descobrir os dois mais perigosos do momento. No primeiro, os traficantes, numa trégua a perder de vista, festejavam o casamento do líder. No outro morro, policiais improvisaram um picadeiro – todos pintados, fazendo palhaçadas. Era Dia de Cosme e Damião, e as crianças recebiam balas de açúcar. Não morri, nem de tanto ouvir cantoria desafinada e piadas sem graça – tudo no mesmo dia.
Chega. Cansei. Hoje, depois de muito tempo vivido, meneando os meus (cada vez mais ralos) cabelos grisalhos, sei que morro a cada instante. Agora um pouco. E mais um pouco. Por onde piso, não levo relogio, mas (me previno) sempre desvio das cascas de banana no caminho. E ainda descobri como é bom acordar com o canto dos passaros, e sentir o aroma de excremento do gado que pasta ao redor da minha casa, longe das fabricas, dos morros, da morte talvez. Uma dorzinha no meu peito... Será o fim, Serafim?...

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Busca e perdição

Dora Brisa

Quando, dos teus olhos amedrontados,
Escapuliram duas lágrimas,
Desesperei.
Enquanto um beijo meu as recolhia,
Outras tantas lágrimas
Vieram juntar-se aos meus lábios.
E o meu beijo,
Que nascera doce,
Acabou por salgar-se
(afogar-se)
No mar do teu pranto,
Que era também meu.
Até hoje,
Tuas lágrimas esperam
Por meu beijo,
Que chora a ausência
Dos teus olhos,
Sem sequer um adeus.

Voz - Rita de Cassia:
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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Hiato

Dora Brisa

Vidro quebrado
Olho de vidro
Sonho acabado
Olhar perdido

Relógio parado
Gesto contido
Tempo estagnado
Instante recolhido

Lâmpada estilhaçada
Palavra interrompida
Escuridão desarmada
Luz perseguida

Hiato silencioso
Recolhido
Marginal
Quase vencido

O que mais desespera
É que não há espera
A vida não espera
A morte também não

O hiato desespera
Quem não sabe esperar
Nem sabe o que espera.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Poema em linha torta

Dora Brisa
(À persona de Fernando Pessoa)

Imagina você,
Moço,
Que eu, analfabeta
De pai e mãe
(com muito respeito),
Já sonhei em fazer versos,
Versos bonitos,
Enfileirados,
Bem traçados
e trançados.
Já sonhei em fazer versos,
Moço,
Em rodas de ciranda,
De capoeira,
De maracatu,
De candomblé.
Já sonhei em fazer versos,
Moço,
No Cristo Redentor,
Na Praça do Ipiranga,
Na Estátua do Laçador,
Na Mangueira – minha escola de samba.

Tanto sonhei em fazer versos,
Moço,
Que um dia o poema apareceu,
Assim, por acaso,
Meio andando de lado,
Cabisbaixo,
Parecia embriagado.
Em passo trôpego,
Deixou o seu recado:
Sou o poema de pé quebrado,
Torto,
Desmesurado.

Poema abjeto,
Escrachado,
Objeto
Despudorado.

Nos meus versos,
O poeta não despeja lágrima –
Deixa sempre a última gota
De cachaça,
Ou o vômito que engasga.

Poema deixado em
Parede de banheiro.
Cheio de palavrões,
Irônico, verdadeiro.

Sou o poema que rasteja
Nas mesas de bar.
Nasce num porre de cerveja,
Morre antes do dia clarear.

Poema amassado,
Esquecido,
No lixo jogado.

Poema que não fala
Da doce amada.
Nem o mais barato perfume exala,
Enquanto rola na escada.

Poema de uma perna só,
Que se apóia pelos muros,
Maltrapilho de dar dó,
Cochilando pelos becos escuros.

Tua opinião?...
Que me importa!
Não preciso de razão,
Sou poema em linha torta.

Voz - Helena Antoun:
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quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Vertigem

Dora Brisa

Minha concepção escorreu
Numa batalha sanguinolenta.
Meu corpo frágil surgiu
Imerso em sangue morno,
O mesmo vermelho que me
Desenhou a primeira máscara.
Depois, um pedaço de carne,
Num só charco de sangue,
Aos prantos, aos gritos.
Parto jorrado pelo mesmo sangue.
Será por isso que ainda
Carrego a marca sanguinolenta?
É esse líquido vermelho
Que chamam 'vida' – hoje sei.
Dentro de mim, tudo sangra.
Aqui fora também.
Meu corpo denuncia marcas
Dilaceradas pela 'vida'.
Os pulsos afrouxam intactos.
Ainda falam de lágrimas de sangue,
Quando a alma (também) sangra.
Fujo dos que falam,
Eu que me afogo no escarlate.
Também dentro de mim,
A 'vida' concebe:
Líquida, vermelha, borbulhante.
E o sangue (mais uma vez)
Marca o tempo, que chega
Trazendo a repetida 'vida' que se esvai.
Segue o existir avermelhado,
Assinalado para morrer,
Com sangue (ou não) a jorrar.
Não há compaixão, nem dor.
Tudo o que existe é nada.
Mas (ainda) restam as manchas,
Nódoas de um sangue que já não
Brilha, nem se multiplica mais.
Sangue coagulado, morto,
Seco de tudo o que um dia pareceu ser.
Talvez, num breve e impetuoso gesto,
Se algum vermelho persistir,
Alguém ainda toque a nódoa,
Com asco ou piedade.
Que importa?
O sangue já não é mais sangue.
O existir deixa de existir simplesmente.
Mas, se nem sequer uma mancha ficar,
Não há mais sangue para coagular.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Clarice... Lispector...

Dora Brisa

...E se você visse,
Por outros olhos, que não os seus,
Sua meiguice?...
Sua esquisitice, meu Deus!...

Se, na sua meninice,
Todo medo destruísse,
À dor, reagisse...
E, acreditando na vida, sorrisse...

Sem pesada chatice,
Talvez, a essência você sentisse,
Se não mais fingisse,
E só ao coração - seu tesouro! - ouvisse.

Convencer - a quem?
Justificar - o quê?
Enxergar - Ninguém!
Compreender - Você!

Mesmo que você explodisse,
De tudo, desistisse,
E a sua caminhada falisse,
Tem só uma alma: Clarice!...

Atrás deste olhar, às vezes direto,
Um pensamento a espiar, um tanto discreto...

Num mundo desconhecido, secreto,
Repousa um sonho - simples projeto...

No texto tímido, circunspecto,
Desliza a vida - prospecto...

Em cada história, encanto desperto
Para o que poderia ser correto...

O que fazer - na vida?
O que sentir - na morte?
Que bicho ser - Sofrida?
Forte?

Ao seu coração, que transcende aberto,
Nem seu nome soletro...
Feito criança, balbucio apenas: Lispector...

Voz - Elisa:
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