sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Anima

Dora Brisa

Hoje, sinto estar plena,
Plena de mim,
Plena em mim,
Plena comigo.
Fiz o que pude,
E o que não pude, também.
Se não fiz o que
Os outros desejavam,
Foi por não saber fazer,
Ou por não querer fazer,
Ou não querer saber fazer,
Ou nem lembro mais por quê.
Só não fiz o que
Dependia do outro, dos outros.
Se não foi feito,
Faltou o outro
(E eu a esperar).
Muitos não me compreenderam
(Nem eu me compreendo).
Alguns compreenderam-me pouco,
E assustaram-se
(Também, eu me assusto comigo).
Sonharam muitos sonhos,
Para mim
(Esqueceram de acordar-me).
Traçaram destinos,
À revelia da minha vida predestinada
(E eu em desatino).
Quiseram-me obediente,
Até previsível
(E eu fascinada pelo impossível).
Podaram minhas asas,
De onde nasceram
Sonhos que não voam.
Tentei falar-lhes,
Pelo idioma humano,
Mas sou indomável às palavras.
Das vidas que não vivi,
Restou-me dor dilacerante,
Ancestral!...
E o que sei é que guardo
Lembranças do que viverei,
E isso dilacera de dor,
As minhas memórias mais antigas.
Por isso, também,
Sinto-me plena,
Tão plena,
Que poderia morrer,
Nesta madrugada
Mais plena que eu,
E menos fria.
E não haverá vida
Que saiba da vida minha...

Voz – Rosany Costa:
video

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Preâmbulo

Dora Brisa

A primeira vez que ela o enxergou era um dia qualquer, sem previsão de “grande amor”, no horóscopo que leu no jornal do dia. Como todos os encontros, também esse foi casual. O olhar dele era fixo – o olhar dela sabia que ele a seguia. Ela fingiu não perceber, e seguiu em frente, sem saber mais aonde ia. Ele ficou lá – estático, com o olhar ainda fixo.
Depois que dobrou a esquina, cambaleando, ela entrou numa lanchonete qualquer, pediu água com gás, e parou para pensar, enquanto retinha na boca, cada gole da água gelada, até sentir todas as bolhas de gás deslizarem pela garganta seca. Aquele olhar fixo, no semblante de serenidade dele, permaneceu com ela, até que desistiu de tentar lembrar aonde teria de ir, e voltou para casa.
O apartamento quase vazio tinha as marcas do final do casamento dela. O ex-marido levara quase todos os móveis, os livros, as louças, os dvds, os eletrodomésticos, os cds, e até a coleção de discos de vinil dela, que não se importara. Só não levou o filho que ela tanto sonhara, e ele evitara – até o fim. Pela primeira vez, ela lembra a separação, e isso não chega causar-lhe mal, nem perda. Quanto tempo faz?... Ela não sabe, não quer saber, nem pensar.
Involuntariamente, ela recorda o olhar fixo do homem que encontrou na calçada qualquer. Não era atração física – ela sabia, por que, depois da separação, aventurou-se em alguns relacionamentos, por atração física. Viveu bons momentos – momentos que não passaram de momentos mesmo. Em cada caso que teve (foram poucos), buscou o olhar do homem que tomava-lhe nos braços, mas nada enxergava, além da superfície. Nunca tinha visto um olhar tão fixo, quanto daquele desconhecido, que ela nem chegou reparar nas roupas dele.
Chegou pensar em voltar àquela rua, àquela calçada. Não. Seria esforço perdido. O mais certo era que também ele estivesse de passagem por ali. Mas ele não era estranho a ela, mesmo sem saber quem ele era.
O tempo continuou passando. A vida continuou sendo vivida – ou não. Num outro dia qualquer, ela volta àquela calçada, aonde enxergara, pela primeira vez, aquele olhar tão fixo. E lá está ele, sentado, olhando à rua. Mais uma vez, ela sente aquele olhar fixar-se na presença dela, que, por um instante, para na calçada, esboça um sorriso, que não chega ser correspondido. Mais uma vez, ela desiste – o olhar fixo a intimida. Tropeçando na calçada, ela sabe que o olhar dele a segue – fixo.
Com férias do trabalho, ela resolve reorganizar o apartamento – um jeito útil de ocupar-se, movimentando a nova vida. Com as economias que fez, comprou cortinas coloridas – e leves, e soltas nas janelas. Fez doação do sofá aonde estava dormindo, desde a separação (o ex-marido levara os móveis do quarto do casal). Comprou estofados novos, coloridos, e televisão nova, novos dvds, novos cds, cozinha nova. Ainda falta-lhe uma estante, para comprar novos livros, nos velhos sebos da cidade.
Almoça, e resolve procurar uma estante – pequena, funcional. Sai de casa a pé, desce a avenida principal, dobra à esquerda, atravessa a rua, e se depara na mesma calçada da loja aonde (ela intui) o olhar fixo trabalha. Lá está ele. Pela primeira vez, ela o enxerga, além do olhar: ele é alto, elegante, charmoso, mas o que mais a instiga é aquele olhar fixo que a penetra, no mais fundo da alma.
Ela o cumprimenta, brevemente: Olá! Acelera os passos, imaginando que ele tenha retribuído o cumprimento, mantendo o olhar fixo, que a acompanha agora, ao dobrar a esquina. O coração dela acelera. Ela transpira ansiedade.
É noite. Ela organiza alguns poucos livros que conseguiu no sebo mais próximo, depois de comprar a pequena estante, instalada na sala. Aquele olhar fixo tira-lhe qualquer pensamento. Ela esboça sorriso maroto, e planeja voltar àquela calçada, quem sabe até entrar na loja onde ele trabalha, no dia seguinte.
Quando acorda, já passa do meio-dia. Não se importa. Está em férias. Resolve almoçar no restaurante que viu, próximo à loja em que ele trabalha. “O destino pode nos aproximar, num almoço” – pensa, confiante. Depois do banho, ela fica escolhendo a roupa que vai vestir – há tanto tempo não fazia mais isso. Resolveu sair com o vestido vermelho, que comprou na liquidação de uma loja do shopping da zona sul. Salto alto, lá vai ela, chamando a atenção de todos, pela calçada. Quando se aproxima do que chama “destino”, o olhar fixo não está lá, próximo ao balcão da loja. Nem sinal dele. Ela finge olhar a vitrine, perscrutando todo o interior da pequena loja. Nada. Desiste de ir ao restaurante – não quer mais almoçar. Volta para casa, desolada. Nem sabe onde ele mora, para procurá-lo. Nem sequer o nome dele.
Os dias dela seguem vazios, ansiosos, sem a presença dele, naquela redoma de vidro. Ansiosa, ela segue o ritual, diariamente, às vezes até, pela manhã e à tarde – para diante da loja, fazendo de conta que está interessada em alguma roupa exposta na vitrine, e se afasta. Não chega chamar a atenção das funcionárias, por que a loja tem bastante movimento, e todas estão ocupadas em bem atender os clientes que adentram.
Dias depois (para ela, anos de ansiedade), quando passa pela porta da loja, o vê – o mesmo olhar fixo, dessa vez, não para ela. Ele está sentado, com os braços relaxados nos ombros de uma mulher, que ajeita-lhe a gravata ao colarinho salmão. O corpo da mulher está entre as pernas dele, que, sentado, fixa todo o olhar à mulher que sorri. Ela observa, minuciosamente, a cena inteira, estarrecida. Vai embora.
Em casa, desaba em choro, no sofá novo que comprara na liquidação. “Boba! Boba! Mil vezes, boba!” – grita para si mesma, e chora mais ainda, até adormecer.
O tempo passando, e ela sem passar na frente daquela loja. Num dia qualquer, como aquele em que, pela primeira vez, os olhares de ambos se cruzaram, ela se vê diante da loja, onde o olhar fixo permanece, solitário. Sem pensar, impetuosamente, ela resolve transpor a redoma de vidro. Entra na loja. Caminha, com segurança, em direção daquele olhar, que, a cada passo dela, torna-se cada vez mais fixo. Quando fica diante dele, ela fala alto, gesticula, grita mesmo – o olhar, cada vez mais fixo, silencioso. Repentinamente, ela começa a quebrar os objetos da vitrine. Segura, com toda força, uma caixa enorme de estecas, e arremessa contra o vidro da vitrine, que estilhaça, chamando a atenção dos transeuntes. Alguns correm, outros chamam a polícia.
No dia seguinte, ela não quer acordar, nem levantar. Os vizinhos do apartamento não a veem mais sair, nem voltar. Numa loja qualquer, a vitrine exibe o mesmo manequim, de olhar fixo, feito de argila, abraçando o corpo de uma mulher, também feita de argila, sem cabeça.