quinta-feira, 13 de maio de 2010
A Beethoven
Fico a escutar-te
Em Adagio Sostenuto,
E a tua solidão
Faz companhia à minha solidão...
E a tua dor
Já não se dilacera
Sozinha,
Por que também a minha dor
Geme e esperneia...
Cada nota tua
No piano
É um grito dolorido,
Abafado...
E também eu abafo
Meu grito – minha dor...
E a minha solidão
Dialoga com a tua solidão,
Nesta melodia triste,
À procura do nada...
E sentimos nós
A dor mais humana:
A dor do existir...
... E a melodia segue
(triste, e por isso bela),
Como segue a vida...
Voz - Helena Antoun:
terça-feira, 11 de maio de 2010
Eu e minhas naturezas
I
Sou filha
De um amor louco
Da madrugada
Com o luar
Por isso o olhar
Sempre desperto
Distante do sol
Buscando nuvens
Nos holofotes das estrelas
II
A lua me bateu nos olhos
Alguém viu
No atrito
Meus olhos
Transbordaram estrelas
Ninguém viu
Nem meus olhos
Que se perderam
Na poça d’água
Que embalava a lua
III
Vivo sob a influência
Do tempo
Não esse tempo tosco
Cronometrado por relógios
Tempo que brinca com toda gente
No passar de cada hora
Seguindo lentamente
Quando já deveria ter
Ido embora
IV
O vento soprou
No meu rosto
Queria brincar
De brisa
Eu não podia
A casa estava cheia
Pessoas
Problemas
Todos os “pês”
O vento foi embora
Soprou longe
As nuvens
Que não pude ver
V
Da minha terra
Brotou a chuva
Que lavou o céu
E deixou brancas
As nuvens
Que caíram
Em outras terras
Secas
Que não eram minhas
VI
O mar banhou-me
A alma
Cheio de profundezas
Nunca mais
Perdi o gosto do sal
No doce sabor
Da minha alma
Que ainda arde
Em direção do mar
VII
Perco-me na mata nativa
Que não deixa rastros
Nem aponta caminhos
Mata menos escura
Menos fechada
Que a minha alma
Que brota em musgos
Os sonhos adormecidos
Pelo descaminho
E segue sem bússola
O silêncio da mata
Cheio de sombras
VIII
Eu sem sentido
Fiz as pazes
Com todos os sentidos
Que se rebelaram
Num repente
A visão foi tateando
A audição começou a cheirar
O tato passou a ter paladar
O olfato ouvia tudo calado
Enquanto o paladar a enxergar
De imediato
Meti os pés pelas mãos
Luz & Sombra
Eu sou sombra
Você - luz!
Sou mistério
Você - realidade!
Sou nuvem
Você - sol!
Sou fuga
Você - fatalidade!
Sou folha
Você - flor!
Sou inteira
Você - metade!
Sou nostalgia
Você - amor!
Sou melancolia
Você - esperança!
Sou passado
Você - futuro!
Sou velha
Você - eterna criança!
Sou terra
Você - mar!
Sou surpresa
Você - segurança!
Sou frágil
Você - agilidade!
Sou brisa
Você - ventania!
Sou garoa
Você - tempestade!
Sou colo
Você - caminho!
Sou triste
Você - ninho!
Nossas almas se fundem,
como onda na areia,
lua no mar,
estrela na escuridão,
raio de sol na poça d'água...
A sintonia das almas se guarda
feito água na terra,
fermento no pão,
concha na areia,
esperança no coração...
Voz - Elisa:
sábado, 8 de maio de 2010
Almoço em família
Já passa das 14 horas, mas ninguém parece preocupado. Afinal, é domingo, almoço em família. Na extremidade da mesa quilométrica, a matriarca: pouco menos de um metro e meio, rugas na fisionomia hoje mais irônica, cabelos finos e brancos, os quais ela alisa mecanicamente, em silêncio, sem olhar a mesa farta.
Nem ousa levantar o olhar, pois sabe que só conseguiria enxergar os mais próximos. Por isso, repousa os olhos, quase fechados, voltados para o crochê da toalha, que já nem lembra mais em que época ela mesma confeccionou.
São cinco filhos. Isso ela ainda sabe. Mas já perdeu as contas dos tantos netos e bisnetos. No trajeto à mesa, ouviu chorinho de bebês em coro – serão tataranetos?... Nem pensa em abrir a boca e perguntar, até por que fala tão baixo, que ela mesma pouco tem se escutado.
Em meio ao ruído dos talheres nas travessas e nos pratos, ela escuta frases desconexas, paralelas, tudo confuso à audição agora aguçada.
- Soube que a filha do Martin casou pela oitava vez?
- Não coma com a mão, menino!
- Esta semana, a cotação do dólar surpreendeu mesmo!
- Tive de comprar o vestido daquele estilista nordestino...
- Não quero comer cenoura! Odeio cenoura!
- A tintura do teu cabelo combinou mesmo foi com a bolsa!
- Desculpem o arroto involuntário!
- Eu quero brincar com aquele colherão ali, mamãe!
- A velha está gagá, nem ouve mais nada...
- Estou pensando em ir a Paris, no final do ano.
- Ela fez lipo, eu soube no salão...
- Maria, depois você me dá a receita dessa galinhada?...
- Já emagreci dois quilos, agora faltam só catorze...
- Demiti o diretor financeiro. Eu mesmo vou cuidar do serviço.
- Sentada, eu não alcanço a mesa. Deixa eu ajoelhar, papai...
- Olho pra mamãe, e me dá uma pena...
- Ainda não sei se vou tentar vestibular este ano...
- Você acha mesmo que o verde limão do meu vestido caiu bem?...
- Pára de mamar a embalagem de vinagre, garoto!
- Ano que vem, vou ampliar as ações na Vale...
- Encontrei um site culinário de dar água na boca!...
- Não sei viver sem salto alto. Acho que já nasci de salto.
- Não quero comer! Deixa eu ir na cozinha provar a sobremesa, mamãe?
- Será que a faxineira tem vindo toda semana? Essa casa é tão grande, e mamãe parece uma autista...
- Essa torta de espinafre está uma delícia!
- Vá lá no escritório, para conversarmos mais a respeito...
- Deixa eu comer as azeitonas, papai, ninguém quer...
- O que a gente não faz, para manter as aparências?
- Você viu que a Justiça não está perdoando ninguém mesmo, né?
- Só falta um pouquinho de botox nos lábios, e me tornarei uma princesa...
- Dia dez, vou marcar a próxima missa...
- Na sua idade, eu já tinha esses três maiores aqui...
- Encomendei o carro, mas vai demorar um mês pra chegar...
- Oba! A sobremesa!
- Achei melhor demiti-la, mas continuamos nos vendo semanalmente... que secretária!...
- Você ainda acredita em Papai Noel? Pelo amor de Deus!
- Maria, traz um pano para limpar a toalha?
- Eu nem quis conversa com o gerente, fechei a conta imediatamente.
- A nossa bisa não gosta de sorvete de chocolate?...
- Você viu a foto dele, naquela revista? Que homem!
- Não tomo mais nem refrigerante light...
- Quem será que deu à ela aquela estatueta tão triste, desolada?...
- Depois do almoço, vamos ao shopping com a mamãe...
- Na mais recente, eu mandei gravar o nome do meu gato...
- Acho que, antes de sair, vou à cozinha preparar uma marmita para levar para o jantar...
- Imagina que ela me disse que, se eu não assinasse a carteira, ela sairia... e saiu...
- É enjôo... Desculpe...
- Tenho estudado demais pra esse concurso...
- Mamãe, o Júnior roubou o morango do meu prato!...
- Alguém pode me passar a calda de frutas?...
...
Aos poucos, vão retirando-se da mesa, enquanto enfileiram-se em torno da matriarca, beijando-lhe a cabeça, a testa, as faces, as mãos. Ela tudo vê, tudo sente, tudo silencia. Quando sai o último grupo, lentamente, ela toca uma mão na outra, sentindo-as grudarem. Depois, alisa o rosto, e também sente os resquícios da sobremesa há pouco servida.
Na outra extremidade da mesa, permanece Adelaide, a filha do meio, que mora sozinha, longe dali. Olha a filha com compaixão, a mesma que sente agora por si mesma. Suavemente, Adelaide levanta, vai ao encontro da mãe, no costumeiro mutismo tranquilizador, e a abraça com carinho.
O diálogo que estabelecem é o mesmo, há décadas:
- Mamãe, melhor a senhora repousar...
- Todos já foram?...
- Sim...
- Estão todos bem?...
- Cada qual com os problemas que enxerga, mamãe...
- Melhor assim... têm o que fazer na vida...
- É sim, mamãe...
...
Ambas seguem à sala de estar, onde Adelaide, um domingo por mês, acomoda a mãe em sua velha cadeira de balanço. A matriarca da grande família senta, e suspira profundamente, para depois dizer:
- Só preciso dormir um pouco, minha filha... talvez, esquecer...(vira o rosto para o lado)
Adelaide sai da sala, dirige-se à porta principal, e, vendo-se fora, vai procurar o homem responsável pela detonação da velha casa:
Saudade
De repente, bateu em mim
Uma saudade,
Saudade do que nunca tive...
Saudade dos teus olhos nos meus,
Saudade do teu sorriso lindo,
Saudade dos nossos papos infindáveis,
Saudade do nosso silêncio...
De repente, bateu em mim
Uma só vontade,
Vontade de correr pra você,
Vontade de te abraçar,
Vontade de te dizer tantas coisas,
Vontade de brincar com você,
Vontade de, com você, me calar...
De repente, bateu em mim
Um sonho mágico de
Estar contigo,
Sentir teu colo,
Teu abrigo...
De repente, bateu em mim
Esta falta de você,
Esta tua ausência forte,
Este querer a tua presença...
De repente, bateu em mim
Uma vontade louca de chorar,
Chorar por não ter você aqui,
Chorar por sentir tua presença,
Chorar por sentir teu abraço, tua lágrima...
De repente, bateu em mim
Tua presença forte,
Teu sorriso mais lindo,
Teu abraço doce...
De repente,
De repente, bateu em mim
Uma vontade de recostar
Meu coração no teu colo,
E permitir-me sonhar...
Voz - Sereníssima:
quarta-feira, 5 de maio de 2010
Tempus fugit
Um dia,
Eu morrerei,
Tu morrerás,
Ele morrerá,
Nós morreremos,
Vós morrereis,
Eles morrerão.
Assim mesmo:
Num dia qualquer,
Numa noite qualquer.
Não importa.
Morreremos – todos.
No primeiro dia,
Chorarão a nossa morte,
Em lágrimas de saudade
E arrependimento.
No centésimo décimo sexto dia,
Lembrarão a nossa morte,
Na justificativa de um
Fracasso qualquer.
No milésimo centésimo terceiro dia,
Saberão a nossa morte,
Com a curiosidade turística
Do olhar que visita terra estranha.
No milionésimo vigésimo oitavo dia,
Já não chorarão, nem lembrarão a nossa morte.
No meio de entulhos ignorados pelo tempo,
Alguém (sem saber) guarda a nossa existência.
Displicentemente.
terça-feira, 4 de maio de 2010
Do diálogo
Dora Brisa
Não diga nada mais ao meu pensar. Uma só palavra só. O meu pensar anda cheio das tuas frases vazias. Se queres que eu ainda te escute, dirija tuas palavras – sentidas – ao meu sentir, onde reside toda a minha compreensão. Ao meu pensar, deixo apenas que decodifique o que persiste de racional no meu sentir. Sem abstração. Surpreenda-me. Nada me fales do que – ainda – espero ouvir de ti. Porque minha esperança sou eu – que já me tenho por inteira. De ti, o que preciso és tu – inteiro.
Não te admires, nem te assustes, se, no instante vazio, quando me pergunta o que penso – te respondo apenas: ar. Porque, neste momento exato, meu sentir se enche de ar, e outra palavra não cabe no meu pensar. Sinta comigo o ar – e esqueça a pergunta cheia de suposições, sem respiração. Inspira. Expira. Transpira comigo este instante que inspira por si só.
Deixa também eu olhar a paisagem pela janela da tua sala. Empresta os óculos escuros, porque também a mim, muitas verdades ofuscam. Eu, como tu, preciso de tempo para habituar minhas pupilas à claridade sem sombras.
Quando eu gritar por ti, venha correndo. Neste instante – único e breve -, um pássaro indefeso se equilibra na ponta fina de um galho. Observa o mínimo gesto que faço, para equilibrar-me nesta vida. Um só descuido – e vôo rasante.
Continuo à espera do teu chamado. Para o meu silêncio fazer companhia ao teu silêncio, diante do crepúsculo fatal. Até nossos silêncios tornarem-se um só – e único – silêncio, enquanto todos os gestos e pensamentos fenecem com o entardecer.
Depois disso tudo, já não seremos estranhos um para o outro. E já não precisarás mais perguntar-me coisa alguma, porque eu serei – inteira – resposta. E a tua sala será a nossa sala. Precisaremos de um só par de óculos escuros às duas pupilas nossas. E já não voaremos mais sozinhos, porque o nosso silêncio nos acompanhará. E nada mais precisaremos pensar. Porque o nosso sentir será delicado, único, como até o último instante do nosso diálogo vivido.
Voz - Rosany Costa: