quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Meu Plural

Dora Brisa

Pensando nos meus amigos, vejo que todos somos tão diferentes, e ao mesmo tempo tão iguais...
Tenho amigos que não me procuram, não me falam coisas – nem da própria vida, nem da vida dos outros. Outro amigos me procuram a todo momento, contando coisas da vida.
Tenho amigos que, quando me procuram, estão sempre chorando por alguma coisa. Outros amigos me procuram pra contar piadas, sorrir junto.
Tenho amigos que se aproximam em silêncio, e em silêncio se afastam. Outros amigos chegam fazendo alarde, e movimentam a minha vida.
Tenho amigos que sentem ciúmes de mim, e às vezes até 'emburram' por causa disso, e me punem com a ausência deles. Outros amigos me apresentam os amigos deles e fazem amizade com os meus amigos – e a família aumenta.
Tenho amigos que, quando me procuram, é para falar sobre economia, política, situação do País, profissões, mercado de trabalho. Outros amigos compartilham comigo a alma poética, e viajamos juntos por nuvens que eu (ainda) não conhecia.
Tenho amigos que me falam de futilidades, brincam com as vaidades, e acabamos rindo juntos. Outros amigos só me dizem coisas sérias, abismais até, e nos perdemos em questões existenciais.
Tenho amigos que estão sempre procurando um jeito pra falarem comigo, se preocupando como vão me tratar. Outros amigos me chegam de qualquer jeito, e rimos à toa, ou até choramos.
Tenho amigos que não me compreendem, ou talvez não me aceitem, mas nem por isso deixam de me buscar. Outros amigos, sem questionarem se me entendem ou não, permanecem comigo na caminhada atemporal.
Tenho amigos pretos, brancos, vermelhos, amarelos – coloridos de alma. Tenho amigos melancólicos, alegres, silenciosos, festeiros. São amigos queridos que sempre encontram no meu coração, o aconchego. Sei que todos os meus amigos são o meu plural – por que eu sou cadinho de cada um deles.
Voz: Rosany Costa - Edição - Enise:

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

domingo, 30 de novembro de 2014

Por um fio

Dora Brisa
Alô?... Quer falar com quem?...
Nada de trote, por favor...
Sem essa de me chamar de ‘meu bem’!...
Afinal, quem é o senhor?...
Ricardo... Ricardo...
Desculpe por eu não lembrar...
Ex-namorado?...
Vai ser difícil adivinhar...
Ah, Ricardo!...
Resgatei na memória!...
Antigo namorado...
Faz tanto tempo essa história...
Pra você não faz tanto tempo assim?...
Oh, desculpe, por favor...
Claro que guardei em mim
Os nossos momentos de amor...
Vivíamos a volúpia da mocidade...
Como eu haveria de esquecer?...
Nossas juras, nossa saudade...
Nosso desejo de tudo viver...
Ricardo, como você amadureceu...
Até tua voz está mais grave...
Teu vocabulário também cresceu...
Um verdadeiro homem... é verdade...
Ah, não me diga isso...
Olha que eu até acredito...
Você fazia me sentir um lixo...
Eu sei... Você não gostava dos meus gritos...
Mas me conta, Ricardo:
O que você tem feito?...
Como queria, foi ser advogado?...
Nem sequer vestibular pra Direito?...
Nossa... Isso que é novidade...
Confessa: você está brincando?...
Não consigo te imaginar no centro da cidade,
Vendendo contrabando...
Eu até entendo... Confia em mim...
Está difícil ganhar a vida...
Eu?... Dou aulas de latim...
Qual era mesmo a nossa música preferida?...
Ricardo... Ah, se você soubesse...
Falando doce desse jeito,
O meu coração enlouquece,
Batendo descompassado no meu peito...
Você sempre soube me encabular...
O quê?... Nem lembro mais
O porquê de nos separar...
Não... Ninguém mais fez, ou faz...
Ah, Ricardo... Fala tudo...
Desabafa, meu amor...
Liberta esse tempo mudo...
Repete que me ama... Por favor...
Há quanto tempo eu te esperava...
O destino é sempre assim...
Quanto mais sozinha eu chorava,
Você – inteiro – se guardando pra mim...
Repete... Arrepia o meu ouvido...
Só você sabe fazer...
Todo este tempo foi castigo...
Ricardo, de amor vamos viver...
O quê?... Por que você está me chamando
De Cristina?... Seu brincalhão!...
Logo você, que vivia gritando:
- Lá vai Beatriz, meu coração...
Engano?... O que você está dizendo?...
Melhor, fica um pouco calado...
Ouve meu coração batendo:
Ricardo... Ricardo...
Você tem certeza do engano?...
Ricardo, pensa bem...
Não lembra mais daquele final de ano?...
Na barraca, só nós dois... Mais ninguém...
Desculpe... Entendi agora...
Não... Não me chamo Cristina...
Namorei Ricardo no tempo de escola...
Eu ainda sonhava... Era uma menina...
Quando sentir saudade da Cristina,
Ricardo, por favor, me ligue...
Faz eu recordar nessa neblina
   O amor que nunca tive...

Voz - Elisa:
 

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

A moça e as flores

(à flor seca esquecida entre as folhas de um livro qualquer)

Quando criança, ficou maravilhada com o jardim de casa - até chegou a pensar que todas as casas tivessem jardins que floresciam o ano todo. Foi crescendo, e encontrando outras pessoas, feito ela, também maravilhadas com jardins. Em pouco tempo, especializou-se em conhecer cada espécie de flor, e todas as variações produzidas pelos enxertos.
Não demorou tanto, conheceu a perda de entes queridos, que morriam, sem qualquer aviso prévio. Ela não podia fazer qualquer coisa, a não ser resignar-se, escondida no jardim de casa. As flores a protegiam, e logo percebeu que o jardim seria sempre o melhor esconderijo, diante da dor. Quando não havia possibilidade de fuga, ia sempre aos velórios e enterros, com os braços cheios de flores - do mesmo jardim onde se refugiava.
Feito qualquer ser humano, também conheceu momentos alegres, quando saía, festiva, pelo jardim, colhendo as flores mais lindas, para presenteá-las às pessoas em festa. Não havia batizado, casamento, aniversário, formatura, ou qualquer outro evento familiar, que ela não aparecesse com os braços carregados de flores - do mesmo jardim para onde voltava com os olhos brilhando.
Descansando, em outros jardins, que já não eram os que conheceu quando menina, a moça sabia que as flores e os perfumes seriam sempre a companhia mais doce. Volta e meia, lá estava, no meio do jardim que ela mesma cultivava, colhendo braçadas de flores - as mais miúdas, ou gigantes em botão. Sempre alguém chorava, ou sorria, no caminho dela, que não abandonava a generosidade de distribuir flores.
Em alguns momentos da vida, ela e as flores foram motivo de piadas - em outras ocasiões, alento, aconchego, única companhia. Mas ela não quis pensar sobre isso, enquanto multiplicava as mudas das flores, cada vez mais coloridas e vivas - harmonia entre madressilvas, gerânios, acácias, cravinas, amor perfeito, e tantas outras que só ela conhecia a origem.
Numa tarde comum, feito tantas outras que teve a vida inteira, a moça sentiu uma pedra de gelo sufocar-lhe o coração. O que conseguiu, ainda, pensar foi que, se não estivesse no jardim, estaria em lugar nenhum. Dois dias depois, sentiram a ausência dela, durante o cortejo fúnebre da avó dela. Alguém lembrou de correr ao jardim, e encontrou-a abraçada com uma rosa branca, viva - o mesmo botão que a fizera maravilhada, uma vez mais.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Conjugação de-vida

Dora Brisa

Aos Santos você reza
Eu sinto frio e fome

O prato do dia você despreza
Eu sinto frio e fome

Você chora de solidão
Eu sinto frio e fome

Você calcula a inflação
Eu sinto frio e fome

Aniversário você festeja
Eu sinto frio e fome

Você se rebela e atira a bandeja
Eu sinto frio e fome

Emprego novo você comemora
Eu sinto frio e fome

Amor faz você perder a hora
Eu sinto frio e fome

Você faz discurso inflamado
Eu sinto frio e fome

Você reclama do trânsito parado
Eu sinto frio e fome

Você planeja sonhada viagem
Eu sinto frio e fome

Você expõe em vernissage
Eu sinto frio e fome

Você poupa para o aluguel
Eu sinto frio e fome

Você come croissant com mel
Eu sinto frio e fome

Você toma antidepressivo
Eu sinto frio e fome

Você busca oco paliativo
Eu sinto frio e fome

Você olha para mim com pena
Eu ainda sinto frio e fome

Você se perde em problema
Eu continuo sentindo frio e fome

Você não sabe o que fazer da vida
Eu sobrevivo com frio e fome

Você se suicida
Eu morro de frio e fome

Em alguma esquina perdida
Esta é a história do homem.

Voz - Helena Antoun:

domingo, 7 de setembro de 2014

Palavra

Dora Brisa

Ela nem ousava
Dizer aquela palavra,
Mas a palavra,
Ignorada e viva,
Permanecia no caminho,
Conformada.
Ela temia a palavra,
Por que sabia
Que aquela única palavra,
Com parcas letras,
Tão comum e usual,
Era verbo, ação.
Ela fazia de conta
Que a palavra não existia,
Enquanto a palavra a ignorava,
Por que o que ela e a palavra
Sabiam mais natural
Era tudo o que havia.
Ela temia a palavra,
Que não temia ninguém,
E ambas cumpriam
O que a palavra
Resumia, na vida
De tantas outras palavras.
Ela queria crer
No além da palavra,
Mas a própria palavra
Impedia revelar-se,
Silenciosa, num canto qualquer,
Numa esquina perdida.
Ela chegava a esquecer
Da palavra,
Mas a palavra, mesmo esquecida,
Lembrava a escuridão
Dos olhos dela,
Cegos do que não vinha da palavra.
Ela fugia da palavra,
Que não podia deixar de ser
A palavra que causava
Medo e fuga,
Fascínio e assombro,
Natureza mais viva.
Se a palavra a surpreendia,
Numa proximidade dolorida,
Ela se enchia de pontos
De exclamação e interrogação,
Enquanto a palavra arrastava reticências.
Quando ela deixou de existir,
A palavra fez-se revelada,
Como jamais ela imaginaria,
Tanto, tanto,
Que outra, que não era ela,
Estremeceu, diante da palavra: morte.

sábado, 16 de agosto de 2014

Gosto da liberdade

Dora Brisa

O apartamento é enorme, amplo, maior ainda para o olhar estrábico e miúdo da menina. E tudo é mais colorido. E tudo reluz. E tudo parece ser tão belo, quanto a liberdade que a menina desconhece.
A velhinha segura pela mão, os passos tímidos da menina. De repente, ambas se veem diante do piano, no centro da sala. A menina nunca tinha visto um piano tão lindo, majestoso, imponente. A menina ainda não sabia que pianos existiam, ali, dentro daquele amplo apartamento, e em tantos outros lugares.
A mão enrugada, que há pouco doava segurança à menina, que nem sabia, desliza sobre o brilho branco do piano silencioso. Um toque mais leve que o outro, sem deixar qualquer marca. O olhar miúdo da menina não enxerga mais que as pontas dos dedos envelhecidos tocando notas musicais invisíveis. A vida da menina se reduz ao instante de êxtase.
Por um momento, a menina se imagina morta. Leve torpor lhe percorre o corpo inteiro. Tudo mais esqueceria, principalmente o futuro que lhe aguardava, sôfrego. Este instante – leve toque de dedos trêmulos e macios sobre o piano mudo – teria sido a vida da menina. Em algum canto da alma infantil, a melodia continuará ecoando, mas ela não sabe.
Como quem, num estalar de dedos, retorna à consciência, após breve estado hipnótico, a menina desperta, com a voz, grave e doce, da velhinha:
- Todas as janelas estão fechadas?...
(É para ela – a menina -, a pergunta. Não há mais ninguém ali.)
- Sim... (responde a menina, cabisbaixa, percebendo a penumbra que invade a sala)
- Há quantos anos, eu nem ouso mais sentar aqui...
A voz da velhinha parece menos cansada, enquanto aproxima-se da banqueta. De olhos fechados, senta devagarinho, mantendo o ritual dos toques indeléveis sobre o instrumento. Lentamente, abre os olhos, destampa o piano, e o que a menina vê são dezenas de pedacinhos brancos, pretos, todos brilhantes, encantadores. Mas o que mais brilha, na penumbra da sala, é o olhar iluminado da menina, que descobre onde repousam todas as melodias. O coraçãozinho infantil dispara, se torna grande, enorme mesmo, maior, muito maior que o apartamento. Neste instante mágico, a menina ouve e dança todas as melodias. A alma infantil já não cabe mais no corpinho raquítico, quando escuta a velhinha murmurar, enquanto dedilha uma melodia triste no piano:
- Houve um tempo, há muitos anos atrás, em que meu marido fechava toda a casa, e me pedia para tocar para ele, mas só para ele. Meu falecido marido não admitia imaginar que alguém pudesse me ouvir tocar piano... (suspiro profundo!) Aos poucos, fui abandonando o hábito de sentar aqui, mesmo em silêncio... Nossa, faz tanto tempo que ele morreu... Não levou o piano junto com ele, como havia prometido, nos delírios da doença...
Morte – a menina já conhecia o peso dessa palavra, na alma frágil. A avó levará, para sempre e bem longe, o colo aconchegante. Sem saber o que dizer, transgride a educação que recebeu, e fala:
- Por que deixou tanto tempo os acordes silenciosos?...
- Talvez, por que a melodia da liberdade tivesse ido embora, sem poder voltar, por causa das janelas trancadas...
- E... e por que não tenta abrir as janelas?...
- Agora?... - pergunta, surpresa, a velhinha, que levanta, diante do silêncio da menina, e, em gestos ágeis e infantis, escancara as duas grandes janelas da sala. Os olhos úmidos da menina denunciam admiração, enquanto a velhinha retorna ao piano, começa a tocar Ária na Corda Sol, de Bach, e, chorando, fala às lágrimas miúdas da menina:
- Jamais tranque as janelas, pois a liberdade é um pássaro que chega...
- Pássaro não vive sem cantar... - responde, sem pensar, a alma menina.

Voz - Elisa: