quinta-feira, 1 de maio de 2014

Ao meu amigo Eduardo, que seguiu a viagem de todos nós...


Eu e minha alma
Dora Brisa

Minha alma encara
A arma na cara,
O nó desata:
Mata, mata...
Mas morre de medo
De um sapo
Sem arma, sem alma,
Guardado em segredo...
Minha alma se cala
Diante de elogio,
Só fica à vontade,
Quando tudo está frio...
Minha alma é desfeita
Por pedaços, cacos,
Por contradições, refeita...
Minha alma é facetada,
Mosaico de uma história
Mal escrita, mal contada...
Minha alma morre de fome,
Diante da mesa farta,
Enquanto todo mundo come...
Minha alma vive sem memória,
Observando outras almas,
Tantas vidas - uma só história...
Minha alma enxerga lá adiante,
Mas não é capaz de ver
O próprio reflexo, no semelhante...
Minha alma carrega uma ternura
Tão seca, tão inútil,
Que não faz sossego, na brandura...
Minha alma já não ouve
O próprio silêncio, que
Em nenhum momento coube...
Minha alma não sabe, nem entende,
Não é sabida, nem entendida,
Porque não se solta, nem se prende...
Minha alma é tudo do nada
Que aprendi a não ser,
Porque, nesta estrada,
O que minha alma sabe é morrer...

Voz - Eduardo Cunha:

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Travessias

Dora Brisa

Olhares,
Multidões,
Burburinhos
me tonteiam,
e eu derrubo muros,
tropeço no meio-fio...

Expectativas,
Memórias,
Barcos vazios
me chegam,
e eu saio de mim,
viro plateia, atrás das cortinas...

Nomes,
Sabores,
Fisionomias
me fogem,
e eu me escondo nas teias
da estante esquecida, no porão...

Obrigações,
Relógios,
Fantasmas
me aprisionam,
e eu me liberto,
entre as grades da janela descortinada...

Gritos,
Escuridão,
Ruídos
me estremecem,
e eu danço,
na ausência de melodia...

Pássaros,
Folhas,
Crianças
me encantam,
e eu me recolho,
nos cantos de minh’alma...

Mar,
Abismo,
Céus
me fascinam,
e eu me agarro
nos meus olhos fechados...

Calçadas,
Telefones,
Pensamentos
me chamam,
e eu clamo:
silêncio.

Realidade,
Fatos,
Visões
me chocam,
e eu me sonho,
na rede estirada, no meio do nada...

Livros,
Músicas,
Filmes
me seduzem,
e eu me deixo levar
para o fundo do espelho...

Piano,
Atabaque,
Violão
me calam,
e eu me banho,
na cascata da capa da revista seca...

Nuvens,
Estradas,
Árvores
me ninam,
e eu me perco,
por não saber quem sou, sem por quê...

Palavras,
Pessoas,
Tempos
me atravessam,
e eu atravesso a rua, sem faixa de segurança,
diluída em reticências...

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Pausas



Dora Brisa

Quando a madrugada faz,
finalmente,
adormecer o dia,
sonhos breves
deslizam do céu,
das estrelas cadentes,
dos edifícios,
das árvores,
dos telhados,
das igrejas,
das janelas,
das montanhas,
sonhos que pousam,
suavemente,
no mais fundo
da alma de
toda gente.

Mesmo antes de
o dia insinuar-se,
a lida começa,
em todos os cantos,
feitos de
entusiasmos e
desencantos,
no novelo
a desfiar e fiar
a história,
irremediavelmente,
sem remendos
e ensaios,
vestindo a vida
de toda gente,
com desejos e medos
em toscos balaios.

Quando a luz
se ausenta,
na imponência
da noite
que prenuncia,
o cansaço do dia
faz brilhar
outras luzes
de repouso,
de euforia,
e não há quem
não perceba
adormecer
alguma coisa
que se fez presente,
em mais um dia
acompanhado de
menos vida,
sob o jugo do
final
de algo que
só a manhã
         anuncia.
Voz - Elisa:

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Receita de Ano Novo



Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
 

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Vem

Dora Brisa

Vem, toca as minhas mãos,
Vê como são trêmulas e frias,
Tão trêmulas e tão frias,
Como devem ser as mãos
De toda gente.

Vem, me dá um abraço,
Um abraço de alma inteira,
Um abraço aconchegante, quente,
Um abraço silencioso,
Como deveria ter toda gente.

Vem, ouve meu mutismo cansado,
Silêncio feito de nadas,
Depois de ter ouvido tudo,
Até os gritos de dor, de medo,
Gritos de toda gente.

Vem, me conta histórias,
Fala de vidas que não são minhas,
Lembra comigo a tua infância,
Chora e ri da minha (tua) vida,
Tão vivida, como de toda gente.

Vem me dizer que tudo passa:
As nuvens, o sol, a chuva,
As feridas que sangram e cicatrizam.
Mas me diga que também a vida
Passa, como toda gente.

Vem, embala minha alma cansada,
Canta a tua canção pra mim.
Não, não diga mais nada,
Adormeça comigo, na noite sem fim,
Enquanto ainda sonha toda gente.

Vem... Vem...

Voz - Rosany Costa:
 

domingo, 16 de setembro de 2012

De tempo em tempo

Foto: Denise
Dora Brisa

O presente
torna-se passado,
antes mesmo
de ser digerido,
saboreado na essência.
No passado,
queremos,
urgente e
impacientemente,
o futuro.
Quando,
inesperadamente,
o futuro chega,
acabamos nos alimentando
do passado.
De tempo em tempo,
tudo é nada,
e nada é tudo novo
de novo.