sexta-feira, 23 de julho de 2010

A virgem do mar

Dora Brisa

Rosália tem uma beleza natural, nos seus quinze anos. Nada extraordinária. Cabelos castanhos e longos, penteados pelo vento. Pele queimada pelo sal e pelo sol. Como todas as filhas dos pescadores, aprendeu a ler e escrever com o irmão mais velho, e, seguindo a tradição, ensinou o mesmo ao irmão mais novo.
Mas pouco – ou quase nada – há que se ler nesta praia distante. Tampouco há o que se escrever a respeito da vida simples que se leva aqui. A rotina não chega a entediar, porque os moradores não conhecem outra vida. Todos nasceram aqui nesta praia, e por aqui foram crescendo, procriando, vivendo, morrendo.
Os pescadores mais velhos ainda guardam na memória as histórias contadas por seus pais e avós, sobre os primeiros habitantes desta praia. Diziam eles que há muito, muito tempo mesmo, dezenas de pescadores, depois de enfrentarem a maior tempestade da história, atracaram por aqui. Bem ali, atrás dos rochedos.
Como tiveram de permanecer dias no aguardo do bom tempo, exploraram o lugar. Diante da farta vegetação, resolveram trazer para cá suas famílias. Durante dias, meses, mulheres e crianças eram trazidas, enquanto os homens se ocupavam da pesca e da construção dos barracos.
Quando todas as famílias já estavam confortavelmente alojadas, um fato inusitado começou a ocorrer. A cada dia, um pescador se jogava em alto mar. O mais estranho era que todos, antes de se suicidarem, com os olhos fixos nas profundezas do mar, gritavam: Iara!... E assim aconteceu, até o último pescador se despedir das viúvas e das crianças, à beira da praia. Quando esse, em alto mar, gritou por Iara, não havia companheiro para ouvi-lo. Dias depois, o mar devolveu o barco às lágrimas da última viúva da praia, que passou a ser chamada Praia do Fascínio.
As mulheres, em luto coletivo, não desistiram da vida. Pelo contrário. Esforçaram-se ainda mais. Criaram seus filhos. Pescaram. Plantaram e colheram. Com o tempo, tiveram a ajuda dos filhos mais velhos, que aprenderam cedo a manejar os barcos, as redes. E assim, novas famílias foram construindo.
Rosália nunca soube dessas histórias. Quando a mãe era viva, a menina ajudava nos afazeres domésticos. Hoje, com a mãe morta, cabe à Rosália, única mulher na família, cuidar do pai e dos cinco irmãos. É o que ela faz agora – três e meia da madrugada. Como todos os dias, Rosália prepara o café do pai e dos irmãos, que vão se lançar ao mar, na busca dos cardumes a serem vendidos na feira da praia mais próxima.
Como em todas as madrugadas, Rosália se despede do pai e dos irmãos, à beira da praia. “O tempo parece que vai continuar nos ajudando” – comenta o pai, enquanto os irmãos entregam o barco de volta ao mar, que os recebe escuro, silencioso. Rosália acena, vendo outros barcos também abrirem sulco no mar.
A menina só pára de acenar, quando o barco da família está longe, tão longe que não consegue mais enxergar. “Que Deus os acompanhe” – grita, seguindo o mesmo ritual ensinado pela mãe, que voltava sempre para casa secando lágrimas no velho avental. Rosália não entendia, mas guardou a lembrança.
A menina não chora. Torce a barra do vestido de chita. Risca com os pés a areia molhada. Volta a olhar o mar – a vastidão, a solidão do mar. Enquanto o dia vai clareando, o mar lava as pernas e os pés de Rosália, com ondas suaves, num espreguiçar profundo.
Curiosidade. Rosália avista ao longe uma garrafa, e corre até lá. A garrafa simples, transparente, está tampada. “Tem um papel dentro dela” – diz em voz alta e ansiosa a menina, que destampa a garrafa. Antes de puxar o pequeno papel, seca as mãos, e lê: “Minha doce Iara, sonhei mais uma vez com tua beleza jovial, e volto para o mar com tua imagem no meu coração”. Rosália aperta o papel contra o peito, e suspira. “Será um apaixonado, que, ao me ver todos os dias na praia, resolveu se declarar assim? – pensa em sobressalto – Mas por que me chama de Iara? Não há menina, moça ou mulher com este nome por toda a praia”.
Voltou para casa pensativa, onde, se ocupando dos serviços domésticos, relia de vez em quando o papel preso ao peito. E sorria. Os olhos de Rosália chegavam a brilhar. Brilho de quem sonha acordada.
Quando a casa voltou a se encher do vozerio do pai e dos irmãos, a menina nem prestava atenção. E eles todos falavam ao mesmo tempo, gesticulando, contando façanhas da pesca do dia. Estavam tão entretidos na balbúrdia que faziam, que nem perceberam o olhar e os gestos perdidos de Rosália, que suspirava pelo amanhecer do dia seguinte. “Quem sabe, o jovem pescador tome coragem, e resolve se atrasar para o trabalho e falar comigo” – pensava, imaginava, coloria fantasias.
A família de Rosália adormeceu com o crepúsculo. Só ela ficou na rede, sem sequer pensar em dormir. Preferiu sonhar acordada. Tanto sonhou, que despertou dos devaneios com o arrastar dos chinelos do velho pescador. A menina salta da rede, enquanto o pai chama os irmãos.
Nunca se viu tanta rapidez no preparo o café da manhã nesta casa. Rosália sorri, e até cantarola alguma coisa baixinho. O pai devolve-lhe o sorriso, e conta seus planos. Acredita que “se a pesca continuar boa, poderemos vender o velho barco, e comprar um maior”. Os irmãos aprovam, num sorriso otimista. Nos seus devaneios, Rosália também sorri.
Tão logo saem da mesa, Rosália, em tom de brincadeira, empurra o irmão mais novo à porta: “Vamos logo à praia, porque o dia será lindo”. Na praia, enquanto a menina corre, rodopia de braços abertos, os irmãos indagam o pai, com seus olhares sonolentos. “Vão se acostumando, porque mulher é assim mesmo. A mãe de vocês era assim também” – responde o velho pescador, sorrindo, enquanto verifica a última rede colocada no barco.
Lá vão, outra vez, os seis súditos do mar, que, antes do amanhecer, já começam a “faxina” no castelo do “grande rei”. Rosália acena, saltita, grita, sorri – tudo ao mesmo tempo.
Quando o barco deles se torna uma concha no oceano, a menina franze a testa, e fica a observar concentrada em volta. Nenhum pescador. As mulheres se dispersaram com as crianças, provavelmente voltando a dormir em suas redes. Só Rosália ficou a olhar o mar, suspirando. Mais uma vez, as primeiras ondas chegam de mansinho aos pés da menina, que avista, ao longe, outra garrafa, tão comum quanto aquela de ontem.
Ofegante, Rosália corre. A garrafa tampada é lavada pelas ondas. Intempestivamente, destampa a garrafa, na busca de outra carta. Com o peito arfando, a menina lê: “Minha doce Iara, fico a sonhar contigo nos meus braços. Chego a imaginar teu canto que fascina. Todos os dias da minha vida, entrego a ti neste mar”.
Num suspiro profundo, Rosália pensa: “Meu canto? Mas eu não sei cantar quase nada. Será que ele me ouviu cantarolar esta manhã?” Com a carta contra o peito, os pés enterrados na areia molhada, a menina senta numa rocha. Olhando para o mar, ela canta uma canção antiga, de alguém que se despediu de um pescador que nunca mais voltou. A composição é triste, como o olhar de Rosália perdido no mar. “Minha mãe cantava melhor – fala vagamente -, mas prometo que vou ensaiar todos os dias, para que meu canto te fascine além do teu sonho, galante pescador”.
Os dias são todos iguais, nesta praia lânguida: um dia de pesca, o outro também. Rosália com o peito cheio de declarações que chegam sempre ao amanhecer, numa garrafa embalada pelas ondas do poderoso mar. Todos os dias também, enquanto o pai e os irmãos estão a pescar, a menina senta ao pé do rochedo e canta, canta com a alma melancólica de saudade. Ninguém a vê. Ninguém mais a escuta cantar, senão o mar silencioso, refletindo o amanhecer.
Num desses dias mornos na praia, depois de acenar para o pai e os irmãos no mar, Rosália procura a garrafa com outra mensagem. Não demora muito, corre em direção do rochedo. A garrafa está quebrada. Foi estilhaçada pelas ondas bravias contra o rochedo. “A carta” – grita Rosália, atirando-se à onda que ameaça engolir o pedaço de papel. Chorando, a menina retira o papel da água salgada. Com cuidado, abre a mensagem sobre os joelhos, sentada na areia seca da praia. Os primeiros raios de sol pairam sobre a folha e os olhos molhados de Rosália. O poema parece também encharcado de lágrimas:

“Minha doce Iara,

Sou teu mar:
Silencioso, profundo,
Protegendo teu navegar
Dos perigos deste mundo...
Nas minhas profundezas,
Escondo teus segredos...
Entre minhas maiores riquezas,
Guardo o baú dos teus medos...
Sou teu mar,
Água morna com teu calor...
Chego em ondas para teu pranto molhar,
E à noite, faço-me reflexo da lua - puro amor...
Estou sempre a te embalar...
Nas minhas águas calmas,
Chegas a sonhar
Com outros mundos, outras almas...
Sou teu mar...
Em noites de tempestade escura,
Te concentras a buscar
Aconchego na direção segura...
Na minha vastidão,
Tua alma se desnuda:
És puro coração
Pulsando na melodia muda...
Sou teu mar...
A ti, presenteio todo meu natural:
Peixes, conchas, até estrelas a encantar
Tua vida previsível, com sabor de sal...
Infinito que pareço,
Diante da tua esperança infantil,
Silencioso, adormeço,
Inteiro, nas tuas mãos, teu servil...
Sou teu mar,
E assim sempre serei...
Tu - barco a me acompanhar...
Eu - tua bússola-, seguirei...”

A menina se enche de suspiros, enquanto lê, relê, à espera que o sol seque por completo o papel. Depois, apertando a carta contra o peito, chora: “Tua doce Iara não agüenta mais tanta espera, meu querido pescador. Me leva contigo na tua vastidão infinita. Sou tua”.
Caminhando à beira da praia ainda solitária, Rosália às vezes ergue o olhar, tentando buscar ao longe a imagem do seu amado pescador. Com a carta ao peito, a menina diz: “Tu és meu mar, e eu, tua sereia”. Com as mãos em concha, movida por um instinto até então desconhecido, Rosália toma a água salgada, fria. Depois, deita junto ao mar, e chama as ondas que salgam seus cabelos, seu corpo todo, sua alma.
Quando levanta, caminha cabisbaixa, silenciosa como o mar, com a sensação de ter se doado inteira – corpo e alma. Olha um instante só para o mar, que já não lhe é mais o mesmo: também se doou inteiro – corpo e alma. Exaustos, menina e mar se distanciam. Ela retorna para casa, com a certeza de ter o mar que a tem. Inteiros.
A volta do pai e dos irmãos não é esperada. Eles chegam um pouco atrasados do que o costume. Estão tristes. O íntimo de Rosália nem percebe. Depois de um silêncio prolongado, o pai diz na mesa: “Hoje, perdemos um companheiro, Rosália. Um jovem pescador abriu os braços, num dos barcos, gritou ‘Iara’, e jogou-se com tamanha força no mar, que não conseguimos achá-lo até agora. Outros pescadores continuam em alto mar procurando-o, mas duvido que localizem o corpo”.
A menina sai correndo em direção à praia. Os irmãos ameaçam ir atrás, mas acabam obedecendo o pai, e permanecem sentados à mesa. “Mulheres são sensíveis assim. Deixem ela chorar sozinha. A mãe de vocês era assim também” – arremata o velho pescador.
Com os olhos encharcados de mar, Rosália busca refúgio junto ao rochedo. Chora baixinho. Olhando o mar, pensa: “Por isso aquele poema, meu pescador, agora meu mar”.
A rotina da pesca faz os dias cada vez mais tranquilos, na Praia do Fascínio. Já nem se fala mais no jovem pescador sem família, que, chamando por ‘Iara’, num gesto de abraço livre, atirou-se ao mar. “Dissolveu-se no mar, para tornar-se o próprio mar para mim, sua doce Iara”, pensa Rosália, quando, todo dia, joga flores às ondas.
Nas madrugadas, após se despedir do pai e dos irmãos, a menina deita junto ao mar, que lhe cobre de suaves ondas salgadas. A cada toque, um estremecimento no corpo de mulher. Ambos silenciosos, até o sol chegar cheio de preguiça. É hora de Rosália voltar para casa, ainda sentindo o gosto de sal nos lábios, no corpo, na alma. Ela chega a imaginar que, em sua ausência, o mar recolhe todas as ondas, e fica mais profundo, até Rosália voltar.
Meses, anos passam sem pressa, como os barcos a navegar nas águas calmas da Praia do Fascínio. Rosália é mulher feita, não só diante do mar. Os pescadores admiram-na de longe, já que ela parece ter um só olhar – sempre voltado àquelas ondas silenciosas, que guardam segredos de um grande amor.
O mar, fiel companheiro, está sempre a beijar-lhe os passos. Às vezes, parece agitado com algum pensamento dela, mas logo apazigua, depois que a mulher se deita ao seu lado, e se entrega às suas ondas suaves A doçura de Rosália se mistura com o mar salgado. Quando a mulher levanta, sente caminhar como uma onda – suavemente rendida -, enquanto o mar já não lhe parece tão salgado.
Com o corpo do pai enterrado, os irmãos, já com mulheres e filhos, decidem seguir uma grande embarcação de pesca. “O trabalho é garantido, de exportação e tudo, Rosália. Vem com a gente. Vamos embora desta praia quase deserta” – propõe o irmão mais novo. O olhar marejado da mulher não deixa dúvidas: ela fica, enquanto houver o mar a inundar-lhe o corpo e a alma de vida.
Chega o dia da partida da última família da Praia do Fascínio. Rosália se despede, no mesmo ritual que manteve com o pai e os irmãos, depois de mentir que um dos irmãos viria buscá-la em dois dias. A família se vai. O último barco também. Só - Rosália e o mar. Rosália olha o mar. Rosália deita junto ao mar. Rosália canta baixinho para o mar. Rosália se entrega ao mar. Pouco tempo depois, Rosália morre – de amor – no mar...
Voz - Elisa:
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Um comentário:

  1. Amiga paiça..imagens tão lindas qt ao texto,A virgem do mar está gravada na minha mente, cada passo cada cena!sempre agradecida pelo privilégio de te acompanhar!
    beijo
    outra paiça!

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