segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Noturno

Dora Brisa

Sou noite escura
Na mata fechada:
Sem mistério – pura
Sem bússola – desnorteada.

Tenho o peso do sol
Pelas nuvens carregado.
Sou a isca do anzol
Do pescador afogado.

Sigo sempre o vento
Que leva a qualquer lugar.
Quase tudo experimento,
Tropeçando no meu próprio andar.

Sou a poeira da estrada
Que há muito ficou pra trás.
Dentro de mim, carrego o nada
De que é feita a vida que se faz.

Dos meus anos faço meses,
Minhas semanas são dias.
Um instante eternizo, às vezes,
Porque o resto são mãos vazias.

Quando busquei sentido na vida,
Acabei chorando na acomodação.
Hoje, não passo de mais uma ferida
Que morre no combate, sem medicação.

E isso é tudo, de uma vida inteira.
Se houve sonhos ou ideais,
Até hoje choro: quanta asneira!
A vida é sempre nunca, e nada mais.

Voz - Helena Antoun:
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