terça-feira, 30 de agosto de 2011

Coração

Dora Brisa

O coração que te entrego agora
Não bate, nem apanha...
Tão-somente pulsa e sangra a cada hora...
Por isso, toma cuidado: não arranha...

Este coração não é feito de poesia...
Pelo contrário, tem sangue - morno e vermelho...
Coração de vida vadia,
Órgão refletido no menor espelho...

Pequeno, e quase sempre tão frágil,
Cabe - inteiro - na tua mão...
Evita o movimento mais ágil,
Pois o que tens é o meu coração...

Coração que não pulsa mais forte diante da dor,
Nem acelera enamorado...
Um órgão feito de sangue - amor...
Nada mais que um pedaço do meu corpo dilacerado...

Aceita este coração a pulsar descompassado,
Em ritmo às vezes tão inseguro...
Entre tuas mãos, abandonado,
Entregue ao sentimento mais puro...

E se um dia este coração não mais pulsar,
Silencia por um momento...
Nada de lágrimas a extravasar,
Nem qualquer poesia de lamento...

Foi apenas mais um coração
Que, de tanto pulsar, chegou a morrer...
E, por amar sem qualquer exatidão,
Simplesmente não suportou mais viver...

Voz - Eduardo Cunha:
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sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Sem despedida

Dora Brisa

Sei – isso é definitivo -,
Não haverá mais a nossa partilha
Da rotina segura – doce lenitivo -,
Nem das alegrias e tristezas de família.

Não jogaremos mais conversa fora,
Não teremos sequer a vida trivial.
Não planejaremos mais ir embora,
Nem faremos o passeio habitual.

Não olharemos mais o céu de madrugada,
Não brigaremos por qualquer razão.
Não lembraremos história passada,
Nem sonharemos futuro de emoção.

(Sei – isso é definitivo -)

Não haverá mais nada, nada,
Simplesmente por que você partiu.
Sem deixar cópia da chave na escada,
Inconsciente, não chorou, nem sorriu.

... E eu fiquei, no meio da casa vazia,
A sentir sua ausência ocupar espaço.
Sem despedida – nem você sabia -,
Seguiu a morte, mas deixou um pedaço.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Dá-me a tua mão, criança

Dora Brisa

Dá-me a tua mão, criança,
Mas precisa ser fechada,
Porque sei que guardas nela,
Teu mais íntimo segredo...

Dá-me a tua mão, criança,
Para que eu possa acolhê-la,
Com minhas mãos,
Em forma de concha...

Dá-me a tua mão, criança,
Porque quero guardar contigo,
Teu mais íntimo segredo,
Escondido entre nossas mãos...

Dá-me a tua mão, criança,
Que quero caminhar contigo,
Sem perder o perfume deste segredo,
Descobrir o mundo...

Dá-me a tua mão, criança,
Para que guardemos,
Junto com este beijo, no dorso de tua mão,
Os nossos segredos...

Dá-me a tua mão, criança,
Porque caminharei contigo,
Protegendo este segredo,
Até o dia em que o teu coração se iluminará...

Dá-me a tua mão, criança,
Porque, lá adiante,
Tua mãe te espera,
Para beijar, mais uma vez, o dorso da tua mão...

Dá-me a tua mão, criança,
Pois não estás só,
E, juntas, protegeremos
O beijo,
O perfume,
A lágrima,
O segredo...

Voz - Helena Antoun:
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sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Poiesis

Foto: Denise
Dora Brisa

A poesia que mais alto canta
Não é aquela pomposa, correta,
Desfilando quase santa,
Nem tampouco a discreta.

A poesia que grita
É aquela que inflama,
Tira tudo do lugar, agita,
Não mostra caminho: clama!

A poesia, que é poesia,
É feita de sede e fome,
Tem cheiro de noite e dia,
Vagueia pelos abismos, some.

A poesia é filha do nada,
Sem herança qualquer.
A poesia é abusada,
Brinca até de se enfeitar, quando quer.

A poesia é bicho selvagem,
Indomada, indomavel,
Crisalida escondida na ferragem,
Longe do admirado, admiravel.

A poesia chega sem nome,
Nem endereço tem,
Sai, por falta de sobrenome,
Volta à solidão de ser ninguém.

A poesia nasce sem necessidade,
Cresce à margem do pensamento,
Faminta, devora o lixo da cidade,
Para, depois, morrer ao relento.

A poesia é coisa antiga,
Podridão reluzindo brilhante,
Velha centenaria desconhecida,
Vestindo roupa nova, elegante.

A poesia não faz sentido,
Por que nasce sem saber,
Vive no espaço escurecido
Do tempo sempre a morrer.

A poesia não é privilegio de ninguém,
Nem mau agouro a quem acredita.
É só a respiração que a alma tem,
Enquanto a vida regurgita.

A poesia não tem sabor,
Nem som, forma, ou cheiro.
A poesia é qualquer coisa entre o pavor
E o extase do mundo inteiro.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Ah, criança...

Dora Brisa

Ah, criança...
Como eu gostaria de colorir
Teus dias,
Iluminar tuas noites,
E dissipar todas as tempestades...
Ah, criança...
Como eu queria te fazer
Esquecer o que não era para ter sido,
Lembrar o que não foi,
E te embalar num abraço...
Ah, criança...
Como eu queria que você acreditasse
Que o amor continua acima de tudo,
E a solidão só existe no dicionário...
Ah, criança...
Deixa eu te contar dos meus medos,
Das minhas noites escuras de tempestades,
Da minha solidão combalida,
Das minhas mãos vazias, e frias...
Ah, criança...
Como eu queria voltar a ser criança,
E ainda sonhar,
Sem querer dormir,
E, assim, te proteger...

Voz - Elisa:
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terça-feira, 9 de agosto de 2011

Elegia

Dora Brisa

Quando a madrugada me pariu,
O liquido amniotico, que me protegia,
Singrou o mar, feito rio,
E nunca mais fez-se dia...

Quando, pela primeira vez, me vi gente,
Era a mão de meu pai que me apoiava,
E, até hoje, não há outra mão tão presente
Que me aceite, em todos os sonhos que eu já sonhava...

Quando quiseram domar minha alma selvagem,
Não souberam, nem sequer imaginaram,
Que eu ousava seguir desconhecida viagem,
Voando para o impossível, que todos negavam...

Quando tive de caminhar sozinha,
Pela rua, minha alma torta se perdeu,
E ainda hoje espia a fresta da vida, fora de linha,
Com as mãos vazias do nada que esqueceu...

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Digo

Dora Brisa

Quando digo
O que digo
Se digo
É por que digo
E nada mais
Quero dizer
Ou digo
Se não digo
É por que não tenho
O que dizer
Ou não digo
Por que não quero dizer
Mas o que digo
Digo por que digo
E nada mais quero dizer
Nem menos do que digo
Só digo
O que digo
Por ainda querer dizer
O que digo
Mas se nada mais digo
É por que tudo o que
Ainda digo
No silencio sem dizer
Digo sem saber
Que digo mais
Que tudo que cheguei dizer

Voz - Rosany Costa:
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