domingo, 31 de janeiro de 2016

Noite suja

Dora Brisa

Um estampido só. Oco. Mudo. Escuro. Lentamente, ele passa a mão na testa que transpira. De olhos fechados, sente o suor grosso na ponta dos dedos. Por alguns segundos, o estampido ainda ecoa na cabeça dele, agora vazia.


– Vô, quero fazer cocô.
– Não se diz “cocô”.
– Mas minha mãe...
– Ela sabe pouco, coitada.
– Como se diz, então? Cagar?
- Não. Se diz “fazer uma obra”, porque é uma obra – diferente de todas as outras...
– Entendi. Mas continuo com vontade...
– Faz tua obra atrás daquela árvore, e depois seguimos para o rio...

Os olhos dele permanecem cerrados. Mas não sente dor.


– Fessora, posso ir ao banheiro?
- Vocês não conseguem nem ser originais. Basta ficarem
ajoelhados no milho, que já pensam em fugir para o banheiro...
– Mas...
– Nada de mas, menino... Fica quieto aí,
senão dobro o castigo...
– É que tô apertado – ainda fala, enquanto
a urina escorre no chão do canto da sala.

Silêncio absoluto. Mecanicamente, a mão dele ainda busca a testa. O suor espesso escorre agora pelas laterais da fisionomia impassível.


– Agora que sua mãe morreu, me diga: O que
você quer fazer?
– Pai, quero que o senhor me interne no Seminário.
– Você – seminarista? Meu único filho – padre? Por que
isso agora, menino?
– Porque o padre disse na missa que minha mãe foi pro céu... Eu
quero ficar perto dela... Padre fala até com Deus...

A cabeça dele lateja um pouco. A mão descansa rendida sobre o peito.


– As suas coisas estão aqui. Vá para o enterro
de seu pai... Se quiser, volte depois, para ser ordenado...
– Não voltarei, mas agradeço-lhe assim mesmo,
senhor diretor. (A porta pesada de madeira maciça
fecha-se para nunca mais se abrir.)

Por um momento, sente amargor na boca cheia de saliva. Não quer cuspir. Engole resignadamente.


– Nesta pensão, só se entrega chave de quarto, com
pagamento adiantado.
– Posso pagar dois meses adiantado. É o tempo que preciso pra
arranjar um emprego...
– Estou precisando de garçom no restaurante. O salário
é pequeno, mas pode ganhar gorjeta...
– Aceito. Claro. Até porque quero continuar estudando...

Involuntariamente, os olhos dele lacrimejam. Com lenta ternura, suspende a mão, que recolhe as pesadas lágrimas.


– Confessa aqui para o teu melhor amigo: Você nunca
comeu uma mulher, por que é viado? Pode contar. Não
discrimino...
– Em vez de viado, sou é maluco
mesmo... Você pode não acreditar, mas quero
fazer amor, não só sexo... Você entende isso?...
– Isso é loucura... Mas sorte minha, porque
você deixa mais mulher pra mim...

Quando reergue a mão ao rosto, sente, de olhos ainda fechados, o suor a persistir, cada vez mais grosso, pesado. A cabeça leve não ecoa mais estampido algum.


– Por que você vai embora pra Capital? Pensei que
nós dois...
- Vou estudar... Você sabe que quero ser ator... Por isso,
preciso ir... Mas volto pra buscar você,
Carolina, e aí nos casamos... Você me espera?...
– Espero, por que te amo... Mas dizem que a Capital está
cheia de mulheres bonitas, com silicone...
– Não trairei você, minha querida... Escreverei sempre... Adeus...
(Um último beijo amargo, na porta do ônibus.)

O suor na testa faz deslizarem imagens distorcidas. Na cabeça dele, o olhar moribundo da mãe, as discretas lágrimas do pai. Se alguma força ainda lhe restasse, só diria: Sinto frio.


“Minha doce Carolina,
Movido pela saudade que me dilacera, escrevo a segunda carta
para você, neste dia tedioso. Espero que seu coração se aqueça com as palavras que a minha alma aqui registra.
Como já lhe escrevi anteriormente, continuo a trabalhar como
garçom, naquele restaurante movimentado, cheio de celebridades,
que às vezes me deixam polpudas gorjetas. O curso de teatro
continua, mas recusei a peça que me propuseram, por ainda me
achar incapacitado.
Tão logo tenha condições, volto para buscar você e os nossos sonhos, quando então nos casaremos. Me espere.
Sempre seu,
Alfredo”

Tocando de leve a testa, ele sente que o suor que ainda escorre engrossa cada vez mais. Desliza a mão novamente até o peito.


“Não me escreva mais. Estou de casamento marcado. Adeus.”
(Rasga o telegrama, o sonho, a alma.)

O gelo que agora sente na cabeça faz-lhe recordar o beijo – derradeiro – da mãe na testa dele, pouco antes de morrer. Tenta mover os lábios, que não obedecem mais.


- Vamos ensaiar texto de Plínio Marcos. Por que você não
vem com a gente?
- Preciso fazer alguma coisa com a minha vida,
antes que resolva me matar...
- Nem fale uma coisa dessas. Amanhã, neste horário,
vem para o ensaio. Plínio Marcos tem um papel pra você...
- Venho sim... Chega de tanto fugir do palco, que é a minha vida...

Um torpor faz o corpo inteiro dele estremecer. Uma ácida gosma escorre pelo canto da boca, enquanto o olhar permanece escuro – impassível.


- A cena precisa ser crua – um verdadeiro soco no
estômago. - grita o diretor – Marcação. Luzes. Repetindo!

A leve tontura faz com que ele pressinta agora o corpo flutuar. Sente a camisa empapando de grosso suor.


- Não, não e não. - esbraveja o diretor – Vocês não podem esquecer
dos olhos e do corpo, que fala mais que o texto.

Tonto, ainda tenta reagir. A mão repousa no peito, em completa desobediência. Dos olhos, pesadas lágrimas rendem-se ao espesso suor que faz brilhar o rosto lívido.


– É preciso colocar medo nos olhos. - ordena o diretor,
respirando fundo – Marcelo, segura mais firme esta arma. Alfredo,
olhos arregalados de pavor. Podem recomeçar a partir daí!...

O que  ele sente agora é o rosto encharcado de uma pasta que encobre os poros. Se ainda pudesse racionalizar alguma coisa, saberia que é sangue vivo a escorrer, misturando-se com suor frio.


– Alfredo, nosso Al Pacino brasileiro – brinca
o diretor -, depois do tiro, antes de cair, você
ainda fala através do olhar cravado
no Marcelo. Podem reiniciar a cena,
que até parece real...

De repente, um zunido ensurdecedor faz sacudir a cabeça dele. O corpo, estirado no asfalto, estremece, involuntariamente, com o frio que traz o estampido de volta, nesta noite suja de sangue. A rua permanece sombria, silenciosa. O estampido da bala perdida só ecoa ainda na cabeça dele, que nem chegou conhecer Al Pacino. Fim de cena.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Teu mar

Dora Brisa

Sou teu mar:
Silencioso, profundo,
Protegendo teu navegar
Dos perigos deste mundo...

Nas minhas profundezas,
Escondo teus segredos...
Entre minhas maiores riquezas,
Guardo o baú dos teus medos...

Sou teu mar,
Água morna com teu calor...
Chego em ondas para teu pranto molhar,
E, à noite, faço-me reflexo da lua - puro amor...

Estou sempre a te embalar...
Nas minhas águas calmas,
Chegas a sonhar
Com outros mundos, outras almas...

Sou teu mar...
Em noites de tempestade escura,
Te concentras a buscar
Aconchego, na direção segura...

Na minha vastidão,
Tua alma se desnuda:
És puro coração
Pulsando na melodia muda...

Sou teu mar...
A ti, presenteio todo meu natural:
Peixes, conchas, até estrelas a encantar
Tua vida previsível, com sabor de sal...

Infinito que pareço,
Diante da tua esperança infantil,
Silencioso, adormeço,
Inteiro, nas tuas mãos, teu servil...

Sou teu mar,
E assim sempre serei...
Tu - barco a me acompanhar...
Eu - tua bússola - seguirei...

Voz - Rosany Costa:

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Prelúdio

Dora Brisa

Minhas vestes são bandeiras
Brancas, tingidas de sangue.
Minha única arma é a palavra:
Fria, fere e mata a minha alma.
Quente, salva a minha loucura.
Vivo de grandes revoluções,
Só dentro de mim.
Nem faço mais perguntas,
Pois as respostas me perseguem,
Ávidas, irônicas, febris.
Só tenho duas máscaras,
Que não me foram herdadas:
Uma é a máscara de um palhaço,
Que matei, de tanto chorar
De rir da minha cara.
Outra, máscara de bicho-papão.
Essa é minha mesmo.
Tanto uma, quanta a outra
Provam minha incompetência,
Total inutilidade à vida humana.
Eu, que desumana sou,
Sem qualquer herança,
Eu, sem gestos,
Eu, sem olhares,
Eu, sem saber se sou,
Ou se um dia fui
O que nunca serei.
Se já não peço desculpas,
Por eu mesma existir,
É por desconfiar, na verdade,
Dessa existência de eu mesma.
Por vezes, sei que toco
A simplicidade e a complexidade
Do que chamam vida.
Mas meu astigmatismo
Só me permite enxergar
O que parece ser uma vida
Complexa, na simplicidade,
E tão simples, na complexidade.
Eu, desistente,
Eu, convencida de nada,
Eu, isenta de ser e não ser,
Silencio na resignação.
Aparentemente saudável,
Não desafio eletrodos.
Há muito, meu coração
Foi servido em banquete de vermes.
Depois, chegaram os abutres.
Há muito, é minha alma
Que pulsa, e sangra,
Sangra, pulsa.
Até o dia do nada.
O síndico do prédio anuncia
Que (ainda) estou viva:
- A senhora tem de pagar
O condomínio,
A conta do gás.
Ele não sabe que devo
O pagamento do meu parto
À rezadeira negra, que,
Numa cantilena de noite chuvosa,
Chorou, quando me viu nascer.
Definitivamente, não sei viver
Com os seres humanos,
Eu, desumana, que só
Aprendi a não ser.
A quem, e como, pagarei
O meu funeral indigente?
Eu, que nada sei de vida,
Menos ainda de morte.
Eu, que insisti em nascer,
Para ver a vida passar,
Pela janela embaçada,
Enquanto a morte me faz
Companhia, na sala de espera.
Eu, que nada sei de eterno,
Não compreendo o momentâneo.
Eu, que não sei andar na escuridão,
Silencio os olhos, diante da luz.
Eu, passado do futuro que recebi
De presente, enquanto dormia.
Mas ela insiste em repetir:
“Não entender é tão vasto”.
Ora, Clarice, vastidão é não existir.
Até Clarice continua viva,
Mais viva ainda, na morte.
E isso nada tem de eternidade:
As lembranças, as obras
Não a deixam morrer em paz.
Agora é tarde.
Mas não havia aviso prévio.
Existo.
E a minha existência é tão grandiosa,
Quanto a existência de uma pulga,
Que salta desapercebida,
Numa ida-e-vinda inconsequente,
Para depois deixar-se morrer,
Morrer tanto, sem precisar ser esquecida.
A palavra 'sempre' me assusta,
Enquanto morro, a cada 'nunca'.
Não sei o que fazer de mim,
Do que eu poderia ter sido,
Do que era para eu ter sido,
De tudo o que não quis ser,
Do nada que eu também recusei,
Do que não serei, não fui, não sou.
Não sei o que fazer com o que não sou,
E nada mais resta saber em mim.
Já fui ninguém, alguém viu.
Mas faz tanto tempo.
O que me sobra é não ser,
Enquanto o tempo finge existir.

sábado, 28 de novembro de 2015

Do diálogo

Dora Brisa

Surpreenda-me. Nada me fales do que – ainda – espero ouvir de ti. Não diga nada mais ao meu pensar. Uma só palavra só. O meu pensar anda cheio das tuas frases vazias.
Se queres que eu ainda te escute, dirija tuas palavras – sentidas – ao meu sentir, onde reside toda a minha compreensão. Ao meu pensar, deixo apenas que decodifique o que persiste de racional no meu sentir. Sem abstração.
Surpreenda-me. Nada me fales do que – ainda – espero ouvir de ti. Porque minha esperança sou eu – que já me tenho por inteira. De ti, o que preciso és tu – inteiro.
Não te admires, nem te assustes, se, no instante vazio, quando me pergunta o que penso – te respondo apenas: ar. Porque, neste momento exato, meu sentir se enche de ar, e outra palavra não cabe no meu pensar. Sinta comigo o ar – e esqueça a pergunta cheia de suposições, sem respiração. Inspira. Expira. Transpira comigo este instante que inspira por si só.
Deixa também eu olhar a paisagem pela janela da tua sala. Empresta os óculos escuros, porque também a mim, muitas verdades ofuscam. Eu, como tu, preciso de tempo para habituar minhas pupilas à claridade sem sombras.
Quando eu gritar por ti, venha correndo. Neste instante – único e breve -, um pássaro indefeso se equilibra na ponta fina de um galho. Observa o mínimo gesto que faço, para equilibrar-me nesta vida. Um só descuido – e voo rasante.
Continuo à espera do teu chamado, para o meu silêncio fazer companhia ao teu silêncio, diante do crepúsculo fatal. Até nossos silêncios tornarem-se um só – e único – silêncio, enquanto todos os gestos e pensamentos fenecem com o entardecer.
Depois disso tudo, já não seremos estranhos um para o outro. E já não precisarás mais perguntar-me coisa alguma, porque eu serei – inteira – resposta. E a tua sala será a nossa sala. Precisaremos de um só par de óculos escuros às duas pupilas nossas. E já não voaremos mais sozinhos, porque o nosso silêncio nos acompanhará. E nada mais precisaremos pensar. Porque o nosso sentir será delicado, único, como até o último instante do nosso diálogo vivido.

Voz - Rosany Costa:

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Tempus Fugit

Dora Brisa

Um dia,
Eu morrerei,
Tu morrerás,
Ele morrerá,
Nós morreremos,
Vós morrereis,
Eles morrerão.
Assim mesmo:
Num dia qualquer,
Numa noite qualquer.
Não importa.
Morreremos – todos.
No primeiro dia,
Chorarão a nossa morte,
Em lágrimas de saudade
E arrependimento.
No centésimo décimo sexto dia,
Lembrarão a nossa morte,
Na justificativa de um
Fracasso qualquer.
No milésimo centésimo terceiro dia,
Saberão a nossa morte,
Com a curiosidade turística
Do olhar que visita terra estranha.
No milionésimo vigésimo oitavo dia,
Já não chorarão, nem lembrarão a nossa morte.
No meio de entulhos ignorados pelo tempo,
Alguém (sem saber) guarda a nossa existência.
Displicentemente.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Anima

Dora Brisa

Hoje, sinto estar plena,
Plena de mim,
Plena em mim,
Plena comigo.
Fiz o que pude,
E o que não pude, também.
Se não fiz o que
Os outros desejavam,
Foi por não saber fazer,
Ou por não querer fazer,
Ou não querer saber fazer,
Ou nem lembro mais por quê.
Só não fiz o que
Dependia do outro, dos outros.
Se não foi feito,
Faltou o outro
(E eu a esperar).
Muitos não me compreenderam
(Nem eu me compreendo).
Alguns compreenderam-me pouco,
E assustaram-se
(Também, eu me assusto comigo).
Sonharam muitos sonhos,
Para mim
(Esqueceram de acordar-me).
Traçaram destinos,
À revelia da minha vida predestinada
(E eu em desatino).
Quiseram-me obediente,
Até previsível
(E eu fascinada pelo impossível).
Podaram minhas asas,
De onde nasceram
Sonhos que não voam.
Tentei falar-lhes,
Pelo idioma humano,
Mas sou indomável às palavras.
Das vidas que não vivi,
Restou-me dor dilacerante,
Ancestral!...
E o que sei é que guardo
Lembranças do que viverei,
E isso dilacera de dor,
As minhas memórias mais antigas.
Por isso, também,
Sinto-me plena,
Tão plena,
Que poderia morrer,
Nesta madrugada
Mais plena que eu,
E menos fria.
E não haverá vida
Que saiba da vida minha...

Voz – Rosany Costa:

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Preâmbulo

Dora Brisa

A primeira vez que ela o enxergou era um dia qualquer, sem previsão de “grande amor”, no horóscopo que leu no jornal do dia. Como todos os encontros, também esse foi casual. O olhar dele era fixo – o olhar dela sabia que ele a seguia. Ela fingiu não perceber, e seguiu em frente, sem saber mais aonde ia. Ele ficou lá – estático, com o olhar ainda fixo.
Depois que dobrou a esquina, cambaleando, ela entrou numa lanchonete qualquer, pediu água com gás, e parou para pensar, enquanto retinha na boca, cada gole da água gelada, até sentir todas as bolhas de gás deslizarem pela garganta seca. Aquele olhar fixo, no semblante de serenidade dele, permaneceu com ela, até que desistiu de tentar lembrar aonde teria de ir, e voltou para casa.
O apartamento quase vazio tinha as marcas do final do casamento dela. O ex-marido levara quase todos os móveis, os livros, as louças, os dvds, os eletrodomésticos, os cds, e até a coleção de discos de vinil dela, que não se importara. Só não levou o filho que ela tanto sonhara, e ele evitara – até o fim. Pela primeira vez, ela lembra a separação, e isso não chega causar-lhe mal, nem perda. Quanto tempo faz?... Ela não sabe, não quer saber, nem pensar.
Involuntariamente, ela recorda o olhar fixo do homem que encontrou na calçada qualquer. Não era atração física – ela sabia, por que, depois da separação, aventurou-se em alguns relacionamentos, por atração física. Viveu bons momentos – momentos que não passaram de momentos mesmo. Em cada caso que teve (foram poucos), buscou o olhar do homem que tomava-lhe nos braços, mas nada enxergava, além da superfície. Nunca tinha visto um olhar tão fixo, quanto daquele desconhecido, que ela nem chegou reparar nas roupas dele.
Chegou pensar em voltar àquela rua, àquela calçada. Não. Seria esforço perdido. O mais certo era que também ele estivesse de passagem por ali. Mas ele não era estranho a ela, mesmo sem saber quem ele era.
O tempo continuou passando. A vida continuou sendo vivida – ou não. Num outro dia qualquer, ela volta àquela calçada, aonde enxergara, pela primeira vez, aquele olhar tão fixo. E lá está ele, sentado, olhando à rua. Mais uma vez, ela sente aquele olhar fixar-se na presença dela, que, por um instante, para na calçada, esboça um sorriso, que não chega ser correspondido. Mais uma vez, ela desiste – o olhar fixo a intimida. Tropeçando na calçada, ela sabe que o olhar dele a segue – fixo.
Com férias do trabalho, ela resolve reorganizar o apartamento – um jeito útil de ocupar-se, movimentando a nova vida. Com as economias que fez, comprou cortinas coloridas – e leves, e soltas nas janelas. Fez doação do sofá aonde estava dormindo, desde a separação (o ex-marido levara os móveis do quarto do casal). Comprou estofados novos, coloridos, e televisão nova, novos dvds, novos cds, cozinha nova. Ainda falta-lhe uma estante, para comprar novos livros, nos velhos sebos da cidade.
Almoça, e resolve procurar uma estante – pequena, funcional. Sai de casa a pé, desce a avenida principal, dobra à esquerda, atravessa a rua, e se depara na mesma calçada da loja aonde (ela intui) o olhar fixo trabalha. Lá está ele. Pela primeira vez, ela o enxerga, além do olhar: ele é alto, elegante, charmoso, mas o que mais a instiga é aquele olhar fixo que a penetra, no mais fundo da alma.
Ela o cumprimenta, brevemente: Olá! Acelera os passos, imaginando que ele tenha retribuído o cumprimento, mantendo o olhar fixo, que a acompanha agora, ao dobrar a esquina. O coração dela acelera. Ela transpira ansiedade.
É noite. Ela organiza alguns poucos livros que conseguiu no sebo mais próximo, depois de comprar a pequena estante, instalada na sala. Aquele olhar fixo tira-lhe qualquer pensamento. Ela esboça sorriso maroto, e planeja voltar àquela calçada, quem sabe até entrar na loja onde ele trabalha, no dia seguinte.
Quando acorda, já passa do meio-dia. Não se importa. Está em férias. Resolve almoçar no restaurante que viu, próximo à loja em que ele trabalha. “O destino pode nos aproximar, num almoço” – pensa, confiante. Depois do banho, ela fica escolhendo a roupa que vai vestir – há tanto tempo não fazia mais isso. Resolveu sair com o vestido vermelho, que comprou na liquidação de uma loja do shopping da zona sul. Salto alto, lá vai ela, chamando a atenção de todos, pela calçada. Quando se aproxima do que chama “destino”, o olhar fixo não está lá, próximo ao balcão da loja. Nem sinal dele. Ela finge olhar a vitrine, perscrutando todo o interior da pequena loja. Nada. Desiste de ir ao restaurante – não quer mais almoçar. Volta para casa, desolada. Nem sabe onde ele mora, para procurá-lo. Nem sequer o nome dele.
Os dias dela seguem vazios, ansiosos, sem a presença dele, naquela redoma de vidro. Ansiosa, ela segue o ritual, diariamente, às vezes até, pela manhã e à tarde – para diante da loja, fazendo de conta que está interessada em alguma roupa exposta na vitrine, e se afasta. Não chega chamar a atenção das funcionárias, por que a loja tem bastante movimento, e todas estão ocupadas em bem atender os clientes que adentram.
Dias depois (para ela, anos de ansiedade), quando passa pela porta da loja, o vê – o mesmo olhar fixo, dessa vez, não para ela. Ele está sentado, com os braços relaxados nos ombros de uma mulher, que ajeita-lhe a gravata ao colarinho salmão. O corpo da mulher está entre as pernas dele, que, sentado, fixa todo o olhar à mulher que sorri. Ela observa, minuciosamente, a cena inteira, estarrecida. Vai embora.
Em casa, desaba em choro, no sofá novo que comprara na liquidação. “Boba! Boba! Mil vezes, boba!” – grita para si mesma, e chora mais ainda, até adormecer.
O tempo passando, e ela sem passar na frente daquela loja. Num dia qualquer, como aquele em que, pela primeira vez, os olhares de ambos se cruzaram, ela se vê diante da loja, onde o olhar fixo permanece, solitário. Sem pensar, impetuosamente, ela resolve transpor a redoma de vidro. Entra na loja. Caminha, com segurança, em direção daquele olhar, que, a cada passo dela, torna-se cada vez mais fixo. Quando fica diante dele, ela fala alto, gesticula, grita mesmo – o olhar, cada vez mais fixo, silencioso. Repentinamente, ela começa a quebrar os objetos da vitrine. Segura, com toda força, uma caixa enorme de estecas, e arremessa contra o vidro da vitrine, que estilhaça, chamando a atenção dos transeuntes. Alguns correm, outros chamam a polícia.
No dia seguinte, ela não quer acordar, nem levantar. Os vizinhos do apartamento não a veem mais sair, nem voltar. Numa loja qualquer, a vitrine exibe o mesmo manequim, de olhar fixo, feito de argila, abraçando o corpo de uma mulher, também feita de argila, sem cabeça.