Dora Brisa
Quando, dos teus olhos amedrontados,
Escapuliram duas lágrimas,
Desesperei.
Enquanto um beijo meu as recolhia,
Outras tantas lágrimas
Vieram juntar-se aos meus lábios.
E o meu beijo,
Que nascera doce,
Acabou por salgar-se
(afogar-se)
No mar do teu pranto,
Que era também meu.
Até hoje,
Tuas lágrimas esperam
Por meu beijo,
Que chora a ausência
Dos teus olhos,
Sem sequer um adeus.
Voz - Eduardo Cunha:
terça-feira, 30 de novembro de 2010
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
Procura
Dora Brisa
Quero ouvir aquela canção
Que canta o amor, a paz,
O olhar, o perdão,
E muito mais...
Não é essa música, não,
Nem aquela lançada ano passado...
É outra, que fala de tudo do coração,
Extingue a palavra pecado...
Também quero aquela poesia
Que fala de outros tempos,
Do nosso dia-a-dia,
Quando voávamos com outros ventos...
Não, não é aquela poesia,
Porque falta alguma coisa nela:
Talvez uma rede vazia,
Ou uma esperança na janela...
Quero música, poesia,
Procuro-as por todo lugar,
Mas nada preenche minha busca vazia,
E louca continuo a pesquisar...
Cansada de vasculhar,
Deixo minha procura, enfim...
Sozinha, busco o caminho do mar:
Eis a música e a poesia dentro de mim...
Voz - Rosany Costa:
Quero ouvir aquela canção
Que canta o amor, a paz,
O olhar, o perdão,
E muito mais...
Não é essa música, não,
Nem aquela lançada ano passado...
É outra, que fala de tudo do coração,
Extingue a palavra pecado...
Também quero aquela poesia
Que fala de outros tempos,
Do nosso dia-a-dia,
Quando voávamos com outros ventos...
Não, não é aquela poesia,
Porque falta alguma coisa nela:
Talvez uma rede vazia,
Ou uma esperança na janela...
Quero música, poesia,
Procuro-as por todo lugar,
Mas nada preenche minha busca vazia,
E louca continuo a pesquisar...
Cansada de vasculhar,
Deixo minha procura, enfim...
Sozinha, busco o caminho do mar:
Eis a música e a poesia dentro de mim...
Voz - Rosany Costa:
terça-feira, 23 de novembro de 2010
Preludio
Dora Brisa
Minhas vestes são bandeiras
Brancas tingidas de sangue.
Minha unica arma é a palavra:
Fria, fere e mata a minha alma.
Quente, salva a minha loucura.
Vivo de grandes revoluções,
Só dentro de mim.
Nem faço mais perguntas,
Pois as respostas me perseguem,
Avidas, ironicas, febris.
Só tenho duas mascaras,
Que não me foram herdadas:
Uma é a mascara de um palhaço
Que matei de tanto chorar
De rir da minha cara.
Outra, mascara de bicho-papão.
Essa é minha mesmo.
Tanto uma, quanta a outra
Provam minha incompetencia,
Total inutilidade à vida humana.
Eu, que desumana sou,
Sem qualquer herança,
Eu, sem gestos,
Eu, sem olhares,
Eu, sem saber se sou,
Ou se um dia fui
O que nunca serei.
Se já não peço desculpas
Por eu mesma existir,
É por desconfiar, na verdade,
Dessa existencia de eu mesma.
Por vezes, sei que toco
A simplicidade e a complexidade
Do que chamam vida.
Mas meu astigmatismo
Só me permite enxergar
O que parece ser uma vida
Complexa na simplicidade,
E tão simples na complexidade.
Eu, desistente,
Eu, convencida de nada,
Eu, isenta de ser e não ser,
Silencio na resignação.
Aparentemente saudável,
Não desafio eletrodos.
Há muito, meu coração
Foi servido em banquete de vermes.
Depois, chegaram os abutres.
Há muito, é minha alma
Que pulsa, e sangra,
Sangra, pulsa.
Até o dia do nada.
O sindico do predio anuncia
Que (ainda) estou viva:
- A senhora tem de pagar
O condominio,
A conta do gás.
Ele não sabe que devo
O pagamento do meu parto
À rezadeira negra, que,
Numa cantilena de noite chuvosa,
Chorou, quando me viu nascer.
Definitivamente, não sei viver
Com os seres humanos,
Eu, desumana, que só
Aprendi a não ser.
A quem, e como, pagarei
O meu funeral indigente?
Eu, que nada sei de vida,
Menos ainda de morte.
Eu, que insisti em nascer,
Para ver a vida passar,
Pela janela embaçada,
Enquanto a morte me faz
Companhia, na sala de espera.
Eu, que nada sei de eterno,
Não compreendo o momentaneo.
Eu, que não sei andar na escuridão,
Silencio os olhos, diante da luz.
Eu, passado do futuro que recebi
De presente, enquanto dormia.
Mas ela insiste em repetir:
“Não entender é tão vasto”.
Ora, Clarice, vastidão é não existir.
Até Clarice continua viva,
Mais viva ainda, na morte.
E isso nada tem de eternidade:
As lembranças, as obras
Não a deixam morrer em paz.
Agora é tarde.
Mas não havia aviso previo.
Existo.
E a minha existencia é tão grandiosa,
Quanto a existencia de uma pulga,
Que salta desapercebida,
Numa ida-e-vinda inconsequente,
Para depois deixar-se morrer,
Morrer tanto, sem precisar ser esquecida.
A palavra 'sempre' me assusta,
Enquanto morro, a cada 'nunca'.
Não sei o que fazer de mim,
Do que eu poderia ter sido,
Do que era para eu ter sido,
De tudo o que não quis ser,
Do nada que eu também recusei,
Do que não serei, não fui, não sou.
Não sei o que fazer com o que não sou,
E nada mais resta saber em mim.
Já fui ninguém, alguém viu.
Mas faz tanto tempo.
O que me sobra é não ser,
Enquanto o tempo finge existir.
Minhas vestes são bandeiras
Brancas tingidas de sangue.
Minha unica arma é a palavra:
Fria, fere e mata a minha alma.
Quente, salva a minha loucura.
Vivo de grandes revoluções,
Só dentro de mim.
Nem faço mais perguntas,
Pois as respostas me perseguem,
Avidas, ironicas, febris.
Só tenho duas mascaras,
Que não me foram herdadas:
Uma é a mascara de um palhaço
Que matei de tanto chorar
De rir da minha cara.
Outra, mascara de bicho-papão.
Essa é minha mesmo.
Tanto uma, quanta a outra
Provam minha incompetencia,
Total inutilidade à vida humana.
Eu, que desumana sou,
Sem qualquer herança,
Eu, sem gestos,
Eu, sem olhares,
Eu, sem saber se sou,
Ou se um dia fui
O que nunca serei.
Se já não peço desculpas
Por eu mesma existir,
É por desconfiar, na verdade,
Dessa existencia de eu mesma.
Por vezes, sei que toco
A simplicidade e a complexidade
Do que chamam vida.
Mas meu astigmatismo
Só me permite enxergar
O que parece ser uma vida
Complexa na simplicidade,
E tão simples na complexidade.
Eu, desistente,
Eu, convencida de nada,
Eu, isenta de ser e não ser,
Silencio na resignação.
Aparentemente saudável,
Não desafio eletrodos.
Há muito, meu coração
Foi servido em banquete de vermes.
Depois, chegaram os abutres.
Há muito, é minha alma
Que pulsa, e sangra,
Sangra, pulsa.
Até o dia do nada.
O sindico do predio anuncia
Que (ainda) estou viva:
- A senhora tem de pagar
O condominio,
A conta do gás.
Ele não sabe que devo
O pagamento do meu parto
À rezadeira negra, que,
Numa cantilena de noite chuvosa,
Chorou, quando me viu nascer.
Definitivamente, não sei viver
Com os seres humanos,
Eu, desumana, que só
Aprendi a não ser.
A quem, e como, pagarei
O meu funeral indigente?
Eu, que nada sei de vida,
Menos ainda de morte.
Eu, que insisti em nascer,
Para ver a vida passar,
Pela janela embaçada,
Enquanto a morte me faz
Companhia, na sala de espera.
Eu, que nada sei de eterno,
Não compreendo o momentaneo.
Eu, que não sei andar na escuridão,
Silencio os olhos, diante da luz.
Eu, passado do futuro que recebi
De presente, enquanto dormia.
Mas ela insiste em repetir:
“Não entender é tão vasto”.
Ora, Clarice, vastidão é não existir.
Até Clarice continua viva,
Mais viva ainda, na morte.
E isso nada tem de eternidade:
As lembranças, as obras
Não a deixam morrer em paz.
Agora é tarde.
Mas não havia aviso previo.
Existo.
E a minha existencia é tão grandiosa,
Quanto a existencia de uma pulga,
Que salta desapercebida,
Numa ida-e-vinda inconsequente,
Para depois deixar-se morrer,
Morrer tanto, sem precisar ser esquecida.
A palavra 'sempre' me assusta,
Enquanto morro, a cada 'nunca'.
Não sei o que fazer de mim,
Do que eu poderia ter sido,
Do que era para eu ter sido,
De tudo o que não quis ser,
Do nada que eu também recusei,
Do que não serei, não fui, não sou.
Não sei o que fazer com o que não sou,
E nada mais resta saber em mim.
Já fui ninguém, alguém viu.
Mas faz tanto tempo.
O que me sobra é não ser,
Enquanto o tempo finge existir.
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Assim será
Dora Brisa
Um dia, minhas mãos
Não vão mais um gesto esboçar...
Um dia, meus pés
Não mais tropeçarão no meu andar...
Um dia,
Não mais meterei os pés pelas mãos,
Na vida que me foi dada,
tirada...
Um dia,
Restarão (ainda) os toques sonhados,
Os passos imaginados,
A vida que andou
Pelos meus pés,
Pelas minhas mãos deslizou ...
Depois de tanta escuridão,
Assim será – um dia...
Voz - Elisa:
Um dia, minhas mãos
Não vão mais um gesto esboçar...
Um dia, meus pés
Não mais tropeçarão no meu andar...
Um dia,
Não mais meterei os pés pelas mãos,
Na vida que me foi dada,
tirada...
Um dia,
Restarão (ainda) os toques sonhados,
Os passos imaginados,
A vida que andou
Pelos meus pés,
Pelas minhas mãos deslizou ...
Depois de tanta escuridão,
Assim será – um dia...
Voz - Elisa:
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
Das alegrias e das dores
(Foto: Guilherme -Amapá)Dora Brisa
Quando me soltaram no mundo, nada me disseram sobre dores, ou alegrias. Tateando, engatinhando, fui descobrindo que não existe dor maior, ou dor menor. Nem tampouco a alegria é mensurável, comparável. Cada dor é única. Cada alegria também. Fatal. E foi assim que descobri ainda que a alegria e a dor são – essencialmente – solitárias, mesmo quando acompanhadas de um outro sorriso, uma outra lágrima.
Quando me soltei no mundo, eu nada sabia de solidão – a mais autêntica solidão sentida na companhia de um outro alguém solitário. Mas ainda restava o dentro de mim – que sobrevivia num buraco encrustado no canto do porão escuro. Num ímpeto de busca de ar, meus olhos se ofuscaram diante da luz do sol. E já não havia como voltar ao porão escuro, porque a porta se trancou por dentro, como a recusar o calor do dia. Gotas de chuva de verão lavaram minha alma, que enxergava agora a casa abandonada, que sempre esteve acima do porão. Aos poucos, escancarei portas e janelas dessa casa, lavei tudo com água pura, ajeitei os móveis, coloquei a vida no lugar.
Hoje, solta no mundo – depois que meu velho pai deixou-me aos cuidados de mim mesma -, ainda me extasio diante da dor e da alegria. A dor, desde sempre, me é subjetiva: não aprendi a sofrer pelo efeito, mas sim, pela causa: sempre a maldade humana (a mesma raça de onde provêem também as minhas maldades – sou pré-histórica). Já minhas alegrias – sempre digo – são simplórias. Às vezes, um leve roçar de penas de passarinho em vôo, pelo meu rosto, traz a alegria do meu dia. Ou então os olhos arregalados e a boca aberta em baba da criança que solta um balão pelos ares. Isso faz meu olhar brilhar da mais pura alegria. Mas confesso também que sinto as dores e as alegrias do mundo. Tudo e todos tocam profundamente minha sensibilidade desnuda de vaidades, ou orgulhos. Há muito, não somo dores-alegrias, anos-dias. Apenas vivo: descoberta...
Quando me soltei no mundo, eu nada sabia de solidão – a mais autêntica solidão sentida na companhia de um outro alguém solitário. Mas ainda restava o dentro de mim – que sobrevivia num buraco encrustado no canto do porão escuro. Num ímpeto de busca de ar, meus olhos se ofuscaram diante da luz do sol. E já não havia como voltar ao porão escuro, porque a porta se trancou por dentro, como a recusar o calor do dia. Gotas de chuva de verão lavaram minha alma, que enxergava agora a casa abandonada, que sempre esteve acima do porão. Aos poucos, escancarei portas e janelas dessa casa, lavei tudo com água pura, ajeitei os móveis, coloquei a vida no lugar.
Hoje, solta no mundo – depois que meu velho pai deixou-me aos cuidados de mim mesma -, ainda me extasio diante da dor e da alegria. A dor, desde sempre, me é subjetiva: não aprendi a sofrer pelo efeito, mas sim, pela causa: sempre a maldade humana (a mesma raça de onde provêem também as minhas maldades – sou pré-histórica). Já minhas alegrias – sempre digo – são simplórias. Às vezes, um leve roçar de penas de passarinho em vôo, pelo meu rosto, traz a alegria do meu dia. Ou então os olhos arregalados e a boca aberta em baba da criança que solta um balão pelos ares. Isso faz meu olhar brilhar da mais pura alegria. Mas confesso também que sinto as dores e as alegrias do mundo. Tudo e todos tocam profundamente minha sensibilidade desnuda de vaidades, ou orgulhos. Há muito, não somo dores-alegrias, anos-dias. Apenas vivo: descoberta...
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Poeta
(À Cecília Meireles)
Dora Brisa
A porta do meu coração
Continua aberta
Mas não sou poeta
Só choro
Quando a saudade aperta
Mas não sou poeta
Alguns “normais”
Me consideram pouco esperta
Mas não sou poeta
Me perco nas palavras
Sou tão indireta
Mas não sou poeta
Quase sempre viajo
Em Alfa, Beta
Mas não sou poeta
Nas tempestades
Minha pequenez permanece ereta
Mas não sou poeta
Meu pensar tem asas
De matéria concreta
Mas não sou poeta
Meu sentir vagueia
Além da vida incompleta
Mas não sou poeta
Meu olhar sobrevive
Em estado de alerta
Mas não sou poeta
Minhas mãos e meus braços suportam
A carga aparentemente correta
Mas não sou poeta
Diante da música
Minha alma desperta
Mas não sou poeta
Minha vida sem mistérios
É simples, discreta
Mas não sou poeta
Minha alma torta
Tenta caminhar em linha reta
Mas não sou poeta
Tão-somente escrevo o que
Me transcende, me liberta
Mas não sou poeta
Cecília é – e sempre será – poeta,
Em cada verso,
Em cada crônica,
Na sensibilidade descoberta...
Voz - Sereníssima:
Dora Brisa
A porta do meu coração
Continua aberta
Mas não sou poeta
Só choro
Quando a saudade aperta
Mas não sou poeta
Alguns “normais”
Me consideram pouco esperta
Mas não sou poeta
Me perco nas palavras
Sou tão indireta
Mas não sou poeta
Quase sempre viajo
Em Alfa, Beta
Mas não sou poeta
Nas tempestades
Minha pequenez permanece ereta
Mas não sou poeta
Meu pensar tem asas
De matéria concreta
Mas não sou poeta
Meu sentir vagueia
Além da vida incompleta
Mas não sou poeta
Meu olhar sobrevive
Em estado de alerta
Mas não sou poeta
Minhas mãos e meus braços suportam
A carga aparentemente correta
Mas não sou poeta
Diante da música
Minha alma desperta
Mas não sou poeta
Minha vida sem mistérios
É simples, discreta
Mas não sou poeta
Minha alma torta
Tenta caminhar em linha reta
Mas não sou poeta
Tão-somente escrevo o que
Me transcende, me liberta
Mas não sou poeta
Cecília é – e sempre será – poeta,
Em cada verso,
Em cada crônica,
Na sensibilidade descoberta...
Voz - Sereníssima:
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