sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Estátua de sal

Dora Brisa

É noite escura...
É madrugada fria...
Busco o mar,
Tão novo,
Tão antigo...
Quero afogar-me
Com tanta vida à beira.
Sorvo, lentamente,
Na concha das minhas mãos,
Toda vida que
O mar regurgita,
Entre fúria e desespero.
O mar, sedutor como a vida,
Leva-me com ele,
Num balanço encantado
De ondas invisíveis.
Doloridamente, o mar
Abre-me, num soluço,
Todas as feridas d'alma,
Esculpindo-me estátua de sal.
Os meus pés presos à areia,
A minha alma solta no mar...
Ainda assim, quero a vida,
A vida que escapou-me
Nas águas de um mar
Talvez mais profundo,
Talvez mais escuro,
Talvez mais amedrontador...
O mar parece compreender-me
Os pensamentos d'alma,
E liberta meus passos,
Que nunca tiveram chão...
Na superfície, adormece o mar...
Do fundo das águas,
Desperta a vida sufocada...
O mar arremessa-me o corpo,
Arranca-me o medo...
Também ele sabe que
Vivo só em desequilíbrio...
Eis que ressuscito das águas,
Estátua de sal que sou,
Fruto agora do mar,
Concha vazia, oca,
Sem pérola, sem voz...
O mar penteia-me os cabelos
De estátua, como escultor
A cuidar da obra inacabada...
Águas salgadas escorrem
Pelo meu corpo que se liquefaz,
A cada onda latejante do mar...
O sal encharca e cobre
As feridas da estátua,
Onde, no fundo escuro, a alma
Se contorce em dor...
No horizonte, o dia
Faz o mar despertar,
E já não há mais sonho,
Nem vontade de dormir...
A janela entreaberta
Traz o mar para dentro
Do quarto da estátua de sal,
Que ainda se contorce, se desfaz
Em lágrimas e sangue salgados,
Encharcados pelo mar,
Que tudo leva, pouco refaz...

Voz - Elisa:

Incógnita

Dora Brisa

Não te peço que me compreendas,
Nem que traduzas meus sonhos,
Meus pesadelos...
Não quero que definas
O que penso,
O que sinto...
Nada te imploro,
Porque também eu não me compreendo,
E meus sonhos confundem-se com pesadelos...
Não sei onde começa meu pensar,
Nem aonde termina meu sentir...
Na minha tentativa
De simplesmente existir,
Tornei-me uma incógnita para mim mesma:
Nem isso entendo...
Caminha comigo,
Aceita esta companhia incógnita,
Ilumina a sombra que denuncia
Meus passos inseguros...
Escuta comigo
O eco do meu silêncio,
E limpa minhas vistas embaçadas
Pelas imagens repetitivas...
Clareia comigo todos os cantos
Deste grande labirinto,
Que, para justificarmos a própria morte,
Chamamos vida...

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Aceita

Dora Brisa

Aceita esta minha alma vadia
Torta
Vazia
Que persiste em endireitar a vida...

Aceita este meu silêncio profundo
Mendigo
Imundo
Que carrego na estrada perdida...

Aceita estes meus cantos sombrios
Úmidos
Vazios
Que surgem diante da tua luminosidade...

Aceita esta minha esperança escondida
Triste
Rendida
Que fica sempre na fresta da possibilidade...

Aceita estes meus vazios,
Que preenchem o nada que sou...

Aceita este meu cansaço de alma,
Que em ti descanso – e não me vou...

Aceita estes meus descaminhos,
Todos seguidos por alguma razão que não descobri...

Aceita, enfim, esta alma desalmada
Lavada
Desarmada
Nua diante de ti...
Aceita...

Voz - Rosany Costa:

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

A música da vida

Dora Brisa

Desde sempre, tenho o hábito das longas caminhadas. Herdei do meu pai, que ensinou-me a concatenar os pensares, dentro de um só sentir, a cada passo. Foi com meu pai também que habituei-me a partilhar meus pensares, durante essas caminhadas. Como meu pai já não caminha nesta estrada comigo, divido agora meu pensar com vocês.
Pois bem. Hoje foi mais um dos meus tantos dias de caminhada sem destino. De repente, ao atravessar uma rua qualquer, ouço um assovio logo atrás. Uma mulher simples cantarolava, assoviando. Imaginem – ou pelo menos tentem – as fisionomias, primeiro espantadas, depois sisudas, dos homens que passavam. Mas a mulher não parecia preocupar-se com isso, ou com qualquer outra coisa. E seguiu assoviando pela calçada.
O assovio (até bem afinado) foi sumindo na multidão, e eu fiquei perdida em meus pensares, meus sentires. E é isso que quero compartilhar com vocês: Vocês já pararam pra pensar que tudo, tudo mesmo, na nossa vida, é musical?
É verdade. Reparem no rangido de uma porta. Agucem os ouvidos à queda livre das gotas – metódicas – de água de uma torneira mal fechada. Se a pia estiver tampada (nossa!), que música única... Falando em água, tem a melodia do chuveiro (que faz de você, o maestro, ou o próprio cantor, para acompanhar o fundo musical). E a música da chuva – já pararam pra escutar? Quando era criança, e chovia, eu corria para um galpão coberto de zinco, que a minha avó tinha na chácara. Bastava uma garoa, para parecer um orquestra inteirinha...
E os mais variados sons do vento – quem nunca escutou? A brisa?... O vendaval?... Tudo, música da vida...
Sem contar as incontáveis melodias (às vezes, ruidosas) dos motores. A começar pelos eletrodomésticos. Depois, passemos para os automóveis, aviões. Alguém já se deteve em ouvir o som do remo em atrito com a água? Lindo demais, que chega a lembrar Vivaldi. Não sei por quê. A garoa batendo no zinco faz lembrar Beethoven. Mozart – o som do vento incontrolado, incontrolável, vindo e indo em todas as direções. Para Schubert, eu deixaria as gotas solitárias – caindo uma a uma, numa pia tampada. E Liszt ficaria com os acordes dos primeiros pássaros, numa manhã ensolarada. Chopin traz a lembrança do sonoro carro de bois a puxar o arado que rasga a terra molhada pela chuva, em entrega mútua. Isso. Chopin lembra em tudo mesmo, inclusive o cheiro da terra molhada. Para Bach, eu entregaria o som melodioso do almoço de domingo sendo preparado no fogão. Enquanto a água ferve, a panela faz borbulhar a comida, e o assovio da panela de pressão completa a orquestra, com o tilintar dos pratos, copos e talheres na mesa...
Depois de tanta ousadia, permitam ainda que eu repita: Tudo, tudo mesmo, na vida é musical. Por isso, a vida sem música não seria música, nem vida. Definitivamente.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Amnésia

Dora Brisa

Quando aqui cheguei,
Percebi que tinha perdido algo
(a memória? talvez!).
Esqueci que amor hoje
Pode ser indiferença amanhã,
Que revolta pode ser
Egoísmo simplesmente,
Que a vida pode representar
Somente nascer, viver, morrer.
Quando aqui cheguei,
Não sabia mais nada,
Nem que a inveja pode
Apresentar-se vestida de admiração,
Nem que a falsidade pode
Esconder-se no reflexo de doçura,
Nem que muitos castelos, casarões podem
Ser refúgio de máscaras familiares,
Nem que a luz pode esconder a escuridão.
Quando aqui cheguei,
Havia esquecido que,
Assim como se vive por amor,
Também se mata - se morre - por ele.
Eu - juro - não sabia
Que uma inofensiva faca de cozinha
Pode cortar mais que uma cebola.
Eu tinha esquecido que um olhar
Pode brilhar também de raiva.
Quando aqui cheguei,
Não pude ensaiar
Meu primeiro passo:
Simplesmente tropecei
Dentro de mim,
Embaracei - perdi -
O fio da meada,
Porque não havia memória,
E o pouco do nada esqueci.
Quando aqui cheguei,
Segui a marginália errante,
Que busca perguntas,
Rejeita respostas,
Foge do que alumia,
Salvando-se no colo da escuridão.
E já não me faz falta a memória,
Esse saber que nunca tive,
Porque a loucura não me deixa só na história.

Voz - Helena Antoun:

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Hora extrema

Dora Brisa

Oh, Deus dos cristãos,
Jeová dos testemunhas,
Buda dos orientais,
Deuses africanos,
Ou seja lá mais quem for!
É a Vós todos que dirijo
Minha (única) oração
Miserável, atrasada,
Igual minha vida,
Que se acaba,
Antes de começar.
Oh, Deuses, a quem todos
Ajoelham-se, nos altares
De uma fé que desconheço,
Não peço-vos que me tirem
A vida, por que a vida
Abandona o que é vivo,
E tudo e nada levam à morte,
Seja o caminho que for.
Peço-vos que me arranquem
A alma, essa alma maltrapilha,
Alma chamuscada por dores
De uma vida torta, desumana,
Desaprendida, a cada dia.
Dai-me, oh Deuses,
O descanso do não-existir,
As cinzas de uma alma inútil!...
Calai meu último grito,
Quebrai os sonhos dessa alma
Que não dorme o sono do ser...
Fechai todas as portas
Das efêmeras possibilidades...
Sufocai a minha alma, no canto
Mais mudo, e escuro, e frio,
Até que, dos meus lábios arroxeados,
Não saia sequer o murmúrio:
Amém!...

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Canto ao mar

Dora Brisa

Oh, mar, que me fitas
Com o olhar infinito...
Oh mar, me digas:
O que silencio no grito?...

Oh, mar, que tudo traduz,
Tirando da lágrima, o sal...
Oh, mar, por que não me seduz?
Por que não lava o meu mal?...

Oh, mar, que me espreita,
Calmo até onde posso ver...
Oh, mar, por que viver contrafeita,
Num mundo em que não posso ser?...

Oh, mar, que me vigia,
Silencioso no seu ondular...
Oh, mar, não me dê mais um dia,
Nesta vida que nunca chega clarear...

Oh, mar, que me fascina,
Por simplesmente existir...
Oh, mar, venha e me ensina:
Como chegar, sem ter de partir?...

Oh, mar, que nada me responde,
Venha tua náufraga embalar...
Oh, mar, só me diga aonde
Há porto seguro para eu repousar...

Voz - Rosany Costa: